Dois anos depois do crime em Brumadinho, resta a lama

A Vale lucrou, e muito, desde então, enquanto as famílias e os atingidos pelo crime seguem abandonados

Foto: Mauro Pimentel/AFP

Foto: Mauro Pimentel/AFP

Sociedade

“Sobrevivendo.” Assim Andresa Rodrigues, mãe de Bruno, morto aos 26 anos, começou a contar a história de sua batalha por justiça. Do outro lado da contenda está a Vale, uma das maiores empresas brasileiras, entranhada nos poros e veias de Minas Gerais. O corpo de Bruno foi encontrado 105 dias depois do rompimento da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, afundado num mar de lama. À dor, ao trauma e à tristeza se soma a sensação de impotência diante do descaso dos tribunais.

Do filho, resta o uniforme, “verde cor de sangue”. “Evito ir à padaria de manhã, pois vou encontrar jovens, como meu filho, usando a mesma roupa. É muito cruel. Há dois anos suplico para a Vale trocar a cor.” Andressa mora em Mário Campos, município que abriga as famílias de outras 19 vítimas da tragédia. “Lutamos pela condenação dos indiciados que têm as mãos sujas de sangue. Lutamos pela construção do memorial que possa honrar as nossas joias. Por fim, lutamos para que esse crime não se repita nunca mais. Mas a Vale só quer saber dos lucros.”

O acordo em discussão não garante os direitos mínimos das famílias dos mortos e dos moradores da região

A Vale lucrou, e muito, desde então, enquanto as famílias e os atingidos pelo crime ambiental seguem abandonados. No primeiro pregão na Bolsa de Valores após o desastre, em 25 de janeiro de 2019, as ações ordinárias da companhia caíram 24%, o que derrubou seu valor de mercado para 226 bilhões de reais. Uma das estrelas do índice Bovespa, a empresa recuperou-se com o tempo e hoje se beneficia da falta de opções dos investidores, espremidos pelos juros baixos. Por conta da alta da Bolsa, descolada da realidade da economia, a Vale alcançou neste mês um valor de 474 bilhões de reais.

Os acionistas não têm do que reclamar. Naquele ano trágico, a Vale gastou mais na distribuição de dividendos e no pagamento de bônus aos executivos (o prêmio da diretoria somou 19,1 bilhões de reais) do que com as indenizações às vítimas de Brumadinho. A companhia tem se saído bem, no entanto, na estratégia de se proteger dos maus humores dos investidores e do rigor da lei. Ela se vale da “possibilidade de acordo” e de um alinhamento com as instituições públicas e jurídicas de Minas Gerais para dar ares de “segurança jurídica” às suas iniciativas. As ações na Justiça contra a mineradora e a consultoria alemã TUV Sud, negligente na manutenção da barragem, alcançam a marca de 54 bilhões de reais.

O batalhão de advogados da Vale luta justamente para reduzir os valores dos processos, para evitar que o acordo se torne um precedente para outro crime cometido em 2015, quando outra barragem rompeu e uma lama tóxica dizimou a comunidade de Bento Rodrigues, em Mariana.

“Eles tentam um acórdão a portas fechadas para tratar das ações de 26 bilhões de reais, por danos econômicos sofridos pelo estado, e de 28 bilhões por danos morais e sociais coletivos. O tribunal impôs sigilo às minutas de negociação e nenhum representante das vítimas ou dos atingidos participa. Soubemos pela imprensa, inclusive, que em uma audiência a Vale propôs um pagamento total de 21 bilhões, menos da metade, incluindo a realização de obras como o Anel Rodoviário e o Metrô de Belo Horizonte, distante 60 quilômetros de Brumadinho, além de um pacote de 3 bilhões para a recuperação ambiental”, indigna-se Joceli Andreoli, coordenador Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragem. “Nunca fui chamado para participar dessas tratativas. E ainda há menção de que parte disso vai pagar o Rodoanel? Na minha cidade temos esgoto a céu aberto, a cidade é pura poeira, não tem creche. Daí ouvimos que esse dinheiro vai para outro lugar que não aqui”, desabafa Andresa.

As indenizações pagas até o momento somam 2,2 bilhões de reais, distribuídos a 8 mil afetados pelo rompimento da barragem. O prazo final para fechar ou não o acordo encerra-se ainda em janeiro. Caso não se chegue a um acordo, o processo volta à primeira instância. Há um ano, o Ministério Público mineiro denunciou, por homicídio duplamente qualificado, 16 responsáveis pela tragédia, incluído o ex-presidente da Vale Fábio Schvartsman.

“Precisamos sempre lembrar que a nossa maior luta é a garantia da punição aos responsáveis pelos crimes”, diz Marcelo Barbosa, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração. Ele mudou-se há dois anos para Brumadinho, para acompanhar as famílias e as negociações. Andreoli contabiliza ao menos 1 milhão de atingidos e afirma que os prejuízos tendem a levar décadas para ser reparados. “Tem gente que não consegue mais pescar, cuidar da horta, pois a água está contaminada. Os pequenos produtores,ncomo os de Três Marias, quebraram porque ninguém quer comprar deles, por medo de contaminação.”

O sistema Paraopeba está desativado desde o desastre. A contaminação atinge mais de 3 mil habitantes em quatro cidades: São Joaquim de Bicas, Betim, Juatuba e Mário Campos. O novo ponto de captação de água construído pela companhia, em parceria com a Copasa, empresa estadual de saneamento, deve ser entregue em fevereiro. A obra, embora conste das medidas de reparação, irrita os habitantes da comunidade Ponte das Almorreimas, na zona rural de Brumadinho. “As desapropriações são com valores ínfimos. Por isso afirmamos que o crime da Vale se atualiza todos os dias”, resume Barbosa, defensor da revisão da legislação, o fim da autorregulação e um novo modelo de mineração. Não seria surpresa uma nova tragédia nas proporções de Brumadinho. Minas Gerais, com uma economia hiperdependente da mineração, possui ao menos 50 barragens em estado de alerta. “Qual será a próxima vítima?”, pergunta, aflita, a mãe de Bruno.

Publicado na edição nº 1172 de CartaCapital.

 

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Repórter da revista CartaCapital

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