De corpo presente

Sociedade

Uma coisa é ver pela telinha (um cronista antigo a chamava de “fábrica de fazer doido”, lembram?) aquelas pessoas de semblante desfigurado pela raiva, esbravejando contra o caos que se estabeleceu em nosso sistema aeroviário. É ruim ver aquilo, mas como todo espetáculo televisivo, desgasta-se, entropiza, e acaba por não interessar mais o público. Temos uma capacidade freudiana para o esquecimento. 

Coisa diferente é estar lá, de corpo presente, sofrendo frio ou calor, exposto à tensão de todas as incertezas.

Voltei, recentemente, de uma cidade brasileira, aonde fui participar de um evento literário promovido pela UBE local. A partida atrasou cerca de quarenta minutos, tempo que, pelos meus cálculos, não me faria grande falta, livre de compromissos com hora marcada como ando.  

A coisa, entretanto, começou a pegar na chegada a Guarulhos. O ônibus da empresa aérea faz corridas de meia em meia hora. Comecei a encarar irritado o relógio de quinze em quinze minutos. Minha folga ia diminuindo vertiginosamente. 

De Guarulhos a Congonhas gastamos mais uma hora e meia. O trânsito, quando entramos em São Paulo, não estava a nosso favor. Ou seja, pisei o saguão do aeroporto pouco menos de quinze minutos antes do horário de embarque. Ah, sim, e era preciso fazer novo check in. Havia um mar de gente. Não é hipérbole minha. Era um mar de gente. Então bateu o desespero. A fila, com mais de cinquenta metros, não andava. 

Peguei pelo braço a primeira funcionária que tangenciou meu caminho. Errei, era de outra companhia. Finalmente consegui segurar a funcionária certa e mostrei o horário do meu voo. Ela mandou que a seguisse. Empurramos gente e fomos empurrados, com irritação de ambas as partes, mas chegamos aonde queríamos. Resolvido o assunto, nova enchente de seres humanos para entrar no recinto dos portões. E toca correr, furar fila, subir escadas, tropeçar em gente, sem olhar para trás. Cheguei ao portão indicado com dois minutos de atraso. O avião estava pousando. 

Agora, com essa neura de terrorismo (pois fazemos de tudo para entrar no clube dos países alvo de terroristas) os que mandam na gente resolveram roubar-nos mais uma hora para embarcar. Os passageiros devem chegar ao aeroporto duas horas antes do embarque, evitando aglomerações e atrasos no check in. É por isso que ninguém mais repete a frase time is money. A hora a mais que nos tiraram não tem o menor valor monetário. Enfim, se você pode viajar de avião, eles pensam, pode também perder uma hora a mais para o serviço de prevenção antiterror. 

Meu amigo Adamastor acaba de me contar que precisou fazer uma viagem aérea de 45 minutos. Não teve jeito: deixou lá duas horas de vida para ter o direito de embarcar.  

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