Saúde

‘Vocês não têm noção o que é morrer tentando respirar’

Funcionário de hospitais públicos em Manaus, o fisioterapeuta Alessandro Magno conta como foi o dia seguinte ao colapso do sistema de saúde

Foto: Márcio James/Amazônia Real/Fotos Públicas
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O dia seguinte ao colapso do sistema de saúde de Manaus não foi de tanto choro e desespero no Hospital Universitário Getúlio Vargas. Ao chegar pela manhã de sexta-feira 15 na unidade, o fisioterapeuta Alessandro Magno foi recepcionado com um sorriso e um aceno de mão em forma de agradecimento.

Era dona Maria (nome fictício), de 70 anos, que na quinta-feira 14 quase entra para a lista de óbitos do País. No hospital, como em toda rede hospitalar da capital do Amazonas, faltava cilindros de oxigênio para os pacientes. Com a ajuda de dois colegas, Alessandro buscou alternativas para amenizar o sofrimento da senhora.

“Quando não se tem oxigênio, a gente coloca o paciente com a barriga para baixo, e começa a ventilá-lo com o que tem disponível. Eu, uma enfermeira e um técnico de enfermagem passamos a manhã inteira ventilando manualmente a dona Maria com um ambu (reanimador manual). A tarde, outros colegas continuaram. Hoje, ao chegar ao hospital e vê-la bem, com oxigênio, fiquei feliz e disse: ‘graças a Deus a senhora está viva’. Ela sorriu e me acenou com a mão”, lembra.

No momento do procedimento, acrecenta Alessandro, “brinquei para deixá-la menos tensa, porque o nervosismo que ela apresentava com o medo de morrer era assustador. Ela é de uma cidade do interior e eu dizia que ela deveria ficar boa para voltar bem para o lar”.

O hospital Getúlio Vargas, ligado à Universidade Federal do Amazonas, chegou a ficar algumas horas sem oxigênio disponível na quinta-feira, dia do colapso. A CartaCapital, um profissional da instituição, que não quis se indentificar, detalhou os momentos de pânico.

“Os pacientes foram parando e a gente não tinha o que fazer. Não podíamos reanimar, porque não havia oxigênio”, disse.

Ao chegar ao hospital no dia seguinte, após o sorriso e o aceno de dona Maria, Alessandro percebeu que o cenário era menos traumático do que as 24 horas anteriores.

“Foi um dia mais tranquilo. Quando cheguei para trabalhar, havia cilindros de oxigênio ao lado de pacientes e nos corredores do hospital”, disse.

O profissinal de saúde atribui a pequena melhora às transferências de pacientes e à chegada de novos cilindros de oxigênio. De acordo com o governo do estado, quatro hospitais da rede pública foram abastecidos com uma nova remessa do insumo. Um deles foi justamente o Getúlio Vargas.

“Quando um paciente é transferido, ele deixa de consumir o oxigênio daqui, o que possibilita dar uma sobrevida aos outros que estão hospitalizados. É triste, mas é a realidade. Receber oxigênio e transferir pacientes são uma necessidade para que não vejamos em breve pessoas morrendo ou empilhadas nos hospitais”, comenta.

Equipe médica prepara transferência de paciente. Foto: Michael DANTAS / AFP

No Getúlio Vargas, Alessandro entra às 7h e fica até às 13h15. Logo depois, anda por quinze minutos e chega ao Hospital 28 de Agosto, maior pronto-socorro da cidade, para a segunda parte do expediente.

Devido à crise e à falta de vagas, a unidade fechou as portas durante algumas horas e precisou da ajuda da Polícia Militar para evitar tumulto na entrada. Familiares foram orientados a levar oxigênio para evitar que os parentes internados morressem sem ar.

“A situação é tão crítica que as cirurgias eletivas estão suspensas. O hospital tinha 40 leitos de UTIs geral. Na primeira onda, abrimos mais 12 e depois colocamos os 52 só para Covid-19. Hoje, temos 100 leitos de ventilação mecânica só para a doença”, releva o profissional de saúde.

Alessandro comenta que, diferente da primeira onda da pandemia do novo coronavírus, a segunda parece ser mais agressiva.

“A gente tem uma quantidade de infecção em pessoas jovens muito grande. Há, também, uma evolução rápida da piora em muitos casos.  Hoje, o paciente está bem e amanhã está gravíssimo”, afirma.

“Em 2020,  a dificuldade era não saber como tratar os pacientes. Tudo era muito novo. Também faltavam equipamentos de proteção individual. Agora, nesta segunda onda, a falta de oxigênio”, acrescenta.

Só na sexta, o Amazonas registrou 113 mortes por complicações da Covid-19. Ao longo da pandemia, o estado teve mais de 6 mil óbitos. Os dados constam no boletim epidemiológico da Fundação de Vigilância em Saúde. No documento, foram contabilizados 3.151 novos casos de infecção pelo coronavírus, totalizando 226.511 infectados.

“Vocês não têm noção o que é morrer tentando respirar e não ter ar. É um sofrimento que não desejamos para ninguém”, alerta Alessandro, que faz um apelo: “Não há outro jeito de não ser contaminado do que ficar em casa. Quando você não faz a sua parte, você aumenta o seu sofrimento, o da sua família e o nosso”.

Um homem segura um tanque de oxigênio. Foto: Michael DANTAS / AFP

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