Sociedade

A ONG Amigos do Bem transita do assistencialismo à inclusão econômica

Mais de 75 mil nordestinos são atendidos todos os meses pela instituição

Passo a passo. A ONG, fundada por Albanesi (abaixo), percorreu um caminho de aprendizado. A produção de castanha é parte dessa evolução - Imagem: Chico Audi/ADB e Renato Stockler/ADB
Passo a passo. A ONG, fundada por Albanesi (abaixo), percorreu um caminho de aprendizado. A produção de castanha é parte dessa evolução - Imagem: Chico Audi/ADB e Renato Stockler/ADB
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Há quase três décadas, um grupo de amigos liderado pela empresária Alcione Albanesi deixava o conforto de suas casas e percorria milhares de quilômetros de São Paulo até o sertão nordestino para levar doações de alimentos, roupas e brinquedos aos moradores do Semiárido, região de extrema pobreza castigada pela seca. O que parecia ser apenas uma ação de caridade foi o embrião para o que mais tarde se tornaria uma das maiores ONGs do País, a Amigos do Bem, hoje concentrada em quatro frentes e focada em 12 dos 17 objetivos sociais defendidos pela ONU. Em um cenário de desolação e longo período de estiagem, associado à fome e ao desemprego, o projeto fez, e ainda faz, toda a diferença para os moradores dos 11 municípios e 140 povoados assistidos pela entidade, fincados nos grotões de Alagoas, Pernambuco e Ceará. Mais de 75 mil nordestinos são atendidos todos os meses pela instituição, que tem como um dos ­carros-chefes a produção industrial de castanhas, que gera 1,4 mil empregos na região.

“Começamos reunindo 20 amigos com vontade de ajudar. Depois da nossa primeira viagem, algo mudou em mim. Foi uma indignação muito grande e indignação tem de vir com ação. Fomos de ano em ano, de viagem em viagem, ampliando as nossas campanhas, levando mais e mais alimentos. Íamos para os povoados no perío­do de Natal e ano-novo, de caminhão, em estradas de terra. As pessoas não sabiam em que época nem em que ano estavam, nem o que estava acontecendo no mundo. As coisas foram evoluindo, conseguimos mapear o Nordeste, o sertão, e falamos: ‘Já conhecemos muitas pessoas, agora vamos transformar a vida delas. E construímos a nossa primeira cidade do bem, tirando as pessoas das casas de taipa”, relembra Albanesi, acrescentando que esses primeiros passos ainda eram insuficientes para mudar a vida dos beneficiados.

Inquieta com as dificuldades enfrentadas pelos nordestinos vítimas da seca, a empresária refletia: “Vamos tirar as famílias das casas de taipa, construir de alvenaria, mas a miséria será a mesma. Terão maior conforto, mas o ciclo de miséria não se rompe”. Como alternativa, passou a atuar em projetos voltados para a educação. Novas perguntas surgiram: “E o passo seguinte? Os jovens, os pais, como vamos mudar esse estado de fome, de necessidade enorme?” Albanesi chegou à conclusão de que o único caminho para tirar a população da extrema pobreza era oferecer trabalho para a geração de renda e alfabetização dos adultos. Era o embrião para as fábricas de doces de leite e caju. Para não descartar as castanhas que sobravam do doce de caju, veio a ideia de comercializar o produto também.

“Indignação tem de vir juntamente com ação”, diz a empresária Alcione Albanesi

Hoje, são mais de 6 mil metros quadrados de instalação das duas fábricas de castanhas, uma no município de Buíque, em Pernambuco, e a outra em Mauriti, no Ceará. Os produtos são comercializados pelas grandes redes de supermercado e todo o valor arrecadado é revertido para a instituição, que reinveste em outros projetos sociais. “Conheci a Amigos do Bem ainda criança. Cresci no projeto e, muitas vezes, tive de escolher entre tomar banho ou deixar aquela água para beber. É impossível não se emocionar, não olhar para o passado e ver o quanto eles transformaram as nossas vidas. Cada feirinha que era entregue nos nossos lares chegava com a esperança de que dias melhores viriam e, apesar daquele cenário de tristeza, de dor e de pobreza, ainda existiam pessoas que se importavam com a nossa classe social e acreditavam na gente e nos deram oportunidade de crescer. As nossas crianças têm direito à educação, os jovens têm direito a uma formação e podem cursar uma faculdade, os pais e as mães de família podem trabalhar e dar uma vida digna para seus filhos”, emociona-se Adriana Cavalcante, 27 anos, gestora da fábrica de castanhas de Buíque.

Uma ação puxa a outra. Como a demanda por castanha aumenta a cada dia, a Amigos do Bem passou a investir no plantio de caju, sempre no esforço de incluir a população local. O projeto distribuiu mais de 100 mil mudas da fruta aos agricultores da região e a expectativa é de que, daqui a mais um ou dois anos, as fábricas sejam supridas exclusivamente com a plantação local, beneficiando não somente quem trabalha nelas, mas o agricultor em geral. Ainda na área de geração de emprego e renda, os beneficiados produzem pimenta e aprendem um ofício. Mais de 300 mulheres participam das oficinas de costura, cujo principal produto são as sacolas de patchwork e aquelas reutilizáveis, estas em parceria com o cartunista Mauricio de Sousa, que cedeu as imagens da Turma da Mônica para estampar as peças. “Quando começamos, era somente assistência social, levando alimentos, roupas, remédios, brinquedos e botando as crianças na escola. Mas como é que você transforma e muda uma realidade e rompe um ciclo de miséria se não for por meio do trabalho?”, pergunta Albanesi, criticando o clichê de que “não se pode apenas dar o peixe, tem de ensinar a pescar”. “Em rio seco não se pesca. Temos de gerar as condições. Não adianta falar ‘ensine a pescar’. Antes, você tem de ver se no rio tem água. Estamos colocando água no rio e ensinando a pescar para eles serem livres também. Ninguém gosta quando se fala em doar, eles querem mesmo é ter dinheiro para comprar. As pessoas, para sair da miséria extrema, precisam de oportunidades, de trabalho e renda. Trabalho é dignidade.”

Abrigo. Os projetos da Amigos do Bem incluem a construção de casas de alvenaria no sertão – Imagem: Acervo ADB

Jilvane de França, 40 anos, lembra com tristeza como era a vida antes da chegada da ONG. Hoje, ela é responsável por uma das oficinas de costura no povoado Torrões, em Alagoas. “A gente sofria com a falta de alimento, de água, tinha dia que não havia nem o que beber, a gente ia para os barreiros esperar minar água. Na maioria das vezes, como essa água era salgada, nem prestava para beber, mas não tinha outra e a gente se acostumava a viver naquela vida”, diz. E completa: “Com a chegada da Amigos do Bem, veio a alegria, o sentimento, a esperança de uma vida melhor. Não trouxeram apenas alimento, mas também o amor, o abraço e a transformação. Quando ninguém conhecia o que era o abraço, eles nos ensinaram a abraçarmos uns aos outros. Hoje, sou grata a eles por ter voltado a estudar, tive oportunidade de fazer uma faculdade”.

Jilvane é um exemplo entre milhares que receberam assistência da Amigos do Bem na área da educação. A instituição mantém escolas, oferece cursos profissionalizantes, alfabetização de adultos e bolsas de estudos em faculdades, e ainda promove capacitação de educadores e palestras socioeducativas. Todos que trabalham nas unidades produtivas passam uma hora por dia se alfabetizando. “O analfabeto não é livre. Geramos o trabalho, mas quebramos um ciclo de miséria também com a educação. Tivemos de ensinar tudo, eles não conheciam nada, a não ser uma enxada”, salienta a fundadora da ONG, que, em 2014, se desfez da empresa FLC, líder do segmento de lâmpadas LED, para se dedicar exclusivamente ao projeto. Albanesi passa de dez a 14 dias por mês no sertão nordestino. “É uma renúncia grande. A gente deixa os filhos para ajudar outras pessoas. Mesmo sabendo que o tempo com a família e com o lazer poderia ser outro, a gente abre mão. Não dá para olhar só para a nossa vida.”

“Tinha dia que não havia nem o que beber”, recorda Jilvane de França

Desde muito pequena, Bruna Melo entrou nos projetos oferecidos pela ONG. Hoje, aos 27 anos, relembra a vida difícil que dividia com outros seis irmãos e diz que a chegada da Amigos do Bem em Torrões representou um marco na sua vida. “O primeiro abraço que recebi foi quando tinha 7 anos de idade e foi da Amigos do Bem. Eles deram sentido à minha vida e à de vários vizinhos. Se a entidade não tivesse chegado, talvez eu não estivesse aqui, possivelmente teria morrido de fome ou de sede.”

Além de atuar na geração de emprego, renda e na educação, a ONG também opera nas áreas de saúde e infraestrutura. Oferece atendimento médico e odontológico e tem um programa de distribuição de medicamentos e óculos. O abastecimento de água e a questão de moradia são outras preocupações. As casas de taipa têm sido gradativamente substituídas por moradias de alvenaria, vários poços são perfurados, cisternas construídas e a água também chega em caminhões-pipa, sendo distribuída aos moradores. “O projeto me dá a oportunidade não apenas de pensar no bem, mas efetivar ações concretas que são capazes de transformar a vida de tantas pessoas. Isso gera uma memória, enriquecendo a minha própria vida”, resume o paulista João Antiqueira, há 27 anos voluntário da Amigos do Bem. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1202 DE CARTACAPITAL, EM 6 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Prover, apoiar, empreender”

Fabíola Mendonça
Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco

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