Contra a Globo, Arautos assumem afinidade com o governo Bolsonaro

Acossada, a ordem diz ter sido usada para atacar 'bases conservadoras' que defendem o presidente

Lembranças dadas aos Arautos incluem sangue e cabelos

Lembranças dadas aos Arautos incluem sangue e cabelos

Sociedade

A cruzada de Jair Bolsonaro contra a Globo e a imprensa ganhou um nada desprezível reforço. Desde a exibição da controversa reportagem que aproximou o presidente das investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, os Arautos do Evangelho – célula católica nascida da TFP – vêm demonstrando simpatia e afinidade com o governo.

Como Bolsonaro, os Arautos vêm passando maus bocados desde que tiveram seus segredos expostos pela maior emissora do país. As últimas edições do Fantástico trataram das denúncias de ex-membros, e pais de alunos e ex-alunos da instituição. Mais de quarenta relatos que maus tratos, alienação parental e abuso sexual foram encaminhadas ao Ministério Público de São Paulo. Anteriormente, o caso fora assunto da edição 1076 de CartaCapital, publicada no dia 11 de outubro.

Acossados pela repercussão do caso e por uma intervenção ordenada pelo Vaticano, os Arautos tentam emplacar a tese de que a Globo só repercutiu as denúncias contra a ordem para engrossar a artilharia contra o presidente. Em um vídeo divulgado na noite desta quinta-feira 31, o padre Alex de Brito, que lidera os Arautos, admite comungar dos mesmos valores que o governo diz defender. Diz que as denúncias jornalísticas contra ambos não passam de complô “para minar as bases conservadoras, que defendem as famílias, os valores morais, os valores judeus-cristãos [sic], que defendem, enfim, a soberania nacional”. O objetivo a curto prazo, completa, seria abalar o governo.

Os Arautos do Evangelho surgiram em 1997, poucos anos após a morte de Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP. Mantêm atualmente cerca de 2 mil alunos na Cantareira e em outros “castelos” espalhados pelo Brasil e outros países. Quase 80 pontos do planeta têm ao menos um religioso associado ao grupo. O faturamento mensal, estimam ex-membros, gira em torno dos dez milhões de reais.

Embora notadamente conservadora, a ordem sempre limitou-se a atuar dentro dos muros da igreja, sem jamais defender publicamente algum candidato ou ideologia. Teve relações próximas com Geraldo Alckmin e figurões ligados a seu governo. Dias antes de divulgar o vídeo, os Arautos receberam a visita do deputado estadual Frederico D’Ávila (PSL), um dos articuladores da campanha de Bolsonaro e ex-assessor de Alckmin.

A maioria das denúncias envolvem o fundador dos Arautos, monsenhor João Sconamiglio Clá Dias. Tratado como santo pelos membros da ordem (seu dote divinal teria sido repassado pelo fundador da TFP), Dias liderou até 2017, quando eclodiram no Vaticano as primeiras denúncias de exorcismo indevido e conspiração contra o papa Francisco. Hoje aos 80 anos, e debilitado pelas sequelas de uma AVC, Clá raramente aparece em público.

Os arautos negam todas as denúncias e reportagens, que atribuem a “perseguição religiosa”. Denunciantes e críticos têm sido chamados a responder na Justiça. Para defender seu líder, atuam unidos e em várias frentes. Chegaram a comunicar que não consideram legítima a intervenção da Santa Sé. No campo digital, há uma grande operação em curso para recuperar a imagem que inclui desde o uso de fakes e robôs ao patrocínio de anúncios que levem mais longe os depoimentos elogiosos de membros e ex-membros.

CartaCapital teve acesso ao registro de uma reunião interna celebra o aumento dos acessos aos canais virtuais dos Arautos desde a matéria do Fantástico. Diante do acirramento da guerra contra a imprensa e da dinâmica virtual que favorece teorias conspiratórias e desinformação, os discípulos da TFP podem ter concluído que tem mais a ganhar com o bolsonarismo do que a perder.

 

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