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‘Foi jogo rápido, poucos segundos’, diz sobrevivente de chacina

Sociedade

Sentado em frente a um comércio com dois amigos, Luciano* esperava a chegada de outra conhecida para comer um pastel na lanchonete da esquina. Enquanto Clara* se aproximava, decidiu sentar na calçada. “Ela chegou falando que já tinha comido, então decidimos ficar por lá mesmo”. Em poucos minutos, porém, um carro prata com dois homens parou bruscamente, e imediatamente começa a atirar.

Assim que viu a arma, puxou a amiga para o chão. “Na hora não senti nada, mas ela disse que um tiro tinha pegado na perna.” Sua resposta, inusitada. “Cala a boca e morre”. Se fingir de morto foi a alternativa que Luciano encontrou para permanecer vivo. “Foi jogo rápido, coisa de vinte ou trinta segundos. Quando levantei do chão pude ver o carro virando a esquina”, conta.

Seu relato refere-se à Chacina de Osasco, que ocorreu na zona oeste da grande São Paulo em 13 de agosto de 2015. Entre 17 assassinatos e sete tentativas de homicídios, Luciano emergiu como sobrevivente. Dois anos após a chacina, três dos acusados, dois policiais militares e um guarda civil municipal, começaram a serem julgados no Fórum Criminal de Osasco na segunda 18. A expectativa é que a sentença seja conhecida em até doze dias.

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Sua expectativa para o julgamento é a comprovação de que os crimes foram cometidos pelas mãos de agentes de segurança. “Espero que mostrem que o cara que deveria dar proteção na verdade tá matando gente”. Na hora, não conseguiu distinguir o rosto de quem atirava, só pode ver a imagem de um homem com capuz e outro sem.

“Eu vi depois, mas na hora já sabia que era dois atirando porque os tiros eram picotados”. A vítima explica que o barulho que ouvia denunciava a presença de dois atiradores. Como serviu ao Exército, ele diz conseguir reconhecer o número de armas disparadas.

Criança

Morador do bairro há 30 anos, Luciano cresceu acostumado as abordagens violentas da polícia

Após o atentado, a primeira imagem foi a de seus amigos cobertos de sangue, “um deles ainda agonizando”. Segundo ele, o sangue grosso no chão denunciava a possível morte do amigo de infância. O pedido por socorro veio em seguida. “Pelo amor de Deus, vamos acudir a gente!”, gritou.

A rua, que momentos antes estava repleto de moradores ocupando os bares, as calçadas, fazendo churrascos e as crianças brincando com bola, ficou deserta. Luciano conta que mesmo depois de terminado o tiroteio, demorou para que alguém aparecesse.

“Começamos a buscar carros que pudessem nos levar, mas na hora que fui levantar pra procurar cai no chão. Tinha levado um tiro no pé. Segurei na guia e me arrastei”. Um amigo o colocou no porta malas, mas “despachou” Luciano em frente ao hospital, pois tinha medo de ficar ali para acompanhar a vítima. “Eles falaram que não iam ficar lá porque não sabiam o que era.”

Naquela hora, ninguém sabia ao certo.

O que era de conhecimento dos moradores da região era a informação de que naquele dia a polícia mataria “todo mundo que tivesse passagem, mas que seria de madrugada”. Aquele horário ainda não era de alerta da população.

Próximo das oito da noite e sem passagens na polícia, Luciano não se considerava um possível alvo. “Uns quinze minutos antes chegou o alerta na região, mas tava tranquilo, não tinha porquê”.

A vítima se sentia segura com os traficantes do morro. “Fico esperto, porque quando pega pra eles, eles não se preocupam com os moradores, mas no geral é bem tranquilo.” Por outro lado, relata ter sofrido com a violência policial a vida toda. “Tomei muita comida de rabo, muito xingo, muito insulto. Mas na maioria das vezes ficava com medo e ia pra casa”.

Raio-X

Atingido no pé, não consegue mais trabalhar como eletricista

Morador do bairro há 30 anos, hoje divide a casa com a mãe. O costume anterior era de dividir as contas. “Não tinha nenhum emprego fixo, mas na época tava com bicos garantidos até o final do ano, dava uma graninha boa”.

Depois do tiro no pé, não conseguiu mais ter a estabilidade de antes. “Se os outros funcionários demoravam quinze minutos pra subir uma escada, eu demorava trinta”, relata ao explicar que poucos meses após o atentado foi demitido de um trabalho, porque o empregador “não poderia deixar um funcionário faltar para ir ao julgamento”.

Não acredita que vai voltar a andar como antes, mas a expectativa é que aos poucos vá melhorando. “Como eu dependo do SUS, não tive nenhuma fisioterapia. Mas o médico disse que a dor vai melhorando aos poucos, e de alguma forma a gente vai se adaptando”.

Em casa durante o dia, divide o tempo entre as atividades domésticas e a procura por um emprego. “Não quero mais nada, só quero trabalhar e receber o que é meu”.

Na estante do quarto que divide com a mãe, uma imagem. A caneca de um time de futebol ganha destaque ao lado dos símbolos do Palmeiras. O mascote do time, impresso na caneca, é uma homenagem ao amigo, vítima da chacina. “O time já tava montado, mas a gente tava sem um mascote, e aí colocamos esse mascotezinho, que é o Bob”, conta sorrindo.

Em tom de brincadeira, diz o que mais o machuca na história toda: o amigo não viu o Palmeiras sagrar-se campeão. “Eu era uns oito anos mais velho do que ele, consegui ver a vitória do mundial”. O consolo pelo amigo Bob viera logo em seguida. “Pelo menos ele não vê essa vergonha que o time está passando agora.”

Questionado se gostaria de deixar sua casa, apenas uma rua abaixo do atentado, diz que não. “Eu queria poder dar uma condição melhor pra minha mãe, mas sair daqui acho que não, cresci aqui, vivi aqui, conheço todo mundo”.

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