Saúde

Vacina russa não pode ainda ser aplicada em toda população, diz infectologista

Para especialistas ouvidos por CartaCapital, ainda é cedo para chegar à conclusão de que a Sputnik V seja segura

 Foto: AFP.
Foto: AFP.

O estudo divulgado nesta sexta-feira 4, pela revista científica The Lancet, que mostrou os resultados das fases 1 e 2 dos testes em humanos da vacina russa contra Covid-19 não garante a eficácia do imunizante.

Para especialistas ouvidos por CartaCapital, ainda é cedo para chegar à conclusão de que a Sputnik V seja segura.

“De todos os estudos sobre vacina para o coronavírus, esse é o pior desenho. Isso porque só avaliaram 76 voluntários, sendo todos homens, por apenas 14 dias.  Além disso, não fizeram o uso de placebo na pesquisa, o que pode afetar o resultado”, diz a infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi.

Placebo é uma substância que não contém ingredientes ativos, feito para ter gosto e aparência idêntica da droga real a ser estudada. Geralmente, em estudos, metade dos participantes recebe a substância verdadeira e a outra metade apenas placebo. A técnica é utilizada em pesquisas para tirar o viés humano dos resultados.

Para a especialista, apesar dos primeiros resultados positivos, a vacina precisa passar pela 3ª fase como todas as outras.

“Ela ainda não é uma vacina que possa ser aplicada em toda a população, porque precisa da fase 3 que vacina milhares de pessoas para ver a eficácia”, explica Raquel.

Vacina congelada

O médico epidemiologista da Santa Casa de São Paulo  José Cássio de Moraes levanta dúvidas sobre a forma de aplicação do imunizante russo.

“A vacina congelada gera uma resposta um pouco melhor, mas é impossível você aplicá-la em uma campanha pela falta de estrutura. Há poucos locais seguros que você tem esse tipo de congelador”, diz.

Para ele, outro pont0 de preocupação é o perfil das pessoas em que o teste foi feito.

“Foi uma faixa etária muito limitada, entre 25 a 30 anos.  São adultos que produzem mais antianticorpos e têm menos morbidades. Essa fase 3 deve ser ampliada a outras faixas etárias”, afirma o médico.

“Se a fase 3 começar agora, ela está atrasada em relação a outras duas [Oxford e China]. Muito precoce aplicar uma vacina que não se sabe a eficácia e se vai ter evento adverso mais sério do que teve. Hoje, ela não seria aprovada no Brasil“, diz.

Quando teremos vacina para o coronavírus?

Tanto Moraes quanto Raquel acreditam que só no primeiro trimestre de 2021 deve surgir uma vacina.

“Você não produz vacina como produz Aspirina ou sabonete. Tem que exigir controle de qualidade e consistência na produção. Isso faz com que demore”, afirma epidemiologista. 

frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen>

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!