Chuta que é macumba

Sejamos honestos, muitas religiões são desconhecidas pela maioria e são intocáveis

Chuta que é macumba

3ª Turma,Opinião,Sociedade

O título aponta para que possamos discutir diversos temas sociais: Liberdade de expressão, intolerância religiosa e seletividade na urbanidade.

Primeiro “macumba” é um instrumento de percussão. Macumbeiro é o músico que toca tal instrumento. Porém, normalmente usa-se como um termo pejorativo desde o Brasil-colônia. Pois se designa como algo do mau, perverso. Tudo isso elaborado por uma construção social sem menor criticidade, reproduzida para conduzir uma inferioridade cultural para alguns e superioridade cultural para outros – esta é a base do racismo religioso.

Algumas pessoas que cultuam religiões de matriz africana ressignificaram tais termos. Mesmo assim, somente aqueles que são do candomblé ou da umbanda podem ser referir aos seus irmãos de fé usando tal adjetivo.

O desconhecimento não pode abrir espaço para preconceitos e/ou racismo religioso.

Imagina se atacássemos tudo àquilo que não temos intimidade e compreensão? Voltaríamos à idade média ou ressuscitaríamos (talvez algo que não tenha morrido) um tribunal de inquisição.

Temos liberdade de expressão, mas ela não nos possibilita a falar ou fazer aquilo que é criminoso. Se for assim, devemos prestar contas ao Estado.

A Constituição Brasileira ratifica que o Brasil é um país laico, ou seja, tem uma posição neutra no campo religioso. Deve ter como princípio a imparcialidade em assuntos religiosos, não apoiando ou discriminando nenhuma religião ou a não crença.

Mas na prática o país tem uma face intolerante, existem cultos religiosos dentro dos espaços públicos e muitas vezes o Estado é indiferente às denúncias.

Segundo dados do Disque 100, canal do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que concentra denúncias de discriminação e violação de direitos, de janeiro a novembro de 2018, foram feitas 213 notificações de intolerância religiosa a matrizes africanas. O número é 47% maior do que o registrado em todo o ano de 2017, quando foram recebidas 145 denúncias. Hoje representam 59% do número total de reclamações.

O Brasil deveria ter como característica o respeito à diversidade religiosa. De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há no país seguidores da fé católica, evangélica e espírita, do candomblé, umbanda, judaísmo, islamismo, hinduísmo, budismo e tradições indígenas, entre outras. Com tantos segmentos, por que as religiões de matriz africana são sempre atacadas? Ouço que é o “tal desconhecimento”.

Sejamos honestos, muitas religiões são desconhecidas pela maioria e são intocáveis.

Voltamos ao termo “racismo religioso”. Primeiro temos que encarar: sim, existe racismo no Brasil. O mito da democracia racial faz com que acreditemos em uma relação cordial, mas os números estatísticos de desigualdade, homicídio, baixa escolaridade e etc apontam uma diferente realidade. A cor preta é a que é alvejada – segundo o último Mapa da Violência cerca de 30 mil jovens de 15 a 29 anos são assassinados por ano no Brasil, e 77% são negros. Está tudo relacionado… O racismo é estrutural, vamos encontra-lo em todas as instituições sociais e, a religião é uma delas. Acima já está sinalizada qual a religiosidade mais perseguida.  

A história das religiões é permeada em maniqueísmo e dominação. Alguém tem que ser o vilão. Isso tudo tomado por poder hegemônico. Determina-se que a divindade que outro cultua não é do bem, para que se tenham mais adeptos naquilo que eu acredito. Por trás disso tudo tem dinheiro, muito dinheiro. É uma forma rápida de conseguir seguidores – dizimistas.

A Igreja validava quem tinha alma e quem era uma mera coisa, assinava embaixo a escravidão e suas consequências. Podemos pensar nos escravizados que vieram para o Brasil e tiveram que ser rebatizados com nomes de cristãos novos, porque segundo a Igreja o seus nomes africanos traziam maldição.

No período de escravidão os senhores tinham requinte de crueldade para a população negra, mas rezavam e obrigavam os escravizados a rezarem. Mas não podia ser para os seus deuses africanos, estes eram perversos. O Deus do branco que era bom.  

No início do século XX, onde o país seguia a tendência europeia – a “belle époque”, com o início da República, socioeconomicamente o Brasil estava em crise, a situação estava péssima em todos os sentidos. A ciência era forte com a sua teoria eugênica e ainda o darwinismo social estava forte – A Europa como o progresso e a África e a Ásia como os primitivos. Uma das justificativas para as problemáticas brasileiras era que o país era de maioria negra e mestiça (entendo como negra). Daí surge o processo de embraquecimento ou branqueamento. E principalmente onde se intensificou a marginalização da cultura negra – e sua religiosidade.

O racismo sempre foi uma maneira de controle. É assim que se define o papel social de cada grupo. Alguns podem tudo e outros pouco ou nada.

Se realmente a vida é feita do extremo bem e mal – o lado das religiões de matriz africana não é o ruim na construção do mundo e do Brasil.

O que é covarde nisso tudo é que as religiões de matriz africana não são proselitistas – não vejo ninguém catequisando ou batendo na porta alheia e gritando: Quer ouvir a palavra de Exu?

Por fim, entenda que Exu não é o diabo – o diabo é da cultura cristã. Exu é o orixá da comunicação, do movimento, da ordem e da disciplina. O diabo eu não saberia explicar, porque ele não faz parte da minha religião – candomblé.

Não demonizem os meus Orixás. Laroiê!

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