Sociedade

Beco do Batman é pintado de preto em homenagem a NegoVila, morto por PM

Artista e skatista foi morto no sábado 28, no bairro da Vila Madalena, após ser alvejado por um policial que estava de folga

Amigos e familiares pedem justiça. Créditos: Iberê Périssé/Projeto Solos
Amigos e familiares pedem justiça. Créditos: Iberê Périssé/Projeto Solos

Desde o domingo 29, o Beco do Batman, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo (SP), perdeu o tradicional colorido de suas paredes. Os grafites deram lugar a um fundo preto sobre o qual se depositam frases que representam luto, saudade e pedido de justiça: “Todo nego é nego vila”, “Vila Madalena em luto, viva nego vila”, “Vidas Pretas importam”.

A intervenção no local se deu após o assassinato de Wellington Copido Benfati, conhecido como NegoVila Madalena, no sábado 28. O artista e skatista foi vítima de um tiro disparado por um policial em frente à distribuidora Royal Bebidas, localizada no bairro.

“O beco é tido como uma praia paulistana, todo final de semana reúne muitas pessoas que visitam o espaço e frequentam o comércio local. A analogia que eu faço é que o Sol saiu da praia porque uma vida deixou de existir. É um grito, um chamado, porque a vida vale mais”, relata o grafiteiro Boleta, amigo de NegoVila, e um dos atuantes na intervenção artística do beco.

Créditos: Iberê Périssé/Projeto Solos

NegoVila, 40 anos, deixou uma filha de 9. Créditos: Reprodução Facebook

A ação foi encabeçada por seis grafiteiros locais e contou com o apoio de toda a comunidade que se organizou para a compra de materiais. “A mobilização foi imediata”, conta. Ainda de acordo com Boleta, o beco se manterá fechado para qualquer tipo de intervenção artística até o ano que vem, como uma forma de homenagear a vítima.

Amigos e parentes de Nego Vila também vêm se articulando para outras ações no bairro, em tom de protesto. Estão previstas novas intervenções por ruas do bairro e um ato para o sábado 5, em que os participantes pretendem caminhar pelas ruas e finalizar o trajeto em frente ao estabelecimento comercial onde o crime ocorreu.

Entenda o caso

Nego Vila foi alvejado por volta das 4h30 do sábado 28 após tentar separar uma briga que ocorreu na distribuidora de bebidas e envolvia um de seus amigos e um policial de folga. O tiro foi disparado pelo sargento da PM Ernest Decco Granaro, 34 anos, que foi preso em flagrante por homicídio, segundo confirmação da Secretaria da Segurança Pública (SSP).

Amigos da vítima que prestaram depoimento à policia narram que, durante a confusão, ouviram um tiro para o alto, o que fez com que as pessoas saíssem correndo do local. Nesse tempo, um segundo disparo foi feito, momento em que viram NegoVila caído ao chão. Em entrevista à Ponte, a analista administrativa Luana Cruz de Campos, amiga da vítima que estava no local, disse que chegou a se jogar sobre NegoVila para que o policial não atirasse novamente. Ela alega ter visto o PM apontando a arma na direção do peito da vítima. A versão é corroborada por outras testemunhas.

PM Ernest Decco Granaro | Foto: Reprodução

Segundo o boletim de ocorrência, NegoVila chegou com vida ao Pronto Socorro da Lapa, mas morreu durante o atendimento médico.

O caso foi registrado como homicídio pelo 14º DP (Pinheiros), que apura os fatos. A Polícia Militar também instaurou um Inquérito Policial Militar. O PM Decco foi encaminhado ao presídio militar Romão Gomes, na zona norte da cidade. Decco é segundo sargento na 3º Companhia do 13º Batalhão da PM paulista.

O policial afirmou, em documento feito na delegacia, que foi agredido fisicamente e se defendeu. Também disse que atirou para o alto depois de ter sido cercado por pessoas que tentavam tirar sua arma. De acordo com a delegada Lethicia Faria Fadel, ouvida por reportagem da Ponte, o PM apresentava dificuldades para falar por estar com sinais de embriaguez.

“O sentimento que fica é de revolta. Esse policial deveria estar preparado para portar uma arma, ter condições psicológicas para isso. Ele não poderia ter cometido a covardia que fez. O nosso medo é que quando o assunto esfriar, ele saia pela porta da frente e volte a cometer esses atos”, diz Boleta, que ainda relembra do amigo de 18 anos. “Ele era uma pessoa alegre, divertida, da paz, não era de briga”.

Para o professor e morador da Vila Madalena, Ailton Santos, conhecido como “O Maresias”, a morte de NegoVila deve ser discutida a partir de alguns aspectos ainda estruturantes na sociedade, e que devem ser superados.

“Primeiro, esse episódio reflete a falta de condições públicas, representada pela polícia militar, de atender demandas de uma parcela específica da sociedade. Quando pedimos a desmilitarização da polícia não estamos falando do seu fim, mas da revisão dos métodos que a corporação utiliza contra quem enxerga como inimigos, os pretos, pobres e periféricos. Esse não é mais um caso isolado, vemos esses acontecimentos quase como uma regra, não como exceção. Queremos levar os direitos humanos para dentro das corporações, mas também que o Estado assuma a sua culpa”, atesta.

Santos, que também integra a rede de proteção contra o genocídio da população preta, pobre e periférica, entende que não só a cor da pele determinou a violência sofrida por NegoVila, e praticada cotidianamente contra a população negra. “Além de negro, ele era rapper, skatista, artista plástico, tinha a sua forma de se vestir, um conjunto de coisas que, provavelmente, despertou um olhar desconfiado por parte do policial. É como se essas características definissem seus valores”, observa, ao também considerar a questão territorial.

“Quando os negros começam a circular por territórios comumente ocupados por brancos, são imediatamente associados a suspeitos. Sou morador da Vila Madalena há 25 anos e quando sou abordado, sempre ouço: ‘O que você está fazendo aqui?’ em um recado claro que esse não é o meu lugar”, critica “O Maresias”, amigo de NegoVila há quatro anos.

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