5 monumentos brasileiros que homenageiam figuras questionáveis, segundo professores

O assunto dominou o noticiário após o incêndio na estátua de Borba Gato, notável bandeirante paulista ligado ao tráfico negreiro e indígena

5 monumentos brasileiros que homenageiam figuras questionáveis, segundo professores

Cultura,Sociedade

A sobrevivência de tributos públicos a figuras históricas de biografia condenável pautou o mundo após protestos do Black Lives Matter por ocasião do assassinato de George Floyd. No Brasil, o assunto dominou o noticiário após o incêndio na estátua de Borba Gato, notável bandeirante paulista ligado ao tráfico negreiro e indígena no período colonial.



CartaCapital
 lista cinco estátuas brasileiras que homenageiam figuras questionáveis, a partir de indicações de quatro professores: João Quartim de Moraes, cientista político da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp; Salviano Feitoza, historiador da Universidade Federal de Pernambuco, UFPE; Humberto Kzure-Cerquera, arquiteto e urbanista da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ; e Sarah Maggitti, museóloga da Universidade Federal de Pelotas, UFPEL.

Confira a seguir.

1) Monumento às Bandeiras, São Paulo (SP)

Monumento às Bandeiras, em São Paulo. Foto: Governo do Estado de São Paulo

 

Fundado em 1953, o Monumento às Bandeiras está localizado no Parque Ibirapuera, importante ponto turístico da capital paulista. A obra, do escultor Victor Brecheret (1894-1955), é mais uma homenagem aos bandeirantes, conhecidos como exploradores de riquezas brasileiras e líderes de missões escravistas de negros e indígenas. São retratados portugueses, negros, mamelucos e índios puxando uma canoa de monções.

A obra é lembrada por João Quartim de Moraes. O cientista político destaca que os bandeirantes são homenageados de diferentes formas na capital paulista, em nomes de ruas, rodovias e até da sede do governo estadual, o Palácio dos Bandeirantes. Para o especialista, o símbolo dos bandeirantes é de opressão, e há um consciência no campo progressista de que a obra louva um método de caça a escravos e um processo que contribuiu para interiorizar a colonização.

“Esse epíteto significa que o estado de São Paulo se identifica com as bandeiras”, analisa. “Eufemismos à parte, as bandeiras eram expedições de caça ao índio para escravizá-lo e de busca de ouro, prata e, mais tarde, pedras preciosas e minas.”

 

2) Monumento a Thomé de Sousa, Salvador (BA)

Monumento a Thomé de Sousa, em Salvador (BA). Foto: Governo do Estado da Bahia

 

Militar português, Thomé de Sousa (1503-1579) fundou a cidade de Salvador —  a 1ª capital brasileira — em 1549. Por ordem de Dom João III, Thomé de Sousa foi o 1º governador-geral do Brasil, entre entre 1549 e 1554. No posto, coordenava a colonização em nome da Coroa Portuguesa, combatendo a resistência dos indígenas e apoiando operações de catequização pelos jesuítas.

Sua escultura mais famosa, assinada pelo italiano Pasquale de Chirico (1873-1943), está no Palácio Rio Branco, sede do governo estadual. Há também uma uma réplica, fundida em bronze na Praça São Thomé, no Pelourinho. A indicação é do historiador Salviano Feitoza.

 

3) Homenagem a Maurício de Nassau, Recife (PE)

Monumento a Maurício de Nassau, em Recife (PE). Foto: Reprodução/Google Maps

 

Também indicada por Salviano Feitoza, a obra a João Maurício de Nassau está na Praça da República, no bairro de Santo Antônio da capital pernambucana. A estátua foi doada pelo governo da Alemanha em 2004.

Militar e conde alemão-holandês, Nassau (1604-1679) chegou em Recife em 1637 para chefiar o governo civil e militar do Brasil holandês até 1644, na região do Nordeste.

Segundo especialistas, apesar de ser retratado como humanista e afeito às artes, o militar negociava diretamente o comércio de escravos. A operação foi retomada a partir de sua gestão como representante da Companhia das Índias Ocidentais, organização de mercadores holandeses da época.

 

4) Panteão Duque de Caxias, Rio de Janeiro (RJ)

Panteão Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Foto: Exército Brasileiro

 

O Panteão Duque de Caxias é um monumento na Avenida Presidente Vargas, no centro da capital fluminense, e foi inaugurado em 1949. Assinado pelo escultor mexicano Rodolfo Bernardelli (1852-1931), o monumento abriga restos mortais do marechal, considerado pelo Exército como um exemplo de militar. Ele também dá nome à cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Região Metropolitana do estado.

Ao indicar a obra, Humberto Kzure lembra a atuação do militar contra lavradores pobres, indígenas e negros escravizados durante revolta da Balaiada, no Maranhão, e o comando da sangrenta Guerra do Paraguai.

“Duque de Caxias foi considerado um militar de extrema disciplina e apolítico, mesmo tendo assumido vários cargos políticos no Maranhão e Rio Grande do Sul, e foi considerado pacificador. Mas, até onde se sabe, suas investidas militares foram típicas de um repressor.”

 

5) Homenagem ao marechal Castelo Branco, Porto Alegre (RS)

Estátua homenageia o marechal Castelo Branco, em Porto Alegre (RS). Foto: Brayan Martins/PMPA

 

A escultura em homenagem ao marechal Castelo Branco fica no Parque Moinhos de Vento, o “Parcão”, no centro de Porto Alegre (RS). A escultura foi inaugurada em 1979 e é de autoria do célebre Carlos Tenius (1939), um dos principais escultores gaúchos do século XX.

Primeiro presidente da ditadura militar, Castelo Branco (1897-1967) governou o País entre 1964 e 1967. É descrito como um dos organizadores do regime que permaneceu vigente até 1985 à base de torturas, perseguições políticas, recorde de cassações de mandatos do Legislativo e demais privações de direitos fundamentais.

Sarah Maggitti Silva, professora que indicou a obra, lembra que manifestantes fizeram intervenções no local em 2014, com uma faixa de repúdio à ditadura.

“Vejo essa figura como alheia aos direitos humanos e fundamentais”, opina a museóloga.

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Repórter do site de CartaCapital

Estagiária de CartaCapital

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