Sociedade

A história de Desirée, cujo pior crime foi ser usuária de crack

Por que o Ministério Público quer uma mulher vista como exemplo de recuperação de volta à cadeia?

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Desirée Mendes escapou da Cracolândia de São Paulo.

Não foi salva por internação compulsória como sonha o novo prefeito. Menos ainda por ação policial com brutalidade de território em conflito armado. Nas últimas semanas, a Cracolândia vive em chamas – gente perseguida e presa, hotéis queimados. Desirée não estava mais pelo chão da rua do crack quando recebeu a notícia que a prisão lhe espera.

Depois de viver 16 anos na Cracolândia, passou por centros de internação e presídios. Hoje, seria descrita como “empresária” com biografia de “superação” – faz palestras e é tema de jornal. Confeiteira, paga as contas e cuida do filho nascido na cadeia. Não houve milagre, mas persistência.

Mas o Ministério Público Federal quer Desirée de volta à cadeia.

No último processo judicial foi flagrada com as misérias de uma usuária de crack – uns trocados e umas pedras.

Não sei o que é regeneração, ressocialização ou superação. Todas me parecem palavras vazias diante da estória de Desirée: aqui está uma mulher que quer fazer do crack tempo passado, mas a justiça insiste em mantê-la presa à miséria da pedra. O último flagrante de 30,6 gramas de pedra foi considerado tráfico.

Nunca usei pedra nem fui presa. Mas já passei bons tempos na cadeia e na Cracolândia. Na sexta-feira, dia 19 de maio, lanço o documentário Hotel Laide, na Defensoria Pública de São Paulo. O hotel não mais existe, virou cinzas do conflito que assola a Cracolândia. Desirée é uma sobrevivente de um campo de refugiados e de instituições totalitárias: a rua do crack, o presídio e o hospício. Um percurso parecido ao de Angélica, uma das personagens do filme.

A justiça não quer que Desirée seja recebida na vida comum.

Insiste em devolvê-la para a margem do inferno. Sua estória bonita é de resistência, mas também de injustiça. Ao mesmo tempo que acompanhamos gente graúda sendo investigada, esquecemos mulheres como Desirée. Ela é temida, só não sabe pelo quê: não roubou milhões, não matou multidões.

Parece que seu pior crime foi ser uma usuária de crack.

CartaCapital
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