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No campo, estamos de volta à barbárie

Sociedade

“No que depender de mim, o agricultor, o homem do campo, vai apresentar como cartão de visita para o MST um cartucho (de) 762”, afirmou o então deputado Jair Bolsonaro em novembro de 2017, durante um comício em Vitória. “Àqueles que me questionam se eu quero que mate esses vagabundos, quero, sim. A propriedade privada numa democracia é sagrada. Invadiu, pau nele”, emendou.

No sábado 8, a profecia seria cumprida à risca não fosse por um pequeno detalhe. Em vez de cartuchos de fuzil 7,62 mm, a polícia encontrou na cena cápsulas de espingarda e de revólver calibre 38. O crime ocorreu em Alhandra, interior da Paraíba, a 45 quilômetros de João Pessoa. José Bernardo da Silva, o “Orlando”, e Rodrigo Celestino, líderes do MST no estado, foram executados por volta das 19 horas, enquanto jantavam no acampamento Dom José Maria Pires. Segundo testemunhas, quatro homens armados e encapuzados chegaram ao local e pediram para algumas pessoas se afastarem, então abriram fogo contra Orlando e Celestino.

“Bolsonaro fez uma campanha baseada no ódio e no estímulo ao uso de armas. Com a vitória, brotou um sentimento de impunidade naqueles latifundiários mais truculentos, que sempre acham que é possível resolver os problemas sociais pela força”, lamenta João Pedro Stedile, líder do MST. A Polícia Civil investiga o caso, mas ainda não há suspeitos. “Vamos tomar nossos cuidados, agir com prudência e denunciar todas as tentativas de criminalizar os movimentos do campo e da cidade. A sociedade não aceita a violência como método de governar”, acrescenta Stedile.

Osvaldo Bernardo da Silva, irmão de Orlando e coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens na Paraíba, vive há dez anos sob o guarda-chuva do programa de proteção aos defensores dos direitos humanos. Em depoimento a CartaCapital, ele diz que sempre temeu pela vida do irmão. “Era muito ativo, muito voluntarioso.

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Em todas as ocupações estava na linha de frente. Era um líder nato.” Orlando deixou a esposa e dois filhos. O velório aconteceu na capela do assentamento Zumbi dos Palmares, no município de Mari, onde vivia com a família. Celestino foi velado e sepultado em João Pessoa, em uma cerimônia restrita aos amigos e familiares.

O sepultamento de Orlando transformou-se em um ato político. Estiveram presentes o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, o procurador-regional da República, José Godoy, além de lideranças de diversos partidos e movimentos sociais.

Para Godoy, é lamentável que um ato de violência como este tenha acontecido às vésperas da comemoração dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e logo após a celebração dos 30 anos da Constituição, que definiu o acesso à reforma agrária como um direito básico. “Não existe democracia sem eleições livres. Não existe eleições livres sem partidos e movimentos sociais. Então vocês (do MST) são o cerne da democracia e, quando acontece isso, é a democracia que está sendo atacada”, afirmou o procurador.

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Conivente com os abusos da Lava Jato, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, agora diz estar preocupada com o “contexto sombrio de violência” contra os movimentos sociais, a demonstrar “quão distante ainda estamos da efetivação dos direitos garantidos pela Declaração dos Direitos Humanos”.

De acordo com o professor e pesquisador do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba, Marco Antonio Mitidiero Junior, pós-doutor pela Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, a história de lutas e conflitos agrários no estado é antiga. Embora tenha nascido em Pernambuco, as Ligas Camponesas, precursora na luta pela reforma agrária, teve uma atuação intensa na Paraíba entre as décadas de 1950 e 1960, principalmente na região de Mari, no Agreste paraibano.

“O acampamento Antas está à beira da estrada há 20 anos e fica a cerca de 500 metros da casa onde viveram João Pedro e Elisabeth Teixeira, das Ligas Camponesas”, lembra o professor. O militante foi assassinado em 1962. Para Mitidiero, a Paraíba é um espelho do que acontece em todo o País. “Aqui, o que se vê é uma altíssima concentração fundiária. Diante dessas condições, os conflitos por terra são iminentes.”

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A primeira Liga Camponesa surgiu no início da década de 1950 no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, a 53 quilômetros de Recife. A propriedade congregava 140 famílias de “foreiros”, lavradores obrigados pagar pesadas taxas para o dono da terra. O advogado Francisco Julião, que já atuava em defesa dos direitos de camponeses, foi chamado para assessorar a formação do núcleo e tornou-se a liderança de maior expressão.

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No início dos anos 1960, o jornalista e escritor Antonio Callado publicou uma série de reportagens sobre o movimento para o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil, depois reunidas no livro Tempo de Arraes – Padres e comunistas na revolução sem violência (1965). O tema foi revisitado por Callado no romance Quarup, de 1967.

Os conflitos fundiários persistem até hoje. A partir de 2015, notadamente após o impeachment de Dilma Rousseff, houve uma escalada da violência no campo. Em 2014, foram registradas 31 mortes no País em conflitos agrários, segundo a Pastoral da Terra. No ano seguinte, o número subiu para 50. Depois, passou para 61, em 2016, e para 71 assassinatos em 2017.

“Por paradoxal que possa parecer, a violência no campo constitui-se na forma de organização territorial brasileira. Serve como mediação nas disputas pela terra, e na Paraíba não é diferente”, lamenta Mitidiero. O pesquisador não é otimista em relação ao futuro. “Tudo indica que a violência vai aumentar. As declarações de Bolsonaro durante a campanha dão o tom do que virá pela frente.”

Repetidas vezes, o presidente eleito deixou claro que pretende tratar o MST como “organização terrorista”. Além da ameaça de criminalização do movimento, Stedile está descrente no futuro do programa de reforma agrária, que deveria estar atrelado a um projeto nacional de desenvolvimento, voltado para a distribuição de renda, a geração de emprego, o fortalecimento da agroindústria, a igualdade de direitos para todos, enumera.

“Infelizmente, o novo governo não tem um projeto nacional e muito menos de desenvolvimento econômico e social”, diz o líder do MST. “Será apenas um governo voltado para os interesses dos banqueiros, das empresas estrangeiras, e a favor da privatização de nossas estatais. Basta ler as declarações do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, e seus chicagos boys.

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Jornalista

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