Ex-PM ensina técnicas de tortura e execução em aulas preparatórias

As aulas são direcionadas a pessoas que prestam concurso para a PM. Professor se vangloria de ter 28 homicídios assinados

Ex-PM ensina técnicas de tortura e execução em aulas preparatórias

Sociedade

O ex-capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Norberto Florindo Júnior, que ministra vídeo-aulas para pessoas que prestam concursos da PM, ensina técnicas de tortura e execução nos conteúdos. A Ponte publicou uma reportagem na quinta-feira 24 que toma como base uma das aulas lideradas pelo ex-PM.

Já no início da vídeo aula, Júnior afirma que “nada como uma tortura, bem aplicada, para saber onde está [a droga]. Se você não tortura, deixa comigo, eu faço. Minha consciência é livre e leve e eu sou bom nesse troço, hein?, diz o PM. O ex-capitão conta que quando foi fazer policiamento nas ruas, “virou o satanás”.

“Não tenho dó, torturo ‘até umas hora’. Ele afirma que dos 100 ‘socorros’ que prestou como PM, nunca perdeu um cliente, referindo-se a bandidos que não chegavam vivos a hospitais. “Bandido ferido é inadmissível chegar vivo ao pronto-socorro. Só se você for um policial de merda. Você vai socorrer o bandido, como?! Com esta mão, você vai tampar o nariz e, com esta, a boca. É assim que você socorre um bandido”.

Em outro momento da aula, ele se vangloria de ter sido o primeiro policial a entrar na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo, no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 presos foram assassinados no que ficou conhecido como massacre do Carandiru. No entanto, segundo apuração da Ponte, o nome de Norberto não consta na lista de PMs paulistas processados pela chacina.

O ex-capitão também exalta a sua capacidade letal como policial. “E matar então? [risos] Falo para o pessoal: não sou o melhor professor de Direito da AlfaCon, mas sou o que tem mais homicídio nessa porra aqui”, diz, quando se pode ouvir risos ao fundo em palestra dada em Minas Gerais. “São 28 [homicídios] assinados, um embaixo do outro, mais uns 30 que não assinei [risos]. Vai se foder, já prescreveu tudo! Foda-se, não estou nem aí”, coloca, citando que atuou em cursos de formação de soldados, de formação de sargentos, na Academia do Barro Branco e na Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

No canal da Alfaconcursos PM no Youtube há outros vídeos em que Norberto Florindo Júnior aparece. Em um deles, intitulado “Como não Morrer na Ocorrência”, ele orienta policiais a “saírem sapecando”. Depois dá dica para que seus alunos não morram em ocorrências. “Não fique preocupado em preservar a merda da sua vida nessa hora. Fique preocupado em tirar vidas.

Em outro vídeo, chamado “Policial gay x Policial Corrupto, Histórias Engraçadas”, o ex-capitão critica a atitude de dois policiais fardados se beijando, em referência ao PM que, fardado, pediu seu namorado em casamento durante a Parada LGBT, em São Paulo, em junho. “Vai tomar no c…”, declara.

Ainda de acordo com a apuração da Ponte, o ex-capitão da PM paulista atuou como professor de Direito na escola da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Norberto processou o Estado de São Paulo em 2012 solicitando seu encaminhamento para a reserva da PM por “problemas psiquiátricos” causados pelo trabalho. No entanto, a Justiça de São Paulo negou seu pedido.

Ele também respondeu a processo interno na corporação por uso de cocaína no alojamento da Diretoria de Ensino da PM. À época, ele dava aulas de Direito aos militares. O então capitão foi demitido da tropa em 22 de setembro de 2009 por conta desse processo. A corporação entendeu que sua atitude violou artigo que trata de atitudes “moral e profissionalmente idônea” ou “revelar incompatibilidade para o exercício da função policial-militar”. Em condenação de um ano e seis meses de reclusão em regime aberto, o juiz do TJM (Tribunal de Justiça Militar) Clovis Santinon condenou a atitude de Florindo.

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