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Censo agropecuário: como medir avanços sem dados comparáveis?

Sociedade

Várias vezes me referi na coluna sobre o atraso, pelo IBGE, na realização do Censo Agropecuário. O último, divulgado em 2007 com base em dados do ano anterior, fazia nossas análises defasadas em mais de dez anos.

Da mesma forma, insisti, inclusive com a ajuda de fontes internas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de que os novos conceito e formato dos levantamentos, ao invés de aperfeiçoá-los, viriam com graves vícios informativos.

Pressa contra o atraso: os trabalhos de campo foram realizados em pouco mais de quatro meses, período insuficiente mesmo com a utilização de questionários eletrônicos; alegada falta de recursos orçamentários; grau elevado de relativização com aspectos sociais e ambientais permitiriam apenas a visão do alto e o pequeno o uso da lupa.

Aconteceu. Entregues pelas próprias escusas do IBGE na introdução do trabalho: louvou-se as novas tecnologias eletrônicas de pesquisas; ainda assim, os resultados são “preliminares”; a base voltou a ser o ano-safra (outubro 2016/setembro 2017), o que dificulta qualquer análise regressiva; quando criado, como justo, foi pensado quinquenal, mas “devido a cortes orçamentários do governo”, os de 1990, 2000 e 2010 não foram realizados, e os de 2005 e 2015 saíram com dois anos de atraso.

Mais: não devemos comparar os dados dos Censos Agropecuários 1995/6 e o de 2017, em progressão, com o anterior (2006/7), referenciado no ano civil.

Em certos itens, então, como poderemos ser conclusivos sobre avanços e retrações?

Faz-me lembrar o poeta e diplomata Vinícius de Moraes (1913-1980): “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

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O que escrevi até agora consta da Introdução do trabalho. Deve ser crível, o que nos faz, a partir de agora, seguir como Deus fez a mandioca, “de qualquer jeito”, sem levar em conta estatísticas passadas, ou fazer esforço hercúleo para as comparações.

Como era esperado e conhecido pelas torcidas de Flamengo e Corinthians, cresceu a concentração fundiária. Propriedades acima de 1.000 hectares passaram a ter maior participação sobre o total. As áreas médias, entre 100 e 1.000 hectares, tiveram queda.

Determina isso o brutal avanço de áreas plantadas com lavouras temporárias (55 milhões de hectares) – grãos, especialmente soja – com crescimento, entre 1975 e 2017, próximo a 80%, enquanto as lavouras permanentes – café e frutíferas – no mesmo período, ficaram estagnadas em torno de 8 milhões de hectares.

A forte predominância das lavouras temporárias, deixa claro o fator capital como motor de produtividade e aumento de produção, através de mecanização, irrigação, tecnologia de informação através da internet e, mais recentemente, o uso da agricultura de precisão.

Consequência direta e sem levar em conta aspectos sociológicos de maior amplitude e profundidade, desde o último Censo, 1,5 milhão de pessoas deixaram de ser ocupados no campo, processo e consequências pouco levados em conta, que ocorre há três décadas e que só a lupa saberá explicar.

Nada disso, porém, fez as folhas e telas cotidianas deixarem de adiantar a vista assim do alto mais parece um céu no chão”. Conclusões críveis, mesmo sem GPS, mas que o meu amigo Pires veria como de pouca profundidade, pois de há muito já percebidas por quem anda por aí, a realizar o encontro dos rios Oiapoque e Chuí ou Chauí, conforme a linha editorial adotada.

Nada me surpreendeu nas consultas que fiz às tabelas do Preliminar Censo Agropecuário 2017, além de um instantâneo (selfie?), que retrata o óbvio e nada permite para análise, reflexão e prospecção.

Algo como “somos assim”. Nenhuma inovação. Pelo contrário, supressões importantíssimas sem nos permitir analisar com segurança o porquê até aqui viemos, as mudanças intestinas que aconteceram, e nem nos orientar qual a tendência para onde seguiremos.

Para usar a lupa, serão necessárias muitas Andanças Capitais. Quase o mesmo que fazer um Censo Agropecuário do B, que explique papel e importância da agricultura familiar no Brasil, aí entendida não como algo tosco, rudimentar, de assentamentos estigmatizados, pessoas economicamente ativas apenas para a sobrevivência, mas intimamente inseridas nos agronegócios, sem tech que não recebem, pop que não escutam e muito menos tudo, que nunca foram.

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