Brasileiro foi mais triste, ansioso, raivoso e preocupado que a média mundial em 2020

Comparação entre indicativos como tristeza e sensação de alegria mostraram 'felicidade que não aconteceu', diz pesquisador da FGV

Parentes choram durante o funeral da vítima da Covid-19. Foto: Michael DANTAS / AFP

Parentes choram durante o funeral da vítima da Covid-19. Foto: Michael DANTAS / AFP

Sociedade

Esteve com raiva, estressado, triste e preocupado nos últimos tempos? Você certamente não está sozinho. O aumento dessas sensações aparentemente uniu o Brasil e fez com que o País tivesse percepções de infelicidade acima da média mundial em 2020, demonstra a pesquisa Bem-Estar Trabalhista, Felicidade e Pandemia, realizada pela FGV Social e publicada nesta segunda-feira 14.

Se outros estudos já apontam o aumento da pobreza e fome, além da queda na perspectiva de vida em 2020 por consequência da Covid-19, as respostas compiladas na pesquisa da FGV dão conta de uma “desigualdade da felicidade”: o percentual geral de queda foi observado nos 40% mais pobres e no grupo intermediário.

Não é difícil entender os motivos, já que os indicativos mostram que “bem estar objetivo e subjetivo caminham de mãos dadas”, escreve o pesquisador Marcelo Neri, coordenador da pesquisa.

A renda média per capita atingiu 995 reais no 1º trimestre de 2021, menor valor da série histórica analisada pela FGV desde 2012. A comparação entre o 1º trimestre de 2020 e 2021 mostra uma queda de rendimentos dos mais pobres quase duas vezes maior do que a média dos brasileiros.

“Já os grupos mais abastados mantiveram a satisfação com a vida. Ou seja, há aumento da desigualdade de felicidade na pandemia. A diferença de satisfação com a vida entre os extremos de renda, de 7,9% em 2019, sobe para 25,5%”, pontua Neri. “Um ano depois podemos também datar o primeiro trimestre de 2021 como o pior ponto da crise social”.

 

Felicidade em queda

Para medir sentimentos e comparar o estado de espírito do brasileiro com o mundo, a pesquisa da FGV Social utilizou dados processados pelo Gallup World Poll, que, desde 2005, realiza o mesmo questionário com pessoas acima de 15 anos em mais de 130 países. O grupo de pesquisas, no entanto, tem tradição com questionários sobre renda, qualidade de vida e outros medidores desde 1938.

Em geral, o brasileiro foi mais triste, ansioso, raivoso e preocupado em 2020 do que a média de 40 países selecionados pela FGV — incluindo nações ricas, como Dinamarca, e pobres, como o Zimbábue. O comparativo levou em conta uma pesquisa feita entre 27 de agosto e 25 de outubro de 2019 e 10 de setembro e 11 de novembro de 2020.

Questionados sobre terem sentido aquela emoção no dia anterior, o maior salto observado somente entre os brasileiros foi o da preocupação, com 62% dos entrevistados apontando a sensação — um aumento de 6%.

A raiva subiu de 19% para 24% em 2020 entre as duas pesquisas, enquanto os 40 países analisados registraram um avanço de 0,8% pontos percentuais. Esta foi a maior diferença registrada no comparativo entre os sentimentos dos brasileiros e habitantes de outras nações: uma diferença de 4% a mais de raiva do que eles. Já a tristeza subiu 5% entre os brasileiros: 31% dos respondentes identificaram o sentimento um dia antes da pesquisa.

Em contraste, a única sensação positiva abordada pela pesquisa — o questionamento sobre se o entrevistado havia se divertido no dia anterior — apresentou queda de 6% entre os respondentes do Brasil, apesar de 66% terem tido a sensação.

“Em geral, indicadores objetivos e subjetivos mostram na pandemia piora das desigualdades dentro do Brasil e uma perda maior gerada para o país do que para o conjunto de 40 nações”, conclui Marcelo Neri. “Há marcada involução de felicidade no Brasil, que não aconteceu”.

Leia a pesquisa completa.

 

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