Judias ultraortodoxas se rebelam contra violência doméstica em Israel

Mulheres israelenses ultraortodoxas ousam quebrar um tabu ao combater a violência contra elas mesmas dentro de suas comunidades

Ativistas israelenses Esti Shushan, Rachel Morgerstern, Hila Hassan Lefkowitz, Esther Twersky, e Yael Elimelech, da Nivcharot foundation, um grupo feminista ultra-ortodoxo, durante encontro na cidade de Kfar Saba, em novembro de 2019 - Foto: Menahem Kahana/AFP

Ativistas israelenses Esti Shushan, Rachel Morgerstern, Hila Hassan Lefkowitz, Esther Twersky, e Yael Elimelech, da Nivcharot foundation, um grupo feminista ultra-ortodoxo, durante encontro na cidade de Kfar Saba, em novembro de 2019 - Foto: Menahem Kahana/AFP

Mundo,Sociedade

Se você “tem medo, é porque não há shlom bayt”, harmonia no casal, diz Esti Shushan, filha de um rabino e militante, para estimular as judias ultraortodoxas a abandonar um marido violento.

Entre os judeus religiosos, o “shlom bayt” é uma ordem “suprema”. Cada um deve vigiar a integridade de sua casa. Esti, de 42 anos, aproveita esses códigos religiosos para falar com correligionárias.

Esti faz parte dos “jaredies”, literalmente “aqueles que temem a Deus”. Esses judeus ultraortodoxos representam cerca de 10% dos nove milhões de israelenses e frequentemente vivem em uma bolha, seguindo sua interpretação dos preceitos religiosos.

Revoltada contra as desigualdades entre mulheres, esta mãe de quatro filhos fundou há sete anos uma associação para promover a visibilidade das mulheres ultraortodoxas e sua representação política. “Nivcharot”, “as eleitas”, tem atualmente 15 mil seguidoras.

Essa noite, Esti se prepara para um novo combate, acompanhada por quatro membros da associação em uma sala em um centro educacional na cidade de Kfar Saba, no norte de Tel Aviv.

Com os cabelos por baixo de uma peruca ou chapéu, eles usam vestidos longos, que cobrem seus cotovelos e joelhos, conforme as regras de vestimentas que, segundo uma interpretação dos textos sagrados, preserva seu pudor.

Sentadas em torno de uma mesa onde há pizzas e refrigerantes, o grupo revisa os últimos detalhes da campanha que quer romper o tabu da violência doméstica na comunidade e tirar as vítimas do silêncio.

Primeiro, o rabino

Esta violência contra as mulheres abarca todas as populações e todos os círculos socioeconômicos, afirma a professora Mally Sechori-Bitton.

Segundo um relatório anual publicado nesta terça-feira pela associação israelense que agrupa os centros de atenção às vítimas de estupro, as chamadas telefônicas aumentaram 12% este ano no conjunto da população israelense, sob a influência da campanha “#Metoo”, e a polícia registrou 6.200 denúncias por esse delito e de abuso sexual. Mally Sechori-Bitton aponta que essa violência é física, mas também psicológica, sexual e econômica.

Nos círculos ultraortodoxos, “são as mulheres que trabalham enquanto os homens estudiam os textos sagrados”, aponta a criminologista, que conta ter visto “muitas mulheres privadas de seu cartão de crédito por seu marido”.

Entre os “jaredies”, a violência doméstica é um tema ainda mais tabu. A comunidade não tem o costume de “lavar roupa suja em público”, explica a investigadora. “As ortodoxas procuram o rabino em vez da polícia, o que torna o fenômeno da violência conjugal difícil de quantificar”, juzga.

Apesar da tradição, as mentalidades evoluíram pouco nesses últimos anos e dois refúgios foram abertos para mulheres religiosas golpeadas. “A tomada de consciência é real, mas ainda insuficiente”, conclui Mally Sechori-Bitton.

Grupos de WhatsApp

Em Kfar Saba, inclinadas diante do computador de Esti Shushan, as militantes da Nivcharot, que se autodenominam feministas, dão um toque final às imagens que serão divulgadas na ocasião do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Em uma das imagens, lê-se o slogan “Se você tem medo, não há shlom bayt” em uma imagem de um copo de vinho derramado sobre uma mesa manchando de vermelho uma elegante toalha de mesa branca, uma metáfora para um ato de violência durante a tradicional comida semanal do sabbat.

Esta campanha usa os códigos da comunidade ultraortodoxa “para dizer às mulheres que elas estão em relacionamentos que não são saudáveis, para não ficar” com seu violento marido, diz Esti Shushan.

Essas mulheres muitas vezes só conheceram o homem com quem se casaram e permanecem caladas quanto à angústia devido à “vergonha” e culpa que podem sentir. “O casamento é sagrado entre os judeus e entre os ultraortodoxos em particular. Mas você não precisa se casar a qualquer custo”, diz Raheli Morgenstern, 31 anos.

Para ela, o divórcio, inclusive se está autorizado pela lei judia, “se paga muito muito caro” e as ultraortodoxas que decidem dar esse passo acabam praticamente excluídas de sua comunidade. A campanha será difundida nas redes sociais e em grupos de WhatsApp.

Cerca de 40% das ultraortodoxas utilizam internet, segundo estudos aos quais Hila Hassan Lefkowitz, integrante da Nivcharot, disse ter acesso.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Agência de notícias francesa, uma das maiores do mundo. Fundada em 1835, como Agência Havas.

Post Tags
Compartilhar postagem