Falta de rede de apoio, emprego e escola marca a maternidade na quarentena

Mães tiveram a vida paralisada como todos, mas são as mais prejudicadas pela falta de amparo da sociedade e de políticas públicas

(Foto: iStock Photo)

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Sociedade

Os efeitos do isolamento social necessário à pandemia prejudicam mais as mulheres. A realidade é nua e crua: são elas que empobreceram mais e detêm o maior índice de desemprego e, pela primeira vez em trinta anos, a parcela de mulheres que estão ocupadas ou em busca de um trabalho ficou abaixo de 50%, segundo o IBGE.

Entre as mães, a situação foi ainda pior. O recuo indicado pelas pesquisas foi maior entre as mulheres que têm criança de até 10 anos em casa, e pesa nessa conta o fato de a maioria das escolas e creches escolas do País seguir fechada.

 

 

 

Os números e pesquisas dão conta de mensurar a realidade enquanto os relatos deixam transparecer velhas companhias maternas: a culpa, a sobrecarga e a falta de espaço para uma existência mais saudável com as demais esferas da vida.

“A pandemia tornou o trabalho materno ainda mais invisível. Quando você abre bar, shopping, lanchonete, todos os lugares, mas não abre escola, o que acha que está acontecendo? Quando tudo pode estar aberto, menos a escola, você não prioriza a infância e deixa de lado quem cuida dessa criança, que em sua maioria são mulheres. As mulheres recebem menos, então quem vai deixar o emprego pra cuidar das crianças? As mães. Conheci muitas mulheres que pararam de trabalhar na pandemia para cuidar das crianças.”

O desabafo é da professora Aline Ricardi, de 33 anos. Mãe de duas meninas, Aline conta que a falta do grupo de apoio e a rotina sem divisões claras de quando começava o trabalho e terminavam os cuidados de casa foram difíceis de manejar no apartamento de 55 m² em Guarulhos, região metropolitana de São Paulo.

“Quem é mãe e tem criança em casa sente alívio quando vai pro trabalho, porque aquele momento é só seu, o trabalho é só seu, e durante a quarentena, não. O meu trabalho se misturou com a família”, conta. “A criança é responsabilidade de todos dentro da nossa sociedade. Quando a gente tem filho, a coisa mais importante é ter uma rede de apoio. A pandemia dificultou muito a maternidade, por que a gente não podia contar com ninguém”, diz.

Para Luciana Viegas, que é mãe de duas crianças e tem autismo, a rede de apoio é ponto base para que ela consiga desenvolver atividades dentro e fora do lar. Dentro de casa durante o isolamento, o companheiro se encarregou das crianças para tentar equilibrar o jogo, e, mesmo assim, o saldo foi exaustão para os dois lados.

“Eu tive que trabalhar fora em basicamente dois empregos, e sobrecarregou tanto ele quanto eu. Foi uma muito grande, de não conseguir dar conta”, afirma.

“A pandemia, ao mesmo tempo que invisibilizou o trabalho da mãe porque ela tem que dar conta, também deixou claro que há uma diferença na vida de uma pessoa que tem filho e não tem filho. Essa diferença básica não deveria ser problema, mas, infelizmente, ela é”, diz.

Viegas também relata a mesma dificuldade de Ricardi em conseguir separar todas as esferas da vida e a maternidade. “Não dá, em pandemia a gente não consegue referenciar o que é ser mãe e o que é ser profissional. Quando acontece alguma emergência e os nossos filhos estão próximos da gente, a gente larga tudo o que a gente tem e vai cuidar. É o modo automático de se criar”, relata.

“A gente se sente muito culpada por estar trabalhando. Eu passo por situações de esgotamento em que eu me sinto mal por estar esgotada, mas temos, no nosso imaginário, que a mãe tem que estar sempre feliz. Que só o sorriso do filho já basta. Na verdade, a gente precisa dormir.”

 

Os velhos novos problemas

A escolha entre o cuidar dos filhos e a vida profissional na pandemia foi tratada na pesquisa Mercado de Trabalho e Pandemia da Covid-19: Ampliação de Desigualdades já Existentes?, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e também ampara os dados abordados no começo da reportagem.

A porcentagem de mães com filhos de até 10 anos no mercado de trabalho caiu de 58,3% no segundo trimestre de 2019 para 50,6% no mesmo período deste ano. A cor das mães também está definida: são as mulheres negras as que mais saem do mercado, e também as que mais irão demorar para encontrar outra posição de sustento.

As mães solo também foram um grupo à parte no recebimento do auxílio emergencial, já que elas podiam receber um valor total de 1200 reais – duas vezes mais do que o restante dos beneficiários – caso comprovassem ser a chefe de família do lar.

Outro diagnóstico previu também que seriam as mães solo as mais afetadas pela pandemia. Esse grupo foi o foco da primeira estratégia de urgência da Central Única das Favelas (CUFA) quando o coronavírus chegou ao Brasil. Até dezembro, as doações para o programa “Mães da Favela” tinham arrecadado de 180 milhões de reais para a compra de alimentos, uma complementação de renda básica e, agora, acessibilidade à rede de internet.

Mas a pandemia não acabou e, na verdade, vem mais forte no fim de ano. Preto Zezé, um dos fundadores da CUFA, afirma que a situação de desamparo das mães se torna mais acentuada com a falta da escola após meses, a iminência do fim do auxílio emergencial e a falta de políticas de proteção à saúde das mulheres periféricas e de seus filhos.

 

 

“Na realidade dessas mulheres, elas estão abandonadas. Elas estão com os filhos fora da escola, sem economia, e não há política específica de proteção a elas”, diz Zezé. “Grande parte dos pais acham que as escolas não tem condições de proteger seus filhos. É uma complexidade enorme: ao mesmo tempo, as pessoas têm medo da escola que não protege, mas estar fora da escola hoje é um risco também até maior do que estar na escola”, relata.

Danie Sampaio viveu a experiência do isolamento, maternidade e trabalho de forma intensificada por ser mãe solo, doula na Casa Ângela, centro especializado em partos humanizados na Zona Sul de São Paulo, e coordenadora de um centro de doulagem periférica, o Mãe na Roda Vai, no Jardim Ângela.

Mãe de um adolescente de 17 anos e de uma garota de 5, ela conta que “misturar as estações” sempre foi muito difícil para ela. Com os filhos em casa, porém, ela se viu na necessidade de suprir frustrações dos filhos também.

“Não teve um dia sequer nessa pandemia que eu não me preocupei em como faria para pagar, como faria para suprir, ou que eu não tenha me culpado por não estar sendo a mãe que eu achava que eu precisava ser. Se tem uma coisa que não nos abandona quando nos tornamos mãe, talvez seja a culpa. E o quanto nós somos culpabilizadas por cada coisa ruim que acontece aos nossos filhos”, diz.

“A gente acaba sobrecarregando outras mulheres para que possamos sair de nossas casas para buscar o sustento dos nossos filhos, ou para que possamos ir atrás de nossos sonhos e trazer algo para dentro de casa – seja um pão, um material didático por falta da escola, ou momentos de lazer, positivos e afetivos. Para mim sempre foi muito difícil. Ou eu sou mãe, ou trabalho. Eu não consigo misturar as estações.”

Enquanto doula, Danie conta que também passou a operacionalizar o programa “Mulheres Mães Juntas” contra a Covid-19, iniciativa do coletivo apoiada por um edital de combate à pandemia da Fiocruz.

Entre as mulheres que iam buscar assistência dos centros de doulagem, imperou “muito medo” da contaminação e desinformação sobre quais eram os hospitais públicos e privados que estavam fazendo partos, conta Danie. A presença das profissionais ficou limitada em atuação dentro das salas de parto, um problema evitável, segundo ela, se as políticas públicas tivessem sido voltadas às mães antes de qualquer pandemia.

“Se a gestão nacional fosse pensada nas necessidades das mulheres mães, nosso País viveria novas experiências e prosperaria de alguma forma. Quando as mulheres mães são contempladas, em todos os aspectos de suas necessidades, as coisas caminham bem. Metade do mundo são as mães, e a outra, os filhos delas, né?”.

 

Por uma maternidade possível

Entre todos os exemplos de vidas que se misturam às dos filhos em casa há meses, há, também, a maternidade daquelas que não os veem pessoalmente desde o início do isolamento. Um exemplo é o que vive a a aposentada Leila Mota, de 62 anos, que não viu os filhos desde o início da quarentena, em março. Moradora do Rio de Janeiro, os filhos adultos dividem-se entre Santa Catarina e São Paulo.

“Não ver meus filhos me deixa ansiosa e impaciente. Meu filho até queria me ‘sequestrar’, mas a condição era ficar 14 dias em quarentena e ficar na casa dele até acabar a pandemia. Não consigo me imaginar nessa situação. Seria um nível a mais de prisão, porque pelo menos na minha casa eu faço o que quero”, diz.

 

Para Leila, a maternidade se transformou de uma grande expectativa depositada nela, uma mãe solo, de que fosse moldada aos costumes tradicionalistas dos pais. Não foi. A relação melhorou com o tempo e, na pandemia, a comunicação que já era pautada pelo WhatsApp se intensificou, acompanhada de “estresse, insônia, dores de cabeça, depressão”, conta.

Mas, mesmo sozinha, a aposentada prefere esperar para decidir qual é o melhor momento para a visita. Ela brinca que “tem horror a incomodar os outros”, e que nunca foi uma “mãe invasiva”. Quando questionada sobre o papel de ser mãe em circunstâncias assim, ela evoca uma frase que parece justificar o abandono a qual muitas mulheres mães são submetidas – seja pelo parceiro, seja pelo Estado. “Esse negócio de ‘ser mãe é sofrer no paraíso’  e outros aforismos e clichês nunca foram a minha praia.”

 

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