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A guerra nas famílias durante as eleições

Sociedade

“Estou avaliando o que é melhor fazer neste momento, mas considero sair do País. Estou muito preocupada com a escalada de violência”. A mineira Tassia*, 32 anos, está correta ao diagnosticar, a partir do quadro de intolerância nas eleições deste ano, que, independentemente dos resultados nas urnas, a democracia no Brasil vai mal.

Ainda no primeiro turno ela sofreu uma agressão resultado de uma conversa sobre política. Não foi na rua ou em um bar. Foi em casa e a ofensiva veio do próprio pai.

Tassia decidiu pedir uma pizza numa quinta-feira à noite, e quis perguntar à mãe – que ouvia o rádio – se ela gostaria de escolher o sabor. No rádio, um ex-jornalista da TV Cultura fazia críticas a uma matéria da revista internacional The Economist, que colocou o candidato Jair Bolsonaro (PSL) como uma ameaça ao Brasil.

Tassia ouviu o comentário e reprovou. À mãe, perguntou se talvez o jornalista não se lembrasse do que aconteceu com o também jornalista da TV Cultura, Vladimir Herzog, morto pela ditadura militar. A mãe se incomodou com o comentário da filha.

Ao entrar no assunto das cotas sociais e raciais nas universidades, que ganharam forças nos governos petistas, a discussão ficou acalorada de ambos os lados, segundo Tassia. A mãe disse que ela só estava entrando neste assunto porque sabia de sua posição contrária às cotas.

Thassia prosseguiu. Ex-aluna da Universidade de Brasília (UnB), a moça alegou que não teve acesso à universidade pela política afirmativa, mas que o convívio com estudantes negros e de outras classes sociais foi fundamental para ampliar sua visão de mundo. Nesse momento chega o pai.

“Quando meu pai chega em casa tudo que está sendo feito tem de parar para que ele possa falar e receber atenção de todos. Ele quis interromper, chamar a discussão pra ele, e eu não permiti. Pedi para que ele respeitasse o nosso espaço. Depois disso só me lembro de dizer que se ele tocasse em mim novamente eu faria uma denúncia. No dia seguinte eu vi hematoma enorme no meu braço. Não é a primeira vez que eu apago da memória um episódio de violência doméstica. Quando vi o hematoma e me lembrei da discussão, questionei minha mãe, que desqualificou a agressão. Disse que não tinha sido nada e que eu devia tomar remédios.”

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Movido pela discussão política, o desrespeito – neste caso elevado à brutalidade – vivido por Tassia não é um caso isolado, mas faz parte de histórias recorrentes de brigas na família contadas nas rodas dos amigos e nos consultórios de análise.

Em boa medida, essas histórias fazem parte de um conflito geracional que questiona tradições e poderes estabelecidos, e traz à tona o caráter belicoso da popular família tradicional brasileira.

Tassia é de uma família de classe média alta, e conta com o apoio financeiro dos pais. A história dela se encaixa no que o psicanalista Cristhian Dunker, da Universidade de São Paulo (USP), identifica como uma reação à instabilidade do poder e da autoridade dentro de casa.

“No consultório notamos essas brigas desde junho de 2013, quando os jovens começaram a externalizar no espaço público uma identidade, um pensamento. Aquela pessoa tida como dócil pelos pais, os tios, os avós, de repente, surpreende com outras ideias.”

Propriedade 

As discussões entre Ana, 30 anos, e sua mãe começaram em 2016, época do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e centravam-se no ambiente ainda saudável da discordância. De lá pra cá Ana sentiu que a mãe subia o tom cada vez mais. Nestas eleições, o estopim foi quando a palavra democracia entrou na conversa.

“Quando falei em defender a democracia ela começou a me chamar de nazista, e me mandou um áudio de dez minutos me desmoralizando. Disse que eu era metida a intelectual, mas que nem terminado a universidade eu tinha. Depois me bloqueou no WhatsApp e no Facebook, e só me desbloqueava para mandar fake news”, conta Ana.

Ana acredita que o comportamento arbitrário da mãe se acentuou à medida em que ela passou a usar mais as redes sociais, e também depois que passou a frequentar igrejas evangélicas de correntes diversas. “Eu sempre fui a queridinha dela, então eu percebo que ela sente uma raiva enorme por eu não pensar como ela”, acrescente a moça.

Para o psicanalista, o segundo capítulo desse conflito geracional observado nos consultórios é justamente os discursos feitos no processo do impeachment de Dima. Dunker lembra que boa parte dos deputados a favor de deposição da então presidente, ao votar, faziam referências à família.

“Aquilo já era uma reação a 2013 e irrompe com o mesmo sentido do Escola Sem Partido, que é de que os filhos fazem parte da propriedade privada da família e a família deve criar a prerrogativa da educação política deles. É uma tomada de consciência de que os filhos estão sendo expostos a valores que não são os deles, e que isso é errado. Agora chegamos na fase do cala a boca. Dos parentes dizendo que não vão admitir mais aquilo que até pouco tempo era tolerado”, afirma Dunker.

Tradição

Romper com a tradição familiar é um dos fatores que ajudam a explicar a briga do publicitário Marcelo Ribeiro, de 30 anos, com seus parentes. Marcelo é paranaense e mora há dez anos em São Paulo. Ele é o único que não trabalha no comércio da família, que inclui pais, irmão, tios, tias, primos e primas.

A discussão começou no grupo dos Ribeiros no WhatsApp entre ser contra ou a favor de um ou de outro candidato, e se esgotou na queixa dos tios de que Marcelo teria abandonado a família.

“Eu perguntava o que o candidato dele defendia para a educação e saúde, que era o que mais ouvia ele reclamar, e ele só falava que o Lula era ladrão. Eles me xingaram muito e depois saíram do grupo. Minha avó me ligou chorando; conversamos e acho que ela me entendeu. Mas meu tio continuou me mandando mensagens dizendo que eu estava destruindo a família. Eles reclamam que as coisas na loja pioraram, e agora culpam o governos do PT e a mim por isso.”

Na família de Marcelo a briga levou ao desgosto, e o desgosto cancelou a clássica ceia de Natal. Marcelo faz aniversário do dia 25 de dezembro, e todos os anos, desde sua infância, a comemoração é feita com todos no dia de Natal. Esse ano vai ficar em São Paulo. Talvez os pais e o irmão venham. “Estou muito triste. Sempre gostei muito dos meus tios, mas agora não sinto vontade de estar com eles.”

O tempo 

O psicanalista explica que por um período as brincadeiras, os memes, não eram considerados um ato político, e não afetava as relações, mas a atitude dos jovens que se alinham com a esquerda, sim.

“Esses jovens deixaram de ser encarados como revolucionários para serem associados a corruptos, e isso é muito ofensivo para as famílias. A ação política se moralizou a esse ponto na guerra dos familiares.”

Dunker explica que os laços parentais são os recursos naturais contra o sofrimento, e que o desrespeito está privando as pessoas da escuta, do diálogo e do carinho.

“A vitória está representando uma humilhação para os derrotados, que começa com esse “cala boca” e com “você é corrupto”. Essa humilhação precisa ser tratada, o que passa pelo ressentimento e pelo luto. O tempo facilmente vai trazer à tona a verdade sobre a desonestidade discursiva. A partir daí depende da capacidade de cada um de pedir desculpas e de perdoar”, explica o psicanalista.

*Os nomes dos entrevistados foram modificados para preservá-los

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Repórter do site CartaCapital.com.br

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