Eles votam nelas: campanha convida homens a elegerem mulheres

Segundo Tribunal Superior Eleitoral, candidatura de mulheres bateu recorde este ano, mas caminho até eleição ainda é cheio de desafios

Campanha quer que homens reflitam sobre a importância de mulheres na política. Créditos: divulgação

Campanha quer que homens reflitam sobre a importância de mulheres na política. Créditos: divulgação

Sociedade

A candidatura de mulheres nas eleições municipais deste ano bateu recorde de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nas últimas três eleições, o percentual de candidatas mulheres não ultrapassou os 32%, este ano chegou a 33,3%. Ainda que pese sobre o cenário a ação compensatória de que os partidos têm que respeitar o percentual mínimo de 30% de mulheres entre suas candidaturas a câmaras e assembleias, o fato é que elas têm um interesse cada vez maior de garantir um espaço na vida política.

 

 

A efetivação nos cargos, no entanto, ainda enfrenta desafios. Mulheres são comumente utilizadas por partidos como ‘candidatas laranjas’, uma isca para que as legendas simulem o cumprimento da obrigatoriedade, e repassem os recursos para candidatos homens.

Diversos movimentos apostam na mobilização como estratégia para reverter esse cenário. De modo geral, essas iniciativas destacam a importância da presença de mulheres em cargos do Legislativo, e sensibilizam eleitores para as candidaturas femininas.

A luta não se restringe ao universo feminino, e vem ganhando apoio de homens que também querem uma representatividade mais igualitária na política. É o caso da campanha #Elesvotamnelas, idealizada pelo terapeuta holístico Agni Santoro.

A iniciativa, de caráter suprapartidário, acontece nas redes sociais, e busca mobilizar os eleitores homens, “chamando-os para participar ativamente dessa construção da igualdade de gênero”, explica Santoro, que estuda a masculinidade e suas formas de desconstrução.

“Tradicionalmente, os homens estão mais ligados à política, até por uma questão de acesso à informação. Tanto que ainda temos mulheres que votam influenciadas pelo pai, marido, perpetuando o machismo”, observa.

Para Santoro, não se trata apenas de direcionar o voto a uma candidata mulher, mas de questionar o baixo número de parlamentares eleitas e de entender como a presença feminina em cargos de liderança pode influenciar positivamente outras gerações: “A gente diz para as meninas que sim, elas também podem estar lá”.

A campanha, explica o idealizador, quer contribuir com o processo educativo do voto. “Política é representatividade, por isso a importância de escolher alguém que dialogue com as minhas dores, angústias, esperanças”, atesta. “É fundamental que o eleitor encontre uma candidata mulher que vá ao encontro dos seus valores”.

Ainda assim, Santoro fala sobre a importância de agendas que se comprometam com a preservação dos direitos das mulheres. “Por exemplo, vimos que os casos de violência contras as mulheres cresceu durante a pandemia”, diz ele. “Isso deve ser motivo de indignação de todos nós, estar em nossas reflexões diárias, e portanto, se constituir como uma pauta comum, independente de ideologias”.

Inspirada na He for She, iniciada pela ONU Mulheres em 2014, a campanha pretende uma comunicação descentralizada, em que apoiadores criem suas próprias peças, e fortaleçam a mensagem central. Na agenda, também estão previstos bate-papos virtuais, idealizados por Agni Santoro, que anteriormente já promovia um trabalho acerca da desconstrução da masculinidade dominante com homens, casais e também promovendo consultorias a empresas.

A campanha #Elesvotamnelas conta com o apoio de movimentos como Diálogos Masculino, Portal Mundo Homem, Macho do Século 21, Construindo Masculinidades, Projeto Masculinidades, Masculinidade Saudável, e iniciativas femininas como o #VoteNelas.

 

‘Significaria uma democracia melhor’

Para Luiz Eduardo Kfouri, idealizador do Portal Mundo Homem e apoiador da campanha, a representação mais igualitária favorece a democracia.

“Considero a super-representação de qualquer grupo prejudicial à legitimidade das instituições. Portanto, melhorar a sub-representação das mulheres é uma questão de melhorar a qualidade da representação para todos”.

Ele também aponta a importância do lugar de fala das mulheres frente a pautas sobre equidade de gênero. “Me parece complexo homens, por mais engajados e interessados que estejam em pautas que promovam a equidade de gênero, conseguirem efetivamente representar as mulheres e quem se identifica como mulher. Esse é um lugar de fala único e exclusivo delas, e a presença aumenta a chance das questões das mulheres serem discutidas e amplificadas”.

 

Apoio feminino

A cofundadora do coletivo Vote Nelas, Amanda Brito, também defende mobilizações que tenham foco nos eleitores homens: “Precisamos mobilizá-los, conscientizá-los de que não se trata de uma caridade; estamos falando de um lugar que a mulher também pode ocupar”.

A especialista reforça os desafios que se colocam para além das candidaturas, “afinal, não queremos só ser votadas, queremos ser eleitas”.

 

Reprodução: Redes Sociais

 

Ela chama a atenção, sobretudo, para a participação das mulheres negras: “Nós, pessoas pretas, queremos ser reconhecidas no todo, entre capacidades, direitos e deveres. Quando deixamos as mulheres somente com deveres, estamos cometendo injustiça”.

Amanda fala sobre a importância dos eleitores fiscalizarem de perto o que os partidos estão fazendo com o fundo especial e o partidário eleitoral para efetivarem a campanha de seus candidatos. “Temos um número maior de pretos e pretas concorrendo, mas o que as legendas estão fazendo para que essas eleições possam acontecer?”, questiona. De acordo com o TSE, o número de candidatos negros concorrendo às eleições municipais também bateu recorde, e superou o contingente de candidatos brancos.

Ela sugere a plataforma 72 horas, que permite acompanhar como os partidos estão realizando o repasse. É possível verificar por estados, municípios, legendas e a partir de um recorte de raça. Segundo a plataforma, de um acumulado de repasses de mais de 647 milhões, pouco mais de 474 milhões foram repassados a candidatos do gênero masculino, e 172 milhões para o gênero feminino.

“As mulheres são capazes e realizadoras em qualquer espaço, não é diferente na política. Não podemos aceitar o lugar de cotas para as mulheres, estamos falando de uma reserva de Estado. Estamos prontas para assumirmos o nosso lugar na política e falarmos de pautas de gênero sim, mas também de saúde, educação, meio ambiente, jurídico, legislativo”, defende.

 

O movimento #VoteNelas possui um total de 35 embaixadas em 26 estados, mais o Distrito Federal, onde embaixadoras cuidam de disseminar conteúdos sobre representatividade e equidade de gênero na política. As discussões também são levadas para eventos locais promovidos pelo coletivo, bem como suscitadas nas páginas das redes sociais.

 

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Repórter do site CartaEducação

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