Sociedade

Guerra às drogas

A comunidade e a Justiça reagem à ação de Doria na Cracolândia

por Victória Damasceno publicado 25/05/2017 09h44
Moradores e comerciantes fazem protesto. Após três feridos em uma obra, Justiça proíbe a Prefeitura de fazer remoções compulsórias e demolições
Fotos: Victória Damasceno
Morador

Morador pedia, entre outras coisas, pela saída de Michel Temer da Presidência e de João Dória da Prefeitura

Um protesto de moradores e comerciantes da região da Cracolândia marcou a manhã de quarta-feira 24 no centro de São Paulo. A manifestação teve o objetivo de protestar contra o projeto do prefeito João Doria (PSDB), que obriga moradores e comerciantes do local a deixarem seus imóveis.

A megaoperação na Cracolândia começou na manhã de domingo 21 e contou com o uso de forças da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana. As ruas onde ficavam os usuários de drogas foram desocupadas, mantendo apenas os moradores e comerciantes na região. No dia seguinte, após termos de interdição serem entregues pela Prefeitura, os comércios foram fechados e lacrados, enquanto os moradores desocupam aos poucos seus imóveis.

Bares
Os comércios começaram a ser desocupados na segunda-feira, e no dia seguinte já estavam vedados

A falta de diálogo com a comunidade local gerou revolta contra a ação, o que resultou na mobilização. O destino do protesto foi o prédio a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, onde também está localizado o Comando Geral da Guarda Civil Metropolitana.

Para a médica Kátia Silva, que fez parte do programa De Braços Abertos trabalhando em uma das tendas da prefeitura, o agravamento da crise na Cracolândia se deu após a decisão da gestão de João Doria de tirar a GCM dos espaços de convivência do programa.

“Os guardas que trabalhavam dentro das tendas ajudavam os usuários e impediam que os traficantes entrassem nos locais do programa”, conta Kátia.Para ela, a decisão fez com que os traficantes se sentissem à vontade para retomar o tráfico nas áreas que antes estavam controladas. A médica conta que saiu do programa porque não conseguiu suportar a pressão do local.

“Com a entrada dos traficantes nas tendas, a saída da guarda, tiraram até o nosso telefone para ocorrências, então todo o planejamento que o programa tinha foi tirado”, lamenta. Para ela, o que ocorreu nos últimos dias é resultado da própria ação do governo.

Beneficiário
Beneficiário do programa, Narciso Rodrigues conta que parou de usar crack graças ao De Braços Abertos
Os usuários que ocupavam o local se deslocaram para a Praça Princesa Isabel, que fica próxima à Cracolândia, também no centro de São Paulo. O local se tornou um novo ponto de consumo e comércio de crack. Outros tiveram atendimento da assistência social e foram direcionados para centros de acolhida na região.

Thais Dias Miranda, orientadora socioeducativa do albergue Boraceia, também na região do Centro, discorda da ação da prefeitura. “Os usuários têm de ter trabalho, terapia, acompanhamento, horários corretos para tomar medicamentos, e os albergues não têm esses recursos.”

A orientadora explica que o local foi construído e destinado apenas para pessoas em situação de rua. “Quando os usuários chegam lá eles não conseguem cumprir as normas pela situação que se encontram, então são obrigados a sair de lá antes do tempo”, conta.

Prostesto de moradores
Moradores lutavam contra as desocupações compulsórias que estão ocorrendo na região (Victória Damasceno)

A ação contou com o suporte da remoção compulsória moradores e comerciantes, seguido da demolição dos imóveis. Durante uma obra, três pessoas ficaram feridas após uma retroescavadeira derrubar a parede e parte do teto de um prédio no qual funcionava uma pensão. O local ainda estava ocupado.

O secretário de Obras de São Paulo, Marcos Penino, disse não ter sido avisado sobre o fato de que pessoas moravam no fundo do imóvel. Somente com a “gritaria” dos moradores, disse ele, os operadores perceberam que havia pessoas no local. 

Após o desabamento, uma decisão da Justiça proibiu a Prefeitura de São Paulo de remover compulsoriamente as pessoas da Cracolândia, além de vetar também a interdição e demolição dos seus imóveis.

A liminar expedida na tarde de quarta-feira 24 pelo juiz Fausto Seabra afirma que o Poder Judiciário não deve intervir em políticas públicas desejadas pela sociedade, "porém compete-lhe o controle da legalidade dos atos administrativos".

Internação compulsória

João Dória
Em entrevista coletiva, Dória já havia prometido as desocupações dos imóveis (Cesar Ogata/Secom)

Diretriz do programa Recomeço do governo de São Paulo, comandado por Geraldo Alckmin (PSDB), a internação compulsória deve ser uma das medidas tomadas por Doria no que diz respeito ao combate ao crack.

O prefeito solicitou à Justiça na manhã de quarta-feira 24 uma autorização para internar à força os dependentes. Segundo o secretário de Negócios Jurídicos, Anderson Pomini, a autorização da à Prefeitura o poder de decidir a internação independente da vontade do usuário, mediante ao acompanhamento médico e psicológico. A solicitação também conta com o pedido de remoção compulsória dos dependentes para avaliação médica, que poderá resultar na internação. A prefeitura afirma que as avaliações serão “multidisciplinares” e entrou com a solicitação em caráter de urgência.