Hipocrisia dos ‘fura-filas’ é marcada por diferenciação entre ‘nós e eles’

O psicanalista Christian Dunker analisa as razões e contradições de quem passou adiante

O psicanalista Christian Dunker (Foto: Reprodução/Facebook)

O psicanalista Christian Dunker (Foto: Reprodução/Facebook)

Saúde,Sociedade

Médicos recém-formados e nomeados horas antes da vacinação começar, prefeitos não pertencentes ao grupo prioritário alegando “incentivo à população” e até secretário de Saúde imunizando irregularmente a esposa por ser “a mulher da minha vida”.

Os casos de fura-fila e suas justificativas pelo Brasil são tantos e tão inconvencionais que a atitude dos “furões” e suspeitos de irregularidade na aplicação das doses já motivou denúncias ao Ministério Público em ao menos 16 estados. Nos casos com maior repercussão, como o das gêmeas Gabrielle e Isabelle Kirk Maddy Lins, médicas recém-formadas em Manaus e nomeadas pouco tempo antes para a direção setorial de uma Unidade Básica de Saúde, as críticas e cobranças vieram após postagens em que os imunizados posam recebendo suas doses.

A mistura de ostentação, privilégio e impunidade é uma constante na realidade brasileira. Mas tende a se aprofundar em um momento de crise como o da pandemia, aponta Christian Dunker, psicanalista e professor da USP. Para ele, a postura dos “fura-filas” não só reflete a ideia antiga de que “todos são corruptos, e por isso não há problema eu ser também”, mas também ressoa um negacionismo singular ao coronavírus.

Segundo Dunker, as contradições e a hipocrisia dos “fura-filas” é marcada por uma diferenciação clara entre “nós” e “eles” que não tem medo de se exibir, nem ser punida. “Mais ainda, a atitude humilha quem não é alvo do privilégio”, diz o professor, que vê na prática uma continuação das desigualdades sociais e resume a situação com um dito popular: “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei.”

Confira a entrevista a seguir.

CartaCapital: Tivemos dezenas de casos famosos de fura-filas desde o começo da vacinação no País, quase todos descobertos pelas postagens que essas pessoas fizeram. O que motiva essa atitude?

Christian Dunker: Existe um debate longo sobre essa dicotomia, mas que podemos resumir em torno do dito popular “Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. O que vemos aqui são pessoas que aparentam se colocar, de algum jeito, como proprietárias da lei, como se pudessem decidir quando ela deve ser aplicada e de que forma funciona a excepcionalidade da regra quando ela é interessante ao seu grupo. Isso cria o efeito desastroso de associar a punição à desigualdade e ao privilégio, o que funciona no sentido contrário de nos equalizar perante as leis, mas justamente o de nos diferenciar com base nela – fato que marca toda a história do nosso país.

CC: Postar é sinal de acreditar na impunidade? Ou de que não se está fazendo nada de errado?

CD: Justamente pela ideia de diferenciação de status perante a lei e a disseminação geral dessa prática na nossa sociedade, uma conclusão costuma surgir nesses momentos críticos como o da vacinação: “todos já estão agindo corruptamente de todo jeito, então não há problema se eu fizer isso também.” Isso junta a ideia de impunidade com a de não estar fazendo nada errado e se reflete nos casos de fura-fila também a partir de governantes que foram fotografados se vacinando. A expectativa seria de que eles estivessem no final da fila, e não no começo, o que sugere uma relação psíquica de que a lei, outra vez e “oficialmente”, não está sendo respeitada.

Vacinação em Manaus contra a Covid-19 tem denúncias de fura-filas. Foto: Prefeitura de Manaus

CC: Grande parte desses casos de fura-filas foram de pessoas influentes politicamente, ricas ou de status. Essa legitimação pela posição social está ligada também a uma falta geral de compaixão?

CD: Sem dúvida a atitude de furar a fila se liga a um tipo forte de negação, mas que tem alguns fundamentos para aparecer e que criam uma lógica no pensamento de quem pratica. Em primeiro lugar, estão as perguntas: O que entendemos por nós na hora da vacinação? Quem somos nós e nossos semelhantes em uma situação como a da pandemia? É bastante próprio de uma elite brasileira entender que o “nós” é a família, e não seu bairro ou cidade inteiros. A diferenciação, que desemboca no uso criminoso da lei, começa a partir desse reconhecimento bastante claro que atinge um máximo em épocas de crise, escassez e perigo de vida.

CC: Há algum deboche em furar a fila e postar nas redes?

CD: Para alguns ‘fura-filas’, a atitude de postar pode até soar como um ato subversivo, como se estivessem brincando com a lei ou algo do tipo, mas de subversivo não há nada. É, sim, uma exibição de poder com a mensagem clara de mostrar quem tem o direito ao privilégio, à ponta da fila, aos recursos disponíveis. A atitude tem por consequência a humilhação de quem não é privilegiado e que vê nessas imagens uma diferenciação clara entre o “nós” e o “eles”. Mais ainda, a exibição também confere valor a quem exibe e faz que aqueles considerados semelhantes se aproximem dele ou o prezem mais.

CC: E quanto aos que desrespeitaram os protocolos sanitários, desdenharam da vacina e agora furam a fila? Mudaram de ideia?

CD: Isso já se liga ao negacionismo verdadeiro cultivado desde o início da disseminação do vírus. Quem negou os fatos desde o começo reage discursivamente por motivo de proteção psíquica em várias ocasiões. Por que ter medo? Reajo como um valentão e digo que a pandemia não existe, ou pelo menos que não é tudo isso que estão falando. Acontece que agora, quando chegamos ao momento da vacinação, se essas pessoas forem confrontadas com sua atitude anterior de descrença, é bem possível que a neguem – uma espécie de produção de amnésia que também funciona blindando a consciência.

Isso tende a se aprofundar ainda mais agora, já que o negacionismo deve lutar o tempo todo pela sua renovação, de forma que ele é exposto constantemente a um alto nível de degradação. Quanto menos o ódio mobiliza, menos a negação resiste aos fatos: a paranoia sistêmica tem perna curta. Nesse cenário, ou se encontra um novo inimigo, ou essa negação de tudo vai ficar cada vez mais difícil de se manter, e mais pessoas irão atrás da vacina.

CC: Parece que apelar para o bom senso e fazer campanha pelos protocolos sanitários não tem dado tão certo… A resposta está só na vacina, ou há algo que podemos fazer na esfera de comportamento?

CD: Estamos em momento de transformação da mentalidade e dos afetos políticos, porque o negacionismo liga-se ao capítulo da pós-verdade em que vivemos. Nesse cenário, não é apenas que os fatos estejam sendo negados ou pervertidos, mas também conta muito a relação entre eles e o sentimento que provocam na sua comunidade fiel. Negar também é gerar identificação em um grupo e ser reconhecido, de alguma forma, por ir contra a corrente. Nesse ressentimento que alimenta a negação, existe uma vontade de chamar a atenção pelo discurso e, além disso, encontrar outras vozes reativas – o que muitas vezes é o motivo principal da atitude, e não exatamente a fé nas opiniões defendidas. Podemos indicar muitas causas para isso, mas temos que colocar nessa conta, também, a exclusão discursiva que alguns grupos sofrem no Brasil há muito tempo, inclusive e principalmente na linguagem digital.

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Repórter da revista CartaCapital

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