“Houve legítima covardia”, diz a mãe do menino Eduardo

Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro arquiva o caso de Eduardo, o menino de dez anos morto por um policial no Complexo do Alemão

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Na terça-feira 29, a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro arquivou o caso envolvendo o assassinato de Eduardo de Jesus Ferreira, garoto de 10 anos morto em abril de 2015. Trata-se de um episódio emblemático dos problemas gerados pela violência policial e pela guerra às drogas.

Em 2 abril de 2015, Eduardo brincava na porta de sua casa, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, quando um policial militar, parte de uma operação para prender traficantes de droga em andamento no região, disparou uma bala que acertou a cabeça do menino.

Sete meses depois do crime, em novembro, a Polícia Civil do Rio concluiu inquérito alegando que foi um caso de legítima defesa e que não era possível definir qual dos agentes teria feito o disparo. 

Contrariando o parecer policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra os policiais envolvidos na operação, lembrando características do crime como o fato de o tiro de fuzil ter sido dado a cinco metros de distância do garoto. Ainda assim, o TJ-RJ determinou o arquivamento do caso.

Para Terezinha Maria de Jesus, 37 anos, mãe de Eduardo, o arquivamento é uma injustiça. “Eles acham que o soldadinho deles não pode perder a farda e pagar pelo que ele fez. Quem tem que pagar sou eu, que vou ficar sem meu filho”. 

CartaCapital: Qual é seu sentimento e de sua família diante da notícia de que vão arquivar o caso de Eduardo?


Terezinha Maria de Jesus: A única família que o meu filho [Eduardo] tem sou eu e os irmãos dele. A gente ficou muito triste com essa notícia, com esse horror, e estamos aí na luta, não vou deixar de lutar nunca. Eles ganharam uma batalha, mas não ganharam a guerra.

CC: Na sua opinião, quais foram as motivações para não levarem o caso adiante?

TMJ: Porque eles acham que, como foi dito pela defesa do réu na semana passada, ele era só um soldadinho que revidou um tiro. Eles acham que o soldadinho deles não pode perder a farda e pagar pelo que ele fez. Quem tem que pagar sou eu, que vou ficar sem meu filho. Querem anular para isso, porque disseram que foi legítima defesa. Houve legítima covardia, porque nunca teve troca de tiro.

CC: O que significa arquivarem esse caso para casos futuros de violências como essa?

TMJ: Significa uma grande injustiça. Deveria chama Tribunal da Injustiça, porque aí sim eles iam fazer a justiça deles. E não é injustiça só comigo, mas com outras mães que carregam a mesma dor que eu carrego. Mas a gente continua na luta. Se a gente não lutar, quem vai lutar pela gente?

CC: Você conhece outras mães que sofreram com violência policial?

TMJ: Conheço, estava com as mães dos meninos que foram fuzilados em Costa Barros na segunda-feira na porta do Tribunal de Justiça. Também tem a Ana Paula, mãe do Jonatan de Manguinhos, a da Rocinha, eu conheço várias mães. A gente une a nossa dor pra gente ficar mais forte.

CC: Continua morando no Rio de Janeiro?

TMJ: Enquanto isso não tiver uma solução, eu não vou sair do Rio. Eu e minhas duas filhas fomos ameaçadas no dia da tragédia. Agora não me sinto mais ameaçada por nada.

CC: A visão que você tinha da polícia antes do crime é diferente da que você tem agora?

TMJ: Já era ruim, porque já tinha visto outros casos parecidos. A impressão que eu tinha antes era de que eles são autoridade para proteger a gente, mas que chegam na minha porta, atiraram no meu filho, e ainda dizem que foi legítima defesa.


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