“Black Mirror” e o lado sombrio da Justiça

Sociedade

Por Pedro Henrique Guimarães

Não é de hoje que diversos atores sociais têm nos alertado para se abrir a caixa-preta do Judiciário. Parece que esse tempo já se foi. Nossa Justiça está hoje mais para uma caixa de Pandora, a fonte do caos. E um fator tem colaborado para construção deste cenário catastrófico: a tecnologia.

A instigante série da Netflix, Black Mirror, tem nos alertado para o lado sombrio da tecnologia. Longe de nos libertar das contigências humanas, a técnica tem nos condenado à superficialização da vida humana.

O episódio de massacre mídiático da semana passada do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho em muito se assemelham ao episódio “Urso Branco” da referida série. Nele, as pessoas tornaram-se mera espectadoras do mal, sendo incapazes de se solidarizar com o sofrimento humano. E, com celulares na mão, registram a dor alheia imbuídos da ideia de que o marginal, o corrupto não merece nenhum sopro de misericórdia.

Essa incapacidade de ter compaixão (já diz a terminologia: sofrer junto) já era uma alerta de Hannah Arendt com seu conceito de ‘banalidade do mal’. Mas parece que hoje, com toda essa tecnologia de exposição de imagens, o mal é mais que banal, é estruturante da vida social e judicial do País.

Outro fenômeno a este adjacente é a moralização dos procedimentos judiciais. As decisões judiciais e as peças do Ministério Público estão cada vez mais impregnadas de juízos de valor. Como que não mais bastasse ser inocente. É preciso ser bom.

Criando assim uma sociedade de ‘Barbies’, como nos alerta o episódio ‘Perdedor” de Black Mirror. E não é de se espantar: desde que as redes sociais se transformaram em “tribuinais do mundo” está cada vez mais difícil realizar o que Max Weber chama de “separação das esferas de valor”.

É preciso que nós juristas olhemos para o espelho de nosso tempo. Só assim podemos evitar que as nossas transparência projetadas – nos processos de cada dia – sejam apenas opacas, como black mirrors. Só espero, com um aprimoramento cada vez maior das tecnologia de provas, que não caímos em um Minority Report – onde o poder condena até mesmo os pensamentos.

* Pedro Henrique Guimarães é graduado em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mestre em História também pela UFG. Advogado e professor. Texto publicado originalmente no Justificando

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