Boate LGBT, trincheira contra a intolerância?

Sociedade

Em 1969, o movimento pelos direitos civis da comunidade LGBT ganhava força a partir de uma revolta no bar Stonewall Inn, em Nova York, nos Estados Unidos. No dia 28 de junho daquele ano, a resistência dos frequentadores contra mais uma ação da polícia provocou um levante popular e, desde então, a data marca o Dia Internacional do Orgulho LGBT, com a realização de paradas gays por todo o mundo.

Menos de 50 anos depois, a intolerância e o ódio motivam um ataque contra os frequentadores da boate gay Pulse, em Orlando, na Flórida. Em seu discurso após o massacre que deixou 49 mortos, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que a boate não era simplesmente uma casa noturna. “O lugar onde eles foram atacados é mais que uma casa noturna. É um ambiente de solidariedade e empoderamento, onde as pessoas se reúnem para aumentar a conscientização e defender seus direitos civis.”

Bares e boates gays são, tradicionalmente, lugares onde as pessoas se sentem seguras, espaços em que elas acreditam estar livres do preconceito e da discriminação cotidianos.

De acordo com Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade de Campinas, apesar de alguns avanços, a sociedade ainda precisa aprender a lidar com a diversidade e, nesse sentido, as boates são ícones de liberdade e resistência para a comunidade LGBT. “Se eles não podem, como todas as outras pessoas, expressar publicamente o seu afeto, nesses espaços eles têm a possibilidade de manifestar esse afeto sem nenhum constrangimento”, diz a pesquisadora.

Fernando Quaresma, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, concorda. “[As boates] são espaços onde as pessoas podem ser quem são, sem a necessidade de usar máscaras sociais”, diz.

No caso de Orlando, o caráter homofóbico do ataque ficou evidente a partir do depoimento do pai do assassino à imprensa local. Segundo ele, Omar Mateen ficava extremamente “irritado” ao ver dois homens se beijando. 

Para o psicólogo Tiago Corrêa, do Núcleo de Pesquisa em Gênero e Masculinidades da Universidade Federal de Pernambuco (Gema/UFPE), a importância de espaços LGBT está, principalmente, na “promoção da visibilidade”. “É justamente a partir das boates e de todos os ambientes de socialização LGBT que você cria populações não invisíveis”, diz. “Não fossem esses espaços nós estaríamos dispersos, sem visibilidade”, afirma.

Ao reconhecer a importância das boates também como um refúgio, o pesquisador lembra, porém, que nem todos têm acesso aos clubes. “A população LGBT das favelas e dos bairros periféricos muitas vezes não tem nenhum serviço, seja no âmbito privado ou no âmbito público, voltado a ela. Então essas pessoas acabam ficando à mercê da violência nas suas comunidades”, diz. “Enquanto esses direitos não forem garantidos por outras formas, não apenas em espaços segregados, esse tipo de violência vai continuar se perpetuando”, afirma Corrêa.

Para Regina Facchini, os avanços na luta por direitos têm se revelado insuficientes. “Temos um crescimento da aceitação e da tolerância, mas até hoje discutimos se essas pessoas podem ser reconhecidas como sujeitos de direito”, afirma. Segundo ela, parte do problema pode ser explicado pelo avanço da agenda conservadora.

“A questão que está em jogo é o crescimento do conservadorismo. Se pensarmos no contexto eleitoral dos EUA, temos um candidato que expressa esse tipo de sentimento”, diz, referindo-se a Donald Trump, provável candidato do Partido Republicano à Presidência dos EUA.

“Uma retórica política conservadora pode fazer com que as pessoas se sintam mais à vontade e referendadas para expressar esse tipo de sentimento que, no limite, resulta num completo desrespeito à vida do outro”, diz. “Do meu ponto de vista, é um alerta sobre até onde o conservadorismo pode nos levar”, conclui Facchini.

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