Rosane Borges

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Jornalista, pós-doutorada em ciências da comunicação, professora colaboradora do grupo de pesquisa Estética e Vanguarda (ECA-USP), integrante do grupo de pesquisa Teorias e práticas feministas (Unicamp/Usp), conselheira de honra do grupo Reinventando a educação. Autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012) e Esboços de um tempo presente (2016).

Opinião

A bolha do Facebook e a astúcia do capitalismo

A perseguição do outro em todas as latitudes do planeta deriva também deste mundo circunscrito às timelines virtuais

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A internet e as redes sociais têm o poder de descortinar, inecessantemente, um mundo de maravilhas. Partícipes de formas de comunicação e expressão mais horizontais e democráticas, franqueadas pelo mundo digital, temos tudo (ou quase tudo) ao nosso alcance com um simples toque. Transporte fácil (Uber), acesso a comida e bebida (OpenRice, JustEat), amor e sexo (Tinder, Grindr).

Com as redes sociais, desprovincianizamos o mundo, pagamos, sem perceber, ingresso à praça moderna do mercado onde se expressam publicamente pensamentos, onde se trocam ideias, notícias e informações variadas circulam.

Neste ambiente tecnológico, experimentamos um modo de vida sem precedentes, proclamam os mais entusiastas. Até aí nenhuma novidade.

Mas, eis que vez por outra ouvimos rumores que contrariam tão propalado prognóstico. Para muitos, as redes sociais não conseguem nos arrancar do nosso oceano particular, do invólucro que nos protege do mundo.

Exemplos escapolem em forma de decepção: as eleições para prefeito da cidade de São Paulo foi uma mostra exemplar que corroborou que a nossa timeline não é, necessariamente, espelho do mundo, como às vezes parecemos acreditar.

Dias antes das eleições, um tom de euforia e esperança marcou postagens no Facebook, que arriscavam um segundo turno com o atual prefeito Fernando Haddad na jogada. Apresentado o resultado, alguns passaram a dizer: “É, realmente o Facebook é uma bolha. Tanta gente na minha rede que dizia votar no Haddad….”.

Em tom de exortação, outros retrucavam: “E hora de sairmos das redes sociais, pois enquanto apóstavamos, baseados no desempenho de nossa timeline, que haveria segundo turno com Haddad, ficamos só na saudade”. E assim um rosário de queixas foi se formando.

Os rapazes do Vale do Silício não deixam margem à dúvida. O que já era uma tendência,virou regra. Cada vez mais somos envolvidos em postagens que nos aproximam, assustadoramente, dos mais próximos: postagens fofas de casamento, nascimento de bebês, fotos felizes de famílias ideais, notícias sobre temas com os quais temos afinidade, escassez de debate e de crítica consequentes. E cada vez menos nos deparamos com pessoas que pensam diferente.

Essa prática nos afasta de uma abertura ao outro, propicia limitações cognitivas. O recurso é aparentemente simples: ao oferecermos informações sobre nós mesmos (onde estamos, para onde vamos, que site costumamos visitar, quem são nossos familiares, amigos, companheiros), somos diuturnamente monitorados, e essa infinidade de dados é controlada por poucas empresas, que passam a ser donas de nossas informações pessoais. Os algoritmos, “gentilmente”, nos oferecem o que, supostamente, é melhor pra gente.

João Carlos Magalhães, pesquisador da London School of Economics, abrevia pedagogicamente o funcionamento dos algoritmos: “(..) são usados para decidir automaticamente o que é mais ou menos relevante e deve portanto ser mais ou menos visto. O que vai ou não estar no seu feed de notícias, o que vai estar na primeira ou na terceira página de sua busca no Google.”

“Essa personalização profunda”, continua ele  “só é possível pois os dados produzidos pelos sensores (e por nós mesmos) ajudam a treinar os algoritmos sobre o que nos interessa, e permitem que os sistemas sejam constantemente afinados para refletir nossas supostas preferências”.

Com os algoritmos, descobrimos que a mercadoria somos nós, nossos pares de olhos (a mais-valia da sociedade da hipervisibilidade), nossos desejos. Os desdobramentos disso já se fazem sentir: homogeneização das identidades, padronização de gostos (com a Netflix nos indicando filmes porque nosso amigo assistiu), empobrecimento da curiosidade cultural…

Nada deve ficar opaco, tudo deve aspirar à transparência.

É um estágio do capitalismo em que tudo deve ser apropriado, colonizado. Se não estou enganada, é de Walter Benjamin a afirmação segundo a qual a única coisa que o capitalismo não consegue colonizar é aquilo que a gente tem de mais esquisito, as nossas singularidades inimitáveis.

No entanto, na sua sede de tudo engolfar, o capitalismo avança em territórios até então protegidos. O historiador Jonathan Crary alerta que já vivemos sob a lógica da sociedade 24/7 (a que pouco ou nada dorme) e que “nossa necessidade de repouso e sono é a última fronteira ainda não ultrapassada pela lógica da mercadoria”.

No entanto, pesquisas estão sendo financiadas para acharem a fórmula do “homem sem sono”, do homem 24/7. Tablets e celulares, para o historiador, vão nos acostumando a ficar sempre ligados, a serviço de notícias e postagens que a um toque, a qualquer alerta sonoro nos desperte.

Esse abatimento do homem em quase todos os domínios, em que o seu mundo circundante é o que parece importar, nos leva a pensar no lugar em que a gente se põe no mundo via Facebook, em particular, e redes sociais, em geral.

Tentando, nesse ambiente, responder à pergunta de Martin Heiddeger, “Onde estamos quando estamos no mundo?, podemos precariamente ajuizar que estamos abrigados em bolhas ou clusters de relacionamento.

Estamos, no dizer do também filósofo alemão Peter Sloterdijk, em esferas/bolhas que nos protegem dos perigos e da falta de camadas protetoras, caracrerística própria da época moderna.

Arremata Sloterdijk: “Redes e políticas de segurança devem, agora, ocupar o lugar das camadas celestiais; a telecomunicação deve fazer as vezes do abraço circundante. Envolto em uma pele midiática eletrônica, o corpo da humanidade deve criar para si uma nova composição imunitária”.

Eis o nosso desafio. Sair da pele midiática eletrônica e exercer plenamente a comunicação, que significa um encontro radical com o Outro, sem o qual não existimos.

Num mundo em que as ameaças globais residem na falta do exercício de alteridade, a perseguição do Outro em todas as latitudes do planeta deriva de um mundo enclausurado em seu próprio umbigo, um mundo de incomunicabilidade, de muita opinião (santo Facebook) e pouca reflexão.

Donald Trump, Brexit, a ascensão da direita xenófoba europeia e o ataque a programas sociais no Brasil podem ser vistos como elementos de uma mesma equação. Não é à toa que os espaços material e digital se mostram intolerantes e pouco dispostos a pensarem coletivamente.

Se a técnica não é neutra, podemos, sem exageros, avistar conexões entre a política, a economia e a tecnologia para tentarmos alguma chance de explicação do presente complexo.

É preciso que se diga que, para além dos motivos em circulação (crise do capital, globalização e tantos outros diagnósticos grandiloquentes), a reatualização de práticas racistas, sexistas e xenofóbicas pode também ser compreendida por meio do enunciado, expresso assim de maneira curta e grossa: É o algoritmo, estúpido!

* Rosane Borges é jornalista, professora colaboradora do Centro de Estudos Latino-Americanos em Comunicação e Cultura (Celacc-USP) e pós-doutoranda em Ciências da Comunicação (USP).

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Jornalista, pós-doutorada em ciências da comunicação, professora colaboradora do grupo de pesquisa Estética e Vanguarda (ECA-USP), integrante do grupo de pesquisa Teorias e práticas feministas (Unicamp/Usp), conselheira de honra do grupo Reinventando a educação. Autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012) e Esboços de um tempo presente (2016).

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