Sociedade
Aprendizes de macho
Uma imersão no curso de Juliano Cazarré, que reuniu cerca de 600 participantes em busca de uma “pedagogia da masculinidade”
“Não existem ritos de passagem femininos. O rito da mulher é biológico.” Essa é a primeira frase que escuto ao entrar, atrasado, no auditório lotado do Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro, em Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo. Busco alguma reação na plateia e não encontro nenhuma. Das quase 600 cadeiras, poucas estão vazias, e a esmagadora maioria é ocupada por homens.
Muitos escrevem em cadernos, outros gravam vídeos. A frase, dita pelo ator Juliano Cazarré na abertura do curso O Farol e a Forja, idealizado por ele, soa, no mínimo, controversa. Na plateia, é recebida, porém, com espantosa naturalidade. Ao longo dos três dias, eu entenderia por quê. Ela condensava uma visão de mundo que reapareceria sob diferentes formas no encontro: uma espécie de “pedagogia da masculinidade”, com gramática filosófica, religiosa e política própria.
Na plateia, homens entre 30 e 60 anos, barba aparada, camisa polo ou blazer sobre moletom – quase um dress code particular. No palco, Cazarré mediava uma conversa sobre liderança ao lado do empresário Gabriel Kanner e do roteirista Newton Cannito. O cenário parecia montado para um épico. Tons de âmbar e laranja simulavam um pôr do sol permanente. No telão, rostos ampliados ocupavam quase toda a parede, enquanto um farol rompia a névoa ao fundo. Em letras garrafais, a inscrição: “Liderança Masculina Moderna”. No conjunto, uma cenografia pensada para anunciar uma promessa de transformação.
“Se aparecer alguém fazendo o ‘L’, a gente corta os dedos dele”, diz um aluno à mãe, antes de tranquilizá-la: “Aqui não tem nenhum radical, não”
Kanner é apresentado como fundador de um projeto de “formação humana em filosofia”. O currículo oficial omite que ele também preside o Instituto Brasil 200, grupo que apoiou a eleição de Bolsonaro em 2018. Cannito, ex-secretário do Audiovisual no segundo governo Lula, hoje é crítico daquilo que chama de “cultura woke”, expressão que se tornou uma das preferidas dos conservadores para se referir a pautas ligadas à diversidade e às políticas identitárias.
A conversa deriva para a jornada do herói. Cazarré compara a própria trajetória à dos protagonistas de mitos clássicos, fala das “porradas” que levou ao criar um curso para homens, alvo de críticas na mídia, nas redes sociais e entre colegas. Depois, justifica-se: “Homens precisam ser forjados por outros homens”.
“Um homem bom não é um homem inofensivo”, espeta Kanner, citando o polêmico psicólogo canadense Jordan Peterson. Uma síntese, segundo ele, de um princípio da filosofia clássica. As referências se acumulam sem cerimônia: Santo Agostinho e Peterson, Cristo e a jornada do herói. Em poucos minutos, a conversa salta da filosofia clássica para o pecado original, do jiu-jítsu à missão espiritual do Brasil. Antes de sair de cena, defende que o Brasil conservador está destinado a se tornar “o farol da humanidade”.
“Homens devem ser forjados por outros homens”, prega o ator
Por falar em luta, Cazarré mediou uma conversa entre o cientista político Bruno Garschagen e o ex-lutador Rodrigo Minotauro. “Se a igreja entrar no judô, acabou”, diz um dos maiores nomes da história do MMA sobre a evangelização de lutadores. Mas logo troca o octógono pelo agronegócio, relembrando o sobrevoo de pivôs de irrigação no oeste da Bahia: “Parecia um disco voador gigante”.
Garschagen puxa o fio político. “Os brasileiros foram treinados a odiar o Brasil desde cedo”, diz. Reclama da “classe política que hoje detém o poder”, mas evita citar nominalmente o governo para, segundo ele, “não estragar o evento”.
Pausa para o almoço. Cazarré agradece aos patrocinadores, entre eles a editora Quadrante, ligada à Universidade de Navarra, fundada pelo Opus Dei, referência acadêmica do catolicismo conservador. Fala das camisetas oficiais, do pão de queijo de um apoiador. “Ajudem essa família de fé.”
Os intervalos eram um espetáculo à parte. A reportagem acompanhou os três dias sem se identificar como imprensa, o que permitiu observar de perto conversas que provavelmente não aconteceriam na presença de um jornalista. No restaurante, por exemplo, ao meu lado, um homem de uns 50 anos conversava por vídeo com a mãe: “Estou naquele curso do Cazarré, só para homens. Se aparecer alguém fazendo um ‘L’, a gente corta os dedos dele”. Do outro lado, ela reage: “Acho esse pessoal meio radical, filho”. Ele rebate: “Aqui não tem radical, não”.
Fé. “A mulher foi criada para o homem”, afirma o padre José Eduardo. “Tá na Bíblia, gente.” A declaração não causa assombro à plateia, composta majoritariamente por homens que dizem ter sido enviados para lá pelas esposas – Imagem: Carlos Minuano
“Se eu perguntar para alguém o que é um quadrado e respondem que é um círculo, está errado. Então por que a esquerda quer que eu chame de mulher alguém que tem uma giroba no meio das pernas?”, prossegue. Minutos depois, no auditório, argumentos semelhantes aparecem organizados em forma de palestra.
“O enfraquecimento do homem é um projeto.” A frase, repetida como um mantra ao longo de quase uma hora, funciona como eixo da palestra de Bárbara Mendes. Figura polêmica nas redes sociais, ela costura religião, política, comportamento e economia em uma mesma narrativa de crise.
Babi Mendes, como é mais conhecida, ataca o que chama de uma engenharia deliberada para desconstruir a masculinidade desde a infância. Escolas e as universidades federais são apontadas como espaços de formação ideológica. “A primeira coisa que nos instala na realidade é sabermos o que somos”, afirma, antes de rejeitar a ideia de gênero como construção social. “Se eu não sei o que eu sou, então eu sou qualquer coisa.”
“Quando Deus sai da sua casa, quem entra? O Estado”, completa Mendes, antes de fazer uma convocação. “Homens devem voltar ao papel de provedores e protetores.” Para as mulheres, sugere que abandonem a promessa de autonomia vendida pelo feminismo. Sob aplausos, Bárbara anuncia, então, que será candidata a deputada federal por São Paulo. Resume sua plataforma em uma frase: defender “o homem no lugar do homem, a mulher no lugar da mulher e a criança protegida desde a concepção”.
“Um homem com bom nível de testosterona é a maior pedra no sapato da agenda malthusiana”, diz o médico Alessandro Loiola
Entre uma palestra e outra, Cazarré volta ao palco e pergunta aos homens da plateia quem está lá porque as esposas pediram. A imensa maioria levanta a mão. Vale dizer que os ingressos não tinham preços populares: quem comprou o pacote básico, que dava direito a assistir às palestras, pagou quase 1,8 mil reais. No completão, com “experiências de networking” (jantar, pizza, uísque, vinho, charutos, música e churrasco), o valor passava dos 5,7 mil.
No sábado, a masculinidade ganha componentes biológicos e políticos. O médico Alessandro Loiola, mais conhecido como palestrante bolsonarista do que por sua atuação clínica, conduz a plateia como um professor de cursinho e, entre piadas e palavrões, afirma que todo homem adulto deveria manter a testosterona acima de 600 ng/dL. “Um homem com bons níveis de testosterona é a maior pedra no sapato da agenda malthusiana”, recomenda, ao comentar uma suposta conspiração global para reduzir a população por meio da desestruturação da família.
Cazarré completa o raciocínio associando o hormônio à “agenda woke”. Meninas com traços ‘mais machinhos’, segundo ele, seriam convencidas de que nasceram no corpo errado. E ao iniciarem tratamento hormonal, a sensação de maior segurança e disposição produzida pela testosterona confirmaria essa crença.
Em seguida, o pastor Anderson Silva, que já liderou um movimento chamado “Machonaria”, e o padre José Eduardo discutem fé e masculinidade. O padre sustenta que homens e mulheres têm papéis distintos definidos por Deus e que a mulher deve viver submissa. Depois, traduz: “sob a mesma missão” do marido. “A mulher foi criada para o homem”, diz. “Tá na Bíblia, gente.”
Concorrência. Os palestrantes se pavonearam mais que a ave – Imagem: Carlos Minuano
Para quem achava que tinha visto tudo, o domingo guardava surpresas, como a palestra do coach motivacional e espiritualizado Wendell Carvalho, que começa numa conversa sobre alta performance e desemboca numa meditação guiada estranha. Com uma trilha cafona ao fundo e uma locução estilo rádio AM, ele conduz o auditório a imaginar o próprio velório, para depois renascer como homens novos: conservadores, armamentistas, tementes a Deus.
No mesmo fim de semana em que centenas de homens se deixavam forjar em novos homens de fé num auditório em Santo Amaro, a poucos quilômetros dali, o PL oficializava Flávio Bolsonaro candidato à Presidência, num palco que reuniu Javier Milei, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes. Dois palcos, duas liturgias, o mesmo projeto de País.
Depois de três dias ouvindo como um homem deve pensar, rezar, votar, criar os filhos e regular a própria testosterona, o curso de Cazarré parece cumprir o que promete: ser, ao mesmo tempo, farol e forja. O destino dessa jornada, aponta mais para trás do que para frente: religioso, hierárquico, armado, avesso à empatia e pouco tolerante com o diferente. Causa espanto ver tantos homens embarcando voluntariamente nessa viagem.
Para encerrar, uma dinâmica em duplas: um participante filma o outro, que declara diante da câmera sua “ressurreição” como novo homem. O exercício termina em catarse coletiva, com abraços e lágrimas. Sim, ao contrário do que se poderia imaginar depois de três dias falando de virilidade, chorar ainda parece estar liberado. •
Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Aprendizes de macho’
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