Sociedade

Linchamentos revelam descrença na segurança pública e avanço da lógica do ‘justiçamento’, diz pesquisador

No caso mais recente, um ciclista morreu espancado no Rio de Janeiro, após ser confundido com um ladrão de bicicletas

Linchamentos revelam descrença na segurança pública e avanço da lógica do ‘justiçamento’, diz pesquisador
Linchamentos revelam descrença na segurança pública e avanço da lógica do ‘justiçamento’, diz pesquisador
Créditos: Reprodução
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O recente linchamento de um ciclista no Rio de Janeiro não é um caso isolado no País. O Brasil registrou 223 casos de linchamento em 2024 e 227 em 2025. Neste ano, até maio, já são 88 casos.

Os dados são relativos a nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, morreu após ser brutalmente espancado por três homens em Copacabana, zona sul da capital fluminense. O homem teria sido confundido com um ladrão de bicicleta.

Para o coordenador de pesquisa da rede, Jonas Pacheco, o episódio tem ao centro a descrença da sociedade brasileira na segurança pública, representada pelo Estado e por seus aparatos de força, como as polícias. A insatisfação da população, até então legítima, tem ganhado contornos perigosos e ilegais a partir da lógica do ‘justiçamento’, tese muito bem representada pela extrema-direita brasileira.

“Essa lógica ganhou muita força de 2018 para cá, quando o bolsonarismo deu ênfase ao discurso do ‘bandido bom é bandido morto'”, afirma. “A perspectiva do linchamento é a de que a sociedade brasileira elege quem são as pessoas aptas a serem vítimas dessa violência, o que transpassa as instituições de direito democrático que o Brasil estabeleceu”, completa.

Confira os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: O que esse caso recente do linchamento no Rio de Janeiro revela?

Jonas Pacheco: Esse episódio mostra a relação histórica da sociedade brasileira com a segurança pública, marcada por uma descrença nas instituições. Se você tem alguém cometendo um crime e você parte para a agressão, que muitos autores chamavam de justiça popular, você já traz dentro desse contexto uma descrença nas instituições, nas polícias e uma tentativa de fazer justiçamento. O fenômeno do linchamento deixa isso muito claro.

E essa lógica ganhou muita força de 2018 para cá, quando o bolsonarismo deu muita ênfase ao discurso do ‘bandido bom é bandido morto’, que não é pensado para solucionar a questão da segurança pública. É pensado apenas para punir uma pessoa que, supostamente, cometeu um crime e não pode ser regenerada. Então, se há uma perspectiva dentro do linchamento e na sociedade brasileira que elege quem são as pessoas aptas a serem linchadas, isso transpassa as instituições de direito democrático que o Brasil estabeleceu.

O Rio de Janeiro já chegou a matar 1.800 pessoas em um ano e os índices de segurança não melhoraram

CC: E quem são as pessoas ‘aptas’ a serem linchadas?

JP: De um modo geral, homens jovens, negros e de baixa renda. São essas as pessoas majoritariamente acusadas de cometer furtos e roubos. Os justiceiros, porém, não pensam da mesma forma para todas as pessoas que supostamente cometem crimes. Isso dificilmente acontece com uma pessoa branca, de classe média.

Essa característica se coaduna muito bem com uma perspectiva mais macro de segurança pública, que é, no fim, você ter estruturas de vigilância e punição para pessoas pretas, pobres e moradoras de favela. Isso tem uma relação direta com o racismo. A gente sabe que, historicamente, à pessoa negra é atribuída uma característica criminosa; o que se tem é a perpetuação de uma questão racial muito forte.

CC: O que os casos de linchamento revelam da estrutura de segurança pública do País?

JP: Os linchamentos não estão apartados das estruturas estatais. Essa lógica, aliás, está muito internalizada no campo da segurança pública. Saindo do eixo do linchamento, qual é a justificativa que se tem para justificar ações policiais que têm como saldo pessoas pretas e faveladas mortas? Sob essa mentalidade, essas pessoas passam a não ter direito nenhum. Mas o mesmo pensamento não vale para o bairro do Botafogo, por exemplo, ou para pessoas brancas que usam drogas.

CC: O Rio de Janeiro guarda alguma peculiaridade específica diante dos casos?

JP: Historicamente, o Rio de Janeiro tem territórios dominados por grupos armados, como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e as milícias. Esses grupos fazem a gestão do crime, que passa também por definir onde se pode roubar, onde não pode e quem deve ou não ser punido. E os casos de linchamento, de alguma forma, dialogam com essa estrutura, mas a partir de pequenos grupos de vigilância e punição, que se articulam via redes sociais e que são muito fortes na zona sul do Rio.

São grupos de pessoas brancas, de classe média, que estão, em tese, preocupados com os roubos e furtos que acontecem na região e se vendem com o discurso de segurança, de punição e de vigilância, como se isso fosse atenuar a situação ou como se o castigo físico servisse de exemplo para que ninguém mais cometa esse tipo de infração. E isso tudo é uma inverdade. O Rio de Janeiro já chegou a matar 1.800 pessoas em um ano e os índices de segurança não melhoraram.

Vejamos como a extrema-direita lidou com a maior chacina da história do Rio de Janeiro, no ano passado, nos complexos do Alemão e da Penha, que deixou 122 mortos. Isso também não se dá apartado de um contexto global. Os Estados Unidos, por exemplo, estão se inserindo fortemente no debate, querendo classificar facções criminosas como terroristas, o que teria um grande impacto em nossa segurança. Portanto, vejamos, não é uma questão meramente técnica, mas política.

CC: Como você avalia essa disputa entre a esquerda e a direita brasileiras?

JP: A extrema-direita não apresenta soluções para a questão da segurança pública. Tudo que consta sobre o tema no plano de governo de Flávio Bolsonaro não aponta este caminho. De modo geral, a extrema-direita está preocupada apenas em punir pessoas que fazem mal ao dito cidadão de bem.

Agora, por outro lado, também temos entre a esquerda, ou centro-esquerda, a adoção de uma retórica de enfrentamento, de recrudescimento de violência, de uso da força por parte do Estado, justamente visando eleições. Vejo que, infelizmente, a esquerda sempre se absteve do debate sobre segurança pública e agora tenta reagir diante de um diagnóstico eleitoral de que esse será um tema de grande relevância, ao contrário de outros, como saúde e educação. E aí temos integrantes de grupos tidos como progressistas abraçando o que as pessoas querem ouvir, dentro dessa lógica de punição. E isso é muito perigoso, porque nos afasta de qualquer perspectiva de promover um outro modelo de segurança pública.

Com isso, a gente perde a narrativa do problema. A esquerda não propõe algo em segurança, em um sentido de futuro; está sempre rebatendo o que a direita está dizendo, caso da proposta da redução da maioridade penal.

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