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Corrupção

Carne Fraca: Frigorífico colocava carne de cabeça de porco em linguiça

por Redação — publicado 17/03/2017 11h18, última modificação 17/03/2017 14h47
Em gravação feita pela PF, donos do frigorífico Peccin, do Paraná, discutem fabricação ilegal de embutidos
Divulgação
Calabresa

Calabresa da Italli, marca do grupo Peccin

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira 17 a Operação Carne Fraca, a maior de sua história, que envolveu 1,1 mil policiais federais para cumprir 309 mandados judiciais em sete estados.

O objetivo da operação, autorizada pela 14ª Vara Federal de Curitiba, é desarticular uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários federais e empresários do agronegócio. Mediante o pagamento de propina, os fiscais facilitavam a produção de alimentos adulterados e emitiam certificados sanitários sem realizar a fiscalização de fato.

Entre os alvos da operação estão executivos das gigantes JBS (de marcas como Friboi, Swift e Seara) e BRF (marcas como Sadia e Perdigão). Outro alvo é o frigorífico Peccin Agroindustrial Ltda., baseado em Curitiba e dono da marca Italli Alimentos. O grupo é responsável por algumas das fraudes mais graves detectadas pelos investigadores.

Uma das provas coletadas pela Polícia Federal contra a Peccin é um diálogo entre Idair Antonio Piccin, dono do frigorífico Peccin, e Nair Klein Piccin, sua mulher e sócia. Na conversa, gravada pela PF em março de 2016, o casal discute a utilização de carne de cabeça de porco na fabricação de linguiças, o que é proibido por lei.

Segundo a PF, o grupo Peccin "pagava propina aos fiscais agropecuários" para ignorarem as "absurdas práticas sanitárias irregulares da empresa e facilitarem a obtenção dos documentos necessários ao seu regular funcionamento".

Confira o diálogo:

IDAIR: Você ligou?

NAIR: Eu? Sim eu liguei. Sabe aquele de cima lá, de Xanxerê?

IDAIR: É.

NAIR: Ele quer te mandar 2 mil quilos de carne de cabeça. Conhece carne de cabeça?

IDAIR: É de cabeça de porco, sei o que que é. E daí?

NAIR: Ele vendia a 5, mas daí ele deixa a 4,80 para você conhecer, para fechar carga.

IDAIR: Tá bom, mas vamos usar no quê?

NAIR: Não sei.

IDAIR: Aí que vem a pergunta, né? Vamo usar na calabresa, mas aí, é massa fina, é? A calabresa já está saturada de massa fina, é pura massa fina.

NAIR: Tá.

IDAIR: Vamos botar no quê?

NAIR: Não vamos pegar, então?

IDAIR: Ah, manda vir 2 mil quilos e botamos na linguiça ali, frescal, moída fina.

NAIR: Na linguiça?

IDAIR: Mas é proibido usar carne de cabeça na linguiça...

NAIR: Tá, seria só 2 mil quilos para fechar a carga. Depois da outra vez dá para pegar um pouco de toucinho, mas, por enquanto, ainda tem toucinho (ininteligível).

IDAIR: O toucinho, primeira coisa, tem de ver que tipo de toucinho que ele tem.

NAIR: Sim.

IDAIR: É, manda ele botar, vai descarregar aonde?

NAIR: Cem quilos de toucinho para ver que tipo de toucinho é o dele.

IDAIR - Vai descarregar aonde isso?

NAIR: Em Jaraguá.

IDAIR: Manda botar. (...)

NAIR: E dessa vez pego os 2 mil quilos de cabeça então?

IDAIR: É, pega. Nós vamos fazer o quê? Só que na verdade usar no quê? Vai ter de enfiar um pouco em linguiça ali.

NAIR: Em Jaraguá tem mil quilos de sangria, essa serve para quê?

IDAIR: Para calabresa.

NAIR: Só para calabresa? Tá, tá bom, tá.

IDAIR: Tchau.

registrado em: Operação Carne Fraca