Brasileiras que vivem no Egito explicam o caso do médico bolsonarista preso por assédio

Victor Sorrentino aguarda em uma prisão egípcia até que seja ouvido pela Justiça local

Victor Sorrentino (Foto: Reprodução / Instagram)

Victor Sorrentino (Foto: Reprodução / Instagram)

Diversidade,Sociedade

A prisão do médico e cirurgião plástico gaúcho, Victor Sorrentino, na cidade do Cairo, Egito, ocorridA no último dia 30, ainda terá desdobramentos. Ele é acusado de assediar uma mulher muçulmana na cidade turística de Luxor, localizada à beira do rio Nilo, ao sul da capital, no último 24 de maio. Sorrentino gravou um vídeo no instante que a vendedora mostrava um papiro, material usado na antiguidade para gravar escritas. Ele olha e afirma, em português, “elas gostam do bem duro”. A seguir pergunta, “comprido também é legal, né?”. A vendedora, sem entender o idioma, apenas sorriu.

O médico postou o vídeo em suas redes socais. Um grupo de mulheres, entre elas, brasileiras, tratou de viralizar na internet. O movimento provocou uma onda de protestos em todo o país que obrigou o Egyptian Public Prosecution, o Ministério Público local, investigar e depois, prendê-lo. Na segunda feira, 31, pela página do Facebook, o EPP contou alguns detalhes da prisão. O médico tentou sair do país no domingo, 30, às pressas. Foi detido a caminho do aeroporto internacional do Cairo, onde pretendia embarcar de volta ao Brasil. Segundo o site egípcio NEGYPT, o incidente se transformou no Trending Topic do Twitter. Na mídia, ocupou espaços em noticiários de diversos canais de televisão do mundo árabe. Sorrentino está detido e terá que se apresentar a um juiz.

De acordo com a advogada brasileira que vive no Egito, Amanda Pimenta da Silva, mestre em Normas Internacionais de Direitos Humanos pela Universidade Americana do Cairo, o médico irá responder por crime de assédio sexual, previsto no artigo 306 do Código Penal. Segundo ela, o fato da vítima usar véu – e ela estava com ele no momento da gravação – dificulta a situação legal do acusado. “As muçulmanas, quando usam véu, demonstram que são religiosas, e, portanto, só respondem aos avanços sexuais de seus maridos. Para os islâmicos, desrespeitar uma mulher de véu é o mesmo que desrespeitar a Deus. É um grande pecado”. Caso seja condenado, Sorrentino permanecerá preso por, no mínimo, seis meses, e pagará multa no valor a partir de 3,000 libras egípcias – aproximadamente mil reais.

A brasileira Priscila Sanches (Foto: Reprodução)

Priscila Sanches, empresária brasileira casada com um egípcio que vive entre o Brasil e o Egito desde 2013, engrossava o rol dos quase 1 milhão de seguidores do influencer nas redes sociais. “Em 2017, na minha busca por informações sobre alimentação saudável passei a segui-lo”, diz ela. Sanches conta que no início ele dava “dicas interessantes”, mas logo percebeu que se tratava de uma pessoa bastante preconceituosa, inclusive em relação às questões simples, do cotidiano. Foi avisada por amigos que o brasileiro, desde o momento que desembarcou na cidade do Cairo, em 22 de maio, passou a falar mal do país. “Reclamou que o aeroporto era precário e que as ruas pareciam de um país em zona de guerra”. Depois, foi a vez do vídeo misógino. Ativistas brasileiros que vivem no Egito se encarregaram de espalhar em grupos e em poucas horas virou noticia nacional. “Compartilhei nas redes e ajudei a disseminar. Ele desrespeitou não apenas a jovem vendedora, mas as mulheres egípcias, a tradição e a cultura milenar de um povo”. Lembrou que se trata de um país não laico, que tem a religião muçulmana como parâmetro para elaboração de suas próprias leis. “Ele tinha que respeitar o solo onde pisava”.

No Egito, conta Sanches, já existem movimentos feministas em plena ebulição, assim como muitas tentativas de calá-los, afinal se trata de uma cultura paternalista e fechada. “Existe um conflito grande entre gerações, mas em tempos de redes sociais, é praticamente impossível ofuscar a luta dessas mulheres valentes que não permitem que a interpretação conveniente dos religiosos continue subjugando os direitos e a voz das mulheres”, diz ela. Ao contrário do Brasil, o feminicídio no país é um acontecimento raro. “Aqui a religião é muito forte. Antes de temer as leis, as pessoas temem a punição divina”. Outro fator determinante é a proibição da venda e consumo de bebidas alcoólicas, considerada impura pelos muçulmanos. “Em relação ao medo de estupro, me sinto muito mais segura no Egito do que no Brasil” afirmou.

Embora ainda seja um país de tradição machista, em relação a outras Nações árabes o Egito pode ser considerado moderno. Mulheres viajam sozinhas e trabalham em diversas atividades. Estão presentes nas Forças Armadas, inclusive ocupando altas patentes, na política, no jornalismo e, desde 1933, pilotam aviões. “Atualmente, o ministério da Saúde é comandado por uma mulher”, conta Sanches.

Enquanto isso, Victor Sorrentino aguarda em uma prisão egípcia até ser ouvido pela Justiça local. No Brasil, pelas redes sociais, o cirurgião se manifesta como defensor do uso de medicamentos como cloroquina e ivermectina, do tratamento precoce e se declara apoiador do presidente Jair Bolsonaro. 

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