Mundo
8 de Março: Queda da ajuda global agrava as desigualdades de gênero
O financiamento americano para a defesa dos direitos das mulheres caiu 94% em 2025
Este 8 de Março de 2026, Dia Internacional das Mulheres, é marcado por um contexto político e econômico inédito. Os Estados Unidos, que eram até então os principais financiadores da defesa dos direitos das mulheres, reduziram drasticamente esses recursos em 2025. A ajuda europeia também recuou. Os cortes agravam as desigualdades de gênero, denunciam representantes de ONGs ouvidas pela RFI.
O financiamento americano para a defesa dos direitos das mulheres caiu 94% em 2025. Essa redução drástica impacta a luta pela igualdade entre mulheres e homens e impõe um retrocesso ao trabalho de associações comunitárias, explica Christiane Yelibi, coordenadora de programas da Speak Up Africa, em Dakar. A principail consequência é o agravamento das desigualdades econômicas, com menor acesso à saúde e à contracepção para as mulheres.
“Tudo isso tem um impacto. Afasta ainda mais as mulheres do espaço público, onde estão as oportunidades de trabalho e de acesso a uma renda autônoma”, observa Christiane Yelibi, em entrevista à RFI.
“A instabilidade econômica está frequentemente ligada à vulnerabilidade, inclusive no que diz respeito à violência de gênero”, ressalta.
“Diplomacia feminista”
Associações feministas reivindicam maior apoio político. Organizações pedem que a França, que preside neste ano o G7 — grupo das maiores economias do mundo — se engaje na defesa de uma diplomacia feminista.
“O desafio agora é implementar essa estratégia pela qual a França afirma também estar comprometida. É necessário sustentar um discurso forte sobre igualdade de gênero em todas as instâncias multilaterais”, afirma Lucie Daniel, responsável por pesquisas da Equipop, ONG dedicada aos direitos e à saúde de mulheres e meninas.
“A França terá de demonstrar essa diplomacia feminista. Isso passa, especialmente, pelo financiamento dos movimentos feministas”, acrescenta.
Segundo um estudo da ONU Mulheres, realizado com mais de 400 ONGs de defesa dos direitos das mulheres, uma em cada três organizações foi obrigada a suspender ou fechar seus programas de combate à violência baseada em gênero devido à redução da ajuda internacional. Apenas 5% delas acreditam que poderão continuar suas atividades por mais de dois anos.
ONU alerta para desigualdades persistentes
Neste domingo, as Nações Unidas colocam o foco no acesso das mulheres aos direitos e à Justiça. Diante das desigualdades jurídicas persistentes — destacadas em um relatório publicado em janeiro — o secretário‑geral da ONU, António Guterres, pede que os países redobrem os esforços para garantir igualdade perante a lei para todas as mulheres e meninas.
O diagnóstico da ONU é contundente: nenhum país alcançou plena igualdade jurídica. No conjunto do planeta, as mulheres dispõem de apenas 64% dos direitos legais garantidos aos homens.
Essas disparidades afetam quase todos os aspectos da vida. Em alguns países, mulheres ainda não têm o direito de possuir bens, pedir o divórcio ou aceitar um emprego sem autorização do marido.
A organização também alerta que em 54% dos países o estupro ainda não é definido com base no consentimento — o que significa que uma mulher pode ser vítima de violência sexual sem que a lei reconheça um crime. Além disso, o casamento forçado de meninas continua legal em quase três quartos do mundo.
Obstáculos para acessar a Justiça
No plano econômico, 45% dos Estados não têm leis que garantam igualdade salarial para trabalho igual. E mesmo quando existem leis para proteger as mulheres, sua aplicação muitas vezes é insuficiente: “em 70% dos países analisados, as mulheres enfrentam mais obstáculos do que os homens para acessar a Justiça”, seja por falta de recursos financeiros ou por discriminações persistentes no sistema policial e Judiciário.
Embora avanços estejam ocorrendo, “no ritmo atual, serão necessários 286 anos para eliminar as disparidades em termos de proteção jurídica”, alerta a ONU.
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