…

Após agressões de brasileiros, 1.200 venezuelanos deixam Roraima

Sociedade

Um grupos de brasileiros armados com pedras, paus e bombas caseiras atacaram neste sábado, 18, venezuelanos que estavam acampados na cidade de Pacaraima, em Roraima, na fronteira com o país vizinho. Tendas dos imigrantes que haviam sido montadas pela cidade foram queimadas. Após o conflito, cerca de 1.200 venezuelanos deixaram a cidade, de acordo com informações do Exército.

Segundo a Força-Tarefa Logística Humanitária para Roraima – composta pelas Forças Armadas e integrada por organismos internacionais, organizações não governamentais e entidades civis –, o conflito começou após um protesto organizado por moradores da cidade motivados por um roubo a um comerciante.

O comando da Operação Acolhida, uma força-tarefa logística e humanitária para tratar da crise migratória na região, informou ainda que, durante o conflito, o posto de controle entre a Venezuelana e Brasil chegou a ser fechado.

Neste domingo 19, a situação era mais tranquila na cidade. O posto de identificação e recepção da Polícia Federal na fronteira funciona normalmente.

Medidas

A escalada de violência na região foi tema de uma reunião convocada neste domingo pelo presidente Michel Temer no Palácio da Alvorada.

Após o encontro, o governo anunciou medidas para conter a violência em Roraima e lidar com os milhares de imigrantes venezuelanos que regularmente chegam ao Estado fugindo da crise no país vizinho.

Segundo nota da Presidência, será enviado para a região um reforço de 120 homens da Força Nacional, além de 36 voluntários da área da saúde para atendimento aos imigrantes venezuelanos.

O governo também afirmou que vai trabalhar para enviar os venezuelanos para outros Estados, além de estabelecer um “abrigo de transição” entre Boa Vista e Pacaraima, “de forma a reduzir o número de pessoas nas ruas”. Ou seja,  um abrigo fora da cidade.

A nota diz ainda que o governo continua em condições de empregar as Forças Armadas para a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em Roraima. Por força de lei, tal iniciativa depende da solicitação expressa da governadora do estado.

Venezuela reage

O conflito no sábado chegou a provocar uma manifestação do governo venezuelano, que pediu que as autoridades brasileiras protegessem seus cidadãos.

De acordo com a chancelaria venezuelana, foram solicitadas ao Ministério de Relações Exteriores do Brasil “garantias correspondentes aos nacionais venezuelanos e medidas de resguardo e segurança de seus familiares”.

O governo da Venezuela expressou ainda “preocupação pelas informações que confirmam ataques a imigrantes venezuelanos, bem como desalojamentos massivos de nossos compatriotas, acontecimento que viola normas do direito internacional, além de vulnerar seus direitos humanos”.

Caracas também criticou o que chamou de “violência alimentada por uma perigosa matriz de opinião xenófoba, multiplicada por governos e meios a serviço dos inconfessáveis objetivos do imperialismo”.

Violência

O conflito começou na tarde de sábado com um protesto em frente ao Comando Especial de Fronteira do Exército em Pacaraima. A manifestação havia sido convocada após um comerciante ter sido assaltado e agredido por quatro venezuelanos. A população também ficou irritada com a falta de uma ambulância para socorrer o comerciante, que foi atendido no hospital da cidade. Ele foi posteriormente transferido para Boa Vista e seu estado de saúde é estável.

“O fato gerou um descontentamento de alguns moradores de Pacaraima e, na manhã deste sábado, 18 de agosto, ocorreu uma manifestação com atos de violência e destruição de acampamentos de imigrantes situados em alguns locais públicos”, informou o comando da Operação Acolhida.

Após a manifestação se dispersar, grupos de brasileiros passaram a atacar venezuelanos nas ruas.

Uma tenda usada por imigrantes chegou a ser derrubada com um trator. Outras foram queimadas, Um grupo de brasileiros chegou a atirar pedras em venezuelanos que tentavam cruzar a divisa. Membros da guarda venezuelana acabaram disparando tiros de advertência para afastar os brasileiros. Em resposta, venezuelanos passaram a vandalizar carros de brasileiros na fronteira.

Em um vídeo divulgado no Twitter, um brasileiro que participou da queima de tenda disse “estamos expulsando os venezuelanos”. “Agora é desse jeito. Se não tem governante, se não tem autoridade por nós, nós que vamos fazer nossa autoridade. Fora venezuelanos!”

Com a grave crise política e econômica que atinge a Venezuela, centenas de milhares de pessoas têm deixado o país, a maior parte com destino à Colômbia e ao Equador. Entre 2017 e 2018, mais de 120 mil venezuelanos entraram em Roraima. Mais da metade deles já deixou o Brasil. Em julho, o governo brasileiro informou que quatro mil venezuelanos permaneciam em abrigos em Roraima.

DW_logo

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem