29 anos, 33 dias na UTI: um relato pessoal

A jornalista curitibana Anna Tuttoilmondo entrou para estatísticas que indicam um novo marco da pandemia no Brasil — e conta como foi

Mesmo respeitando todos os protocolos, essa doença maldita me atingiu de uma forma que eu não imaginava (Ilustração: Pilar Veloso)

Mesmo respeitando todos os protocolos, essa doença maldita me atingiu de uma forma que eu não imaginava (Ilustração: Pilar Veloso)

Saúde,Sociedade

A jornalista curitibana Anna Barbara Tuttoilmondo sentiu os primeiro sintomas da Covid-19 ao final de fevereiro, após o marido enfrentar a doença. Ele se recuperou sem maiores sequelas. Ela passaria 33 dias na UTI, doze deles entubada.

“Dia 22 de março fui extubada. A partir desse período eu comecei a ser despertada. Mas foi apenas no dia 25 de março que eu fiquei completamente lúcida, que eu sabia quem eu era, onde estava”, conta.

Aos 29 anos, ela entrou para estatísticas que indicam um novo marco da pandemia no Brasil. Naquele mês de março, as pessoas com menos de 40 anos foram maioria nas UTIs brasileira. Segundo dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, 52,2% dos leitos estiveram ocupados por jovensFora do hospital, recupera aos poucos a capacidade pulmonar e os movimentos dos braços e das pernas.

Confira, a seguir, seu relato exclusivo a CartaCapital sobre essa experiência.

O início

Em meados de fevereiro deste ano, meu marido começou a apresentar alguns sintomas compatíveis com os da Covid-19. Muita tosse, febre e dificuldade para respirar. A cada dia o estado de saúde dele oscilava: hora estava bem, hora piorava. Após quase dez dias em casa, com muita insistência consegui levá-lo ao hospital mais próximo. Ele foi direto para a UTI. Após um ano se cuidando, ao precisar ir para o trabalho, meu marido acabou entrando para a estatística dessa doença cruel e devastadora por precisar sair de casa para trabalhar.

Foi nesse período que meus sintomas começaram. Muita febre, dor de cabeça, tosse e dificuldade para respirar. Todos os dias eu tomava remédios. E todos os dias a febre subia e a tosse piorava.. Eu queria acreditar que era só uma gripe aleatória, uma pequena crise. Definitivamente, não estava preparada para o que viria em seguida.

Meu marido seguia se recuperando bem. No dia em que teve alta, 27 de fevereiro, meu marido veio sozinho para casa, pois eu não tinha condições de sair para buscá-lo. Quando ele chegou, eu estava no banho, lutando para me recompor. Ele mal teve tempo para descansar e comer algo. Em menos de 24 horas, lá estava ele novamente no hospital, agora para me ajudar. E é aí que minha história começa.

Foram dez horas até eu ser internada em um leito de enfermaria. Ao longo do dia, acompanhei a correria dos enfermeiros para achar um leito disponível para todos os pacientes que estavam comigo. Cogitaram até mesmo me levar para outra cidade, a 120 km de distância, onde havia um ou outro leito disponível – o que imediatamente disparou a minha ansiedade.

Com muita sorte conseguiram um leito em um hospital local, de fácil acesso para minha família. Fui transferida e logo encaminhada para fazer tomografia, exame de sangue, gasometria. Somente no final da noite, enfim, pude ir para a enfermaria. Meu marido ficou comigo até o início da madrugada. Ele que teve alta naquele dia, mal descansou. Queria que ele fosse para casa, pois achei que, assim como ele, eu sairia dessa em alguns dias, sem alarde.

No dia seguinte, fui acordada abruptamente. Me pediram que pedisse ao meu marido que viesse para o hospital, urgente, pois meu pulmão estava muito comprometido e eu teria que ir para a UTI imediatamente. Isso tudo enquanto corriam para me colocar numa maca. Confusa como quem acabou de acordar, demorei a entender o que estava acontecendo. Como se sobe em uma maca mesmo?

Corro para pegar meu celular e avisá-lo. Repassei a ele todos os contatos (família, trabalho e faculdade) a quem ele deveria comunicar minha internação, além de informações sobre contas a pagar. Depois disso, guardo o celular junto a outros pertences. Naquele momento em encerraria meu contato com o mundo, ao menos até o próximo mês.

Chorar estando intubada é mais ou menos assim: você não faz força, não emite sons. Só deixa as lágrimas caírem do seu rosto e aceita a situação.

A primeira semana na UTI

O que lembro dos meus primeiros dias na UTI hoje se confunde com outras lembranças e as inúmeras alucinações causadas pelos sedativos usados ao longo do meu tratamento. Eu lembro do básico: eu ainda comia comida em dieta livre com pedaços generosos, estava completamente lúcida e tive a sorte de ficar perto de uma televisão, então me distraía um pouco ao longo dos dias e noites.

Ao longo daquela primeira semana eu passei a comer menos, não sei se pela doença em si, ou mais pela ansiedade. Eu também fazia muita VNI (Ventilação Não-Invasiva), um aparelho muito utilizado por pacientes com Covid e outras doenças respiratórias que serve para melhorar as trocas gasosas, facilitando a respiração. A máscara do aparelho cobria todo o rosto, e tinha que ficar bem presa à cabeça. Uma ótima experiência para quem sofre de claustrofobia e/ou ansiedade. Como sofro das duas, entrei em pânico na primeira experiência com a VNI. Mas aguentei e firme até o final.

Eu esperava que meu marido falasse que ia processar todo mundo que me intubou, porque eu não tinha dado permissão para isso, mas não. Ouvi o contrário

Confesso que odiava fazer isso (e quem iria gostar com aquela máscara cobrindo todo o rosto?), então eu ficava torcendo para minha saturação não cair para eu não precisar ir para a VNI. Perguntei aos fisioterapeutas pulmonares se não haveria uma outra máscara, pois a ansiedade e claustrofobia estavam disparando. Graças aos deuses da medicina moderna, havia outra, menor, que cobria apenas nariz e boca, deixando meus olhos livres.

Com essa outra máscara eu fazia a VNI mais tranquilamente. Respirava bem e a saturação subia. Achei que em poucos dias estaria em casa com uma história inusitada para contar mas o destino não quis assim. Ou melhor: meus pulmões não quiseram assim. Tempos depois, sou e que nesses primeiros dez dias eu estava em um estado febril que oscilava, mas nunca passava.

No dia 8 de março, meu marido foi me visitar. Deixaram ele entrar na UTI, com toda a roupa protetora, é claro, porque ele já havia pego Covid. Ele me levou livros e um bilhete que escreveu para mim. Permitiram que ele ficasse comigo por um tempo, pudemos nos abraçar e conversar por longos minutos. Foi reconfortante vê-lo, fiquei extremamente feliz e já estava praticamente chorando de alegria de estar com meu marido novamente, mesmo que naquelas condições. Como eu acreditava que em breve estaria em casa, a despedida não doeu tanto.

O dia anterior

No dia anterior à minha intubação, achei que estava bem e progredindo com as sessões de VNI. Lembro que, na última sessão, a fisioterapeuta me falou para tentar não ficar ansiosa, nem me assustar, senão minha saturação iria cair e nós perderíamos todo o progresso que tivemos. Mas lembro, também, que tinha medo de dormir porque, ao dormir, minha saturação caía muito. Não sei o que aconteceu, se foi minha ansiedade, um ajuste na medicação ansiolítica ou um mal súbito causado pela própria doença, mas algo aconteceu naquela noite e passei mal. Eu não lembro com muita clareza, tenho apenas algumas pequenas memórias fragmentadas dessa madrugada.

Acho que ainda era madrugada, ou já era manhã, quando acordei assustada com um enfermeiro falando para fazermos VNI imediatamente, pois minha saturação estava muito baixa e eu estava em risco. Nos meus flashbacks lembro que tinham mais pessoas à minha volta. Ao longe, ouvi o médico falando de intubação.

Lembro de ter dito à fisioterapeuta que não me deixasse ser intubada, que eu faria VNI quantas vezes fosse necessário mas que, por favor, não me intubassem. Mas já era tarde. Meus pulmões estavam muito comprometidos, só a VNI não bastava mais.

Depois daquela manhã agitada, eu não lembro de mais nada. Era dia 10 de março. Fui intubada e só acordaria dez dias depois.

O despertar

Eu não sei como acordei, mas acordei. Não sei como é processo para despertar alguém de um coma induzido, ou de uma sedação muito forte. Mas acordei.

Totalmente desnorteada, e como um tubo na garganta. Eu entrei em desespero. Não podia falar, não podia gritar, não conseguia me mover, não tinha força no corpo, nos braços, nas pernas, não sabia o que estava acontecendo e por que estavam fazendo aquilo comigo. Eu só chorava.

Ninguém me explicava nada. Eu não sei como, mas fizeram uma videochamada entre eu e meu marido. Será que eu pedi? Será que eles entenderam que eu precisava disso para me acalmar?

Eu esperava que meu marido falasse que ia processar todo mundo que me intubou, porque eu não tinha dado permissão para isso (bem ingênuo da minha parte), mas não. Ouvi o contrário. Lembro dele me pedindo para ter calma, que isso era necessário para minha recuperação. Hoje ele diz que eu tentava dar tchauzinho para ele e minha mãe, em uma pequena tentativa de mover meus braços.

Eu não lembro direito dessa videochamada, mas lembro do sentimento de desespero que percorria todo o meu corpo. Do medo, da aflição. Lembro que eu não parava de chorar. Chorar estando intubada é mais ou menos assim: você não faz força, não emite sons. Só deixa as lágrimas caírem do seu rosto e aceita a situação. Não tem o que fazer, para onde correr. Você só fica lá parada, tentando sobreviver.

 

Acordada e intubada

Meu marido me contou que eu fiquei apenas dois dias acordada depois da intubação, para logo ser extubada. Perguntei se ele tinha certeza dessa informação, pois, na minha perspectiva, eu passei pelo menos uma semana acordada.

Na UTI, você perde a noção de tempo. Eu nunca sabia que horas eram, em que dia estávamos, se era dia ou noite. Por conta do tubo, por exemplo, que estava posicionado no lado esquerdo do meu leito, eu não podia mover a cabeça para o lado esquerdo para tentar ver as horas no único relógio por perto.

Lembro que com uma certa frequência eu pedia para as enfermeiras drenarem o tubo. Junta secreção na garganta e eu posso me engasgar com isso. A drenagem era horrível, porque eu sempre tossia — algo encorajado. “Isso mesmo, Anna. Pode tossir, tussa tudo o que você precisa”, falavam. Eu não entendia o porquê disso e ainda não tive coragem de pesquisar sobre essa informação.

Minha boca também juntava muito saliva, que eu não conseguia engolir, então minha boca precisava ser drenada com uma pequena mangueirinha. As primeiras vezes foram ok, depois começou a machucar — boca, língua, garganta.

Algumas enfermeiras tinham mais paciência que outras para todo esse processo. Nessa altura do campeonato, você passa a acompanhar o movimento, certo? Então já sabia quem ficava em quais turnos, quem era bacana e quem não era. Entendo todo o cansaço, a frustração, o desgaste físico e emocional — acreditem, EU ENTENDO. Mas percebi a diferença de tratamento entre alguns profissionais de turnos diferentes (também ouvi várias fofocas). Talvez isso devesse ser melhor estudado e trabalhado pelas instituições, sei lá.

Se era ruim terem que ficar drenando minha boca a todo o momento, com certeza não era nem um pouco agradável para mim ter que pedir uma coisa dessas. Pior: por mímicas! Era assim que eu me comunicava. Um pouco de mímica (com o pouco que eu conseguia me mexer), e muito jogo de adivinhação. “Você quer comer? Beber? Tá sentindo dor? AH, DRENAR O TUBO!!!”. Era assim a comunicação da equipe de enfermagem comigo. Muita tentativa e erro.

Tem que ter paciência, não tem o que fazer. Era isso ou ficar no escuro. E eu queria a luz.

Banho de leito. E tubo.

Preciso falar do banho. Eu tomava banho de leito. Mas banho de leito, é uma coisa. Banho de leito estando intubada …. meu amigo. Que tipo de experiência maquiavélica é essa??

Eu não tinha força no corpo, mas fazia o possível para ajudar, então se pediam para virar para o lado direito ou esquerdo, eu fazia esforço para isso acontecer (sempre com o suporte dos enfermeiros, claro). Porém, naqueles dias, eu não apenas precisava virar como, também, levar o tubo junto. Se o tubo ficasse levemente posicionado errado, eu já começava a tossir e ficava sem ar (não a ponto de quase morrer, mas parecia que eu ia engasgar).

O banho de leito completo envolvia trocar os lençóis do leito, então isso demanda um certo esforço dos enfermeiros e do paciente. E se você, sem força para nada, tem que mover tubo para cá, tubo para lá, a experiência fica mais cansativa — ao menos para mim.

Se eu tenho certeza que isso aconteceu por apenas dois dias? Eu tenho a palavra do meu marido que sim. Mas para mim isso durou uma semana. A pior semana quase imaginária que eu já vivenciei.

Mesmo respeitando todos os protocolos, essa doença maldita me atingiu de uma forma que eu não imaginava. Tomem cuidado! Não quero que ninguém passe pelo o que eu passei e ainda estou passando.

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Jornalista. Vive em Curitiba (PR).

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