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Corrupção

Carne Fraca: "Sem cheiro de azedo", frigorífico vendeu presunto podre

por Redação — publicado 17/03/2017 13h55, última modificação 17/03/2017 14h25
Sócios pagavam propina a fiscais para que práticas sanitárias irregulares fossem ignoradas

Em uma das gravações coletadas pela Polícia Federal na Operação Carne Fraca, os sócios Idair Antonio Piccin e Normélio Peccin Filho discutem a venda de presunto podre pelo frigorífico Peccin Agroindustrial Ltda, baseado em Curitiba e dono da marca Italli Alimentos.

Em outro diálogo, entre Idair e sua mulher Nair Klein Piccin, também sócia, foi discutida a utilização de carne de cabeça de porco na produção de linguiça.

Na conversa, os sócios afirmam que é possível usar o presunto, pois não há “cheiro de azedo”. Segundo a PF, o Grupo Peccin "pagava propina aos fiscais agropecuários" para ignorarem as "absurdas práticas sanitárias irregulares da empresa e facilitarem a obtenção dos documentos necessários ao seu regular funcionamento".

Confira o diálogo:

NORMÉLIO: Tu viu aquele presunto que subiu ali ou não chegou a ver?

IDAIR: Ah, eu não vi. Cheguei lá, mas o Ney falou que tá mais ou menos, não tá tão ruim não.

NORMÉLIO: Não, não tá. Fizemos um processo, até agora eu não entendo, cara, o que é que deu naquilo ali. Pra usar ele, pode usar sossegado, não tem cheiro de azedo, nada, nada, nada.

IDAIR: E o de ontem?

NORMÉLIO: Sim, já tá cozinhando. Tá bom.

IDAIR: Mas não deu problema nenhum?

NORMÉLIO: Não deu problema. Eu não sei que demônio deu naquilo ali que nós não conseguimos achar o que é que deu naquela massada ali, cara. E tava bom, bonito, assim, a carne boa, não tava melada, não tava “fede”, é, cheirando, assim de fresquinho, nada, nada, nada. Ele usou água fria, usou gelo, usou tudo, certinho, certinho.

IDAIR: É, não adianta, tem alguma coisa que ficou errada, um detalhe que o cara nem percebeu.

NORMÉLIO: E até isso. Se tivesse sido outro que misturou tempero, isso e aquilo, até dava pra desconfiar. Mas fui eu “porco dio” e não percebi nada. Não percebi nada.

IDAIR: É, mas aí ele cometeu uma falha sem perceber. Se de repente lavou aquele “sangue”? e... (pausa)

NORMÉLIO: Deixou quente, sei lá.

IDAIR: É, e fica aquela amperagem quente, quando ele entra, a primeira fica em contato aquela (ininteligível)  já começa a entrar em processo de, de, de.

NORMÉLIO: Mas é delicado, que entra mosca dentro, cara, esse presunto aí.

IDAIR: Não. Lógico. Isso aí não pode fazer uma vírgula fora do normal.

NORMÉLIO: Não, não. Tá louco. Agora que eu vi que o bicho é filho da puta mesmo, tem que cuidar.

(...)

IDAIR: Eu mandei moer quatro massadas, tudo massa fina. Aí, depois, a massa grossa botar ser aquilo ali.

NORMÉLIO: Não, ele não tá, pode usar. Ele não tá assim, com cheiro de azedo, de coisa assim, não tá. Tanto é que foi (injetado?) ontem com a mesma carne, hoje embutimos ali, normal, bonito, sem problema nenhum.

A Operação Carne Fraca foi deflagrada na sexta-feira 17 para desarticular uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários federais e empresários do agronegócio. Mediante o pagamento de propina, os fiscais facilitavam a produção de alimentos adulterados e emitiam certificados sanitários sem realizar a fiscalização de fato.

Entre os alvos da operação estão, ainda, executivos das gigantes JBS (de marcas como Friboi, Swift e Seara) e BRF (marcas como Sadia e Perdigão). 

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