Favelas do Rio registram mais mortes por Covid-19 que muitos países

Uma rede comunitária registra a subnotificação de infecções por coronavírus nas comunidades cariocas

Foto:  RENATO LUIZ FERREIRA

Foto: RENATO LUIZ FERREIRA

Saúde,Sociedade

Espaços historicamente tratados com negligência pelos governantes, as favelas não viram sua situação melhorar com a pandemia. Aos problemas de sempre, como violência policial, ausência do Estado e precariedade­ dos serviços públicos, vieram a se somar o surto de Covid-19 e as suas consequências. Nos últimos meses, pouco se falou, porém, sobre as comunidades. Se a subnotificação de mortes está clara em todo o Brasil, no que diz respeito às favelas a pouca clareza dos dados oficiais compõe o retrato do abandono.

Nesse contexto, uma iniciativa tem contribuído para jogar luz sobre o que de fato acontece com as camadas mais pobres da população urbana. Com o auxílio de uma rede de entidades locais, a Comunidades Catalisadoras (ComCat) passou a coletar dados in loco e organizou o Painel Unificador da Covid-19 do Rio de Janeiro, renovado a cada duas semanas e disponível para consulta pública na internet.

Os dados são calamitosos: com 3.285 óbitos registrados até o fechamento desta edição, as favelas cariocas somam mais mortos do que 162 países. Não somente nações ricas, como Dinamarca (2.338 mortos) ou Austrália (909), mas vizinhos como Paraguai (3.065) e Venezuela (1.316).

 

 

O número não surpreende quem acompanha a realidade de perto. “O fato de as favelas de apenas uma cidade brasileira terem mais mortes do que tantos países deixa totalmente claro o grau de desigualdade que a gente vive, o descaso por parte do Estado. É o fruto da negligência histórica desde a escravidão”, afirma Theresa Williamson, diretora-executiva da ComCat.

Para André Constantine, morador do Morro da Babilônia e integrante do Movimento Nacional das Favelas e Periferias, a pandemia “veio para aprofundar os problemas sociais e raciais” do Brasil: “Em relação às favelas, isso ficou bem nítido. Essa história de que ‘estamos todos no mesmo barco’ é conversa fiada. Estamos todos enfrentando a mesma tempestade, mas alguns a estão enfrentando dentro de iates luxuosos, outros dentro de botes salva-vidas. Os negros, os pobres, os periféricos e os favelados estão à deriva em alto-mar, tentando se segurar em tábuas de salvação. Esta é a realidade dos favelados do Rio de Janeiro”.

A ideia do Painel Unificador surgiu quando a ComCat, que executava o projeto RioOnWacht com repórteres e comunicadores comunitários, percebeu a discrepância entre os dados oficiais e as informações das comunidades.

“Logo que começou a pandemia, passamos a ouvir de nossa rede de lideranças, formada por gente que está na ponta, relatos de casos de Covid-19. Estávamos sabendo de casos em várias comunidades, quando começamos a nos deparar com os dados públicos. Obviamente, eles não estavam separados por favelas”, recorda Theresa Williamson. “Quando começamos a perceber isso, vimos que havia um movimento de favelas coletando os próprios dados.”

Em julho, a lista virou o Painel Unificador após uma empresa que faz painéis de mapeamento para prefeituras aceitar trabalhar de forma voluntária. O trabalho tornou-se um contraponto à evidente subnotificação.

“No início da pandemia, ocorreu nas favelas algo interessante. Quando alguém morria por causa da Covid-19, e isso era constatado pela Clínica da Família, seus familiares preferiam manter a causa em sigilo. Isso dificultou o levantamento. Nós sabemos também que vários morreram pelo vírus, mas no atestado de óbito consta insuficiência respiratória. Isso foi feito para camuflar os números, não tenho dúvida”, afirma André Constantine.

O número de mortos nas comunidades da cidade foi maior do que em 162 países

Para a ComCat, a subnotificação é clara: “A gente sabe, por meio das reuniões com as lideranças locais, que há uma grande subnotificação. A falta de testes nas favelas sempre foi, e continua a ser, mais grave do que fora delas”, aponta Theresa Williamson.

“Além disso, em alguns casos, os próprios médicos falam que o óbito provavelmente foi por causa da Covid-19, mas, se isso for colocado na Certidão de Óbito, não será possível enterrar o morto da forma que a família deseja. Temos inúmeros relatos desse tipo e temos relatos também de pessoas que não querem declarar que o familiar morreu de Covid-19 porque têm medo que os vizinhos estigmatizem a família. A gente sabe com toda a certeza do mundo que houve muita subnotificação e que a contagem nas favelas tem sido e será mais baixa do que no asfalto. Soubemos de muitas mortes em casa. Mortes que estão sendo declaradas por outros motivos, pessoas que nunca fizeram o teste para Covid-19 e nunca tiveram confirmação oficial”, completa a diretora-executiva da organização.

Além da presença habitual da polícia, diz Constantine, pouco se notou o Estado nos últimos 11 meses. “Além da falta d’água, o setor público não enviou alimentos ou remédios, nem deu qualquer suporte de forma emergencial aos territórios mais empobrecidos e precarizados em termos de saneamento básico. Tudo isso facilita a propagação da Covid-19 nas favelas, áreas com grande densidade demográfica e a decorrente falta de ventilação e de sol. Há casos de moradias de apenas um cômodo onde vivem dez ou 15 moradores. As favelas pedem pão para o Estado e o Estado nos envia o Caveirão e o helicóptero blindado.”

O líder comunitário acrescenta: “A situação só não está pior porque as favelas se organizaram. Aqui na Babilônia, realizamos uma vaquinha e conseguimos comprar dois equipamentos para desenvolver um trabalho de sanitização dos becos, ruas e vielas da favela. Distribuímos kits de higiene e limpeza, instalamos um painel com os números de casos e óbitos. Fizemos um trabalho de conscientização, por meio de cartilhas, da importância do isolamento social. A situação só não está pior por causa da solidariedade que pulsa aqui dentro e da coletividade”.

Em meio a tantos problemas, a mobilização nas favelas é exaltada pelo deputado estadual Waldeck Carneiro, do PT, que acompanha o drama dos favelados. “Não obstante o aumento de casos e de óbitos nesses territórios, é importante ressaltar que sobressaiu também no contexto da pandemia uma potente rede de solidariedade constituída por coletivos, associações e movimentos locais em substituição a uma ausência contumaz do Estado e do poder público. Não há presença regular e estruturante do Estado para desencadear suas ações. As redes e os coletivos passaram a ter um protagonismo ainda maior, salvando vidas, orientando e contribuindo com estratégias de prevenção.”

Publicado na edição n.º 1146 de CartaCapital, em 26 de fevereiro de 2021.

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Repórter colaborador de CartaCapital no Rio de Janeiro

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