Cidade no Rio Grande do Sul vacina terapeutas holísticos antes de professores e motoristas

Prefeitura de Santa Maria entendeu, contrariando o plano do Ministério da Saúde, que eles são parte do grupo de risco para a Covid-19

(foto: iStock)

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Saúde,Sociedade

O município gaúcho de Santa Maria, a 290 km da capital Porto Alegre, iniciou a vacinação de terapeutas holísticos antes mesmo de outros profissionais como professores e motoristas de ônibus. Contrariando o plano nacional elaborado pelo Ministério da Saúde, a Secretaria da Saúde entendeu que os profissionais fazem parte do grupo de risco para a Covid-19.

As terapias holísticas são um conjunto de técnicas sem comprovação científica que prometem trazer cura a partir de tratamentos envolvendo corpo, mente e alma. Dentre elas, estão a cristaloterapia, aromaterapia e reiki —  ambas, aliás, são reconhecidas como procedimentos do SUS (Sistema Único de Saúde) desde 2017.

Para receber a vacina em Santa Maria, basta comprovar que está em atividade e não em home office preenchendo um simples formulário disponibilizado pela própria prefeitura.

A terapeuta Tatiane Bavaresco, que atende no espaço Equilibra Terapia Holístico em Santa Maria, defende a medida. “Vacinação é uma forma de imunizar e dar mais segurança para estes profissionais estarem próximos de seus clientes, para poder realizar seu trabalho e estar fazendo sua parte mediante todo esse contexto conflitante que vêm sendo esta pandemia”, diz.

Quando questionada sobre o fato de o grupo não estar na linha de frente no enfrentamento da pandemia, Bavaresco responde: “As PICS (Práticas Integrativas e Complementares) são tratamentos que utilizam recursos terapêuticos baseados em conhecimentos tradicionais e milenares, voltados para prevenir diversas doenças como depressão e hipertensão. Em alguns casos, também podem ser usadas como tratamentos paliativos em algumas doenças crônicas”.

O Ministério da Saúde explica que, apesar do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 ter sido elaborada em acordo com entidades como o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), estados e municípios têm autonomia para seguir com a campanha de vacinação, de acordo com demandas locais.

Ainda conforme a pasta, o plano não cita especificamente o terapeuta holístico, mas o município pode decidir contemplar esse grupo, se achar que deve. A reportagem tentou diversas vezes contato com a Prefeitura de Santa Maria e com a Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, mas não obteve retorno.

Cidade vive situação dramática

Março de 2021 foi o mês mais letal dos últimos seis anos em Santa Maria, a 5ª cidade mais populosa do Rio Grande do Sul, com total de 316 óbitos registrados pelos cartórios, 125 mortes a mais do que a média para o mês desde 2015, segundo dados do portal de transparência do Registro Civil, com base em dados dos cartórios de registros civis.

Pela primeira vez na história recente, o Rio Grande do Sul registrou mais mortes do que nascimentos em um mês. Foi o único Estado do Brasil a verificar encolhimento da população em março, com 15.844 mortos por todas as causas, incluindo coronavírus, e 12.006 nascimentos no mês.

O município, de cerca de 250 mil habitantes, já acumula 495 mortes causadas pelo coronavírus. Na cidade, a distribuição de medicamentos do chamado Kit-Covid, alardeado por Bolsonaro e que não tem comprovação no tratamento da doença, virou lei.

A lei municipal tornou obrigatória a disponibilização gratuita de medicamentos do kit, composto por hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, bromexina, nitazoxanida, zinco, vitamina D e anticoagulantes. No lugar de salvar vidas, esses medicamentos podem aumentar o número de mortes de pacientes graves e mandar pacientes para a fila dos transplantes de fígado.

Considerado pelo jornal The New York Times o coração do colapso da Saúde no Brasil, Porto Alegre e todo o estado do Rio Grande do Sul vivem um caos provocado pela pandemia. Ao todo já são 23.271 mortes e 922.550 casos confirmados da Covid-19 no estado. As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) estão com mais de 85% dos leitos
ocupados.

Por isso, o Ministério da Saúde considerou no começo de março a região Sul o epicentro da crise sanitária no país. Diante deste cenário, os governadores Carlos Moisés (PSL), de Santa Catarina, Ratinho Jr. (PSD), do Paraná, e Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, solicitaram à pasta que seus estados tenham prioridade na disponibilização de vacinas contra a Covid-19.

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