Política

Por que as UTIs são o calcanhar de Aquiles da luta contra a covid-19

Com um mês de quarentena, mais de 2,700 mortes e 43 mil infectados, o Brasil tem vários estados à beira de um colapso sanitário

(Foto: AFP)
(Foto: AFP)

Passado o primeiro mês de quarentena em boa parte do País, o Brasil ultrapassou a marca dos 43 mil infectados pelo novo coronavírus – ao menos segundo os dados oficiais. Na terça-feira 21, os óbitos notificados ao Ministério da Saúde chegaram a 2.741.

A essa altura, vários estados brasileiros à beira de um colapso sanitário.

Conforme avança, a covid-19 enche os pulmões de um líquido amarelo e viscoso, dificultando a respiração. Fica impossível respirar sem ajuda mecânica. Instala-se então tubo de vinte e poucos centímetros que avança, traqueia adentro, para levar ar aos pulmões doentes.

A máquina mantêm o oxigênio indo para o cérebro, coração e rins. Enquanto isso, os médicos trabalham para conter a infecção e recuperar a capacidade respiratória. Esse processo é, quase sempre, feito na UTI. E é justamente este o principal flanco na defesa de estados e municípios contra a doença.

No Ceará, a ocupação dos leitos de UTI reservados para a covid-19 oscila nos 100%. O governo estadual cobra do novo ministro Nelson Teich a habilitação de novos leitos, prometida pelo antecessor Luiz Henrique Mandetta. No Amazonas, quase 90% dos leitos de UTI estão ocupados. Pernambuco e o Rio de Janeiro vivem situação semelhante. Belo Horizonte decretou estado de calamidade pública.

Em São Paulo, epicentro nacional da doença, a taxa média de ocupação é de 60%. Mas a capital já tem hospitais perto do limite. O Hospital das Clínicas, maior complexo de saúde da América Latina, reservou todo o Instituto Central para tratar a doença. Abriu 200 leitos de UTI. Na segunda-feira 20, conforme informou o hospital a CartaCapital, 185 deles estavam ocupados. No sábado, eram 168. A alta percentual, em apenas dois dias, foi de 86% para 93%.

A soma dos casos na periferia já é maior que a das regiões centrais da cidade, onde apareceram os primeiros casos da doença, importados. No Hospital de Parelheiros, no extremo-sul da capital paulista, já não há leitos de UTI. Também se esgotaram as vagas do tipo nos hospitais municipais de Itaquera e em Cidade Tiradentes, na Zona Leste.

Em geral, pacientes do SUS costumam dar entrada no hospital em piores condições de saúde. No hospital Sírio-Libanês, que atendeu cerca de 230 pacientes com a doença, a taxa de mortalidade é de 4%. Já no Emílio Ribas, referência no atendimento do SUS em São Paulo, que teve 113 casos e 11 mortes, o percentual chega a 10%.

Diante desse drama, os governos correm contra o tempo para multiplicar leitos nas UTIs. O desafio é complexo. “Transformar quarto normal em UTI é possível, mas muito complicado”, explica o médico Riad Younes, diretor do Centro de Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz e colunista de CartaCapital. “Se hoje eu decidir transformar dez leitos do Oswaldo Cruz em UTI, é preciso importar ventiladores, comprar oxigênio, que está em falta…”

Cada kit básico de cama hospitalar, respirador artificial e monitor custa, em média, 400 mil reais. Além dessa caríssima estrutura, é preciso capital humano. Em média, um único médico consegue cuidar de trinta pacientes em uma enfermaria. Em uma UTI, de apenas dez.

Uma saída para esta crise é a criação de uma fila única de leitos do SUS. A lei de quarentena garante à União, estados e municípios o poder de requisitar “bens e serviços de pessoas naturais e jurídicas, hipótese em que será garantido o pagamento posterior de indenização justa”.

Fachada do Instituto Central do Hospital das Clínicas, reservado para os casos do coronavírus: UTIs perto do limite (Foto: Divulgação)

Hospitais vazios?

Já há algumas semanas, circulam na internet supostas denúncias de hospitais vazios. Essas fotos e vídeos aparecem, em geral, acompanhados de textos apócrifos que minimizam a gravidade da pandemia. CartaCapital questionou médicos sobre essa possibilidade. Ouviu que existe sim, uma baixa nas internações e atendimento em prontos-socorros. Mas ela não é, nem de longe, sinal de bonança em relação ao coronavírus.

“Muita gente tem deixado de ir ao pronto-socorro por medo de pegar o vírus. Isso vale para os hospitais públicos e para os privados”, explica Daniel Deheinzelin, pneumologista do hospital Sírio-Libanês. Outro motivo, destaca o médico, é que a quarentena diminuiu a incidência de outros vírus respiratórios.

Também foram suspensas cirurgias eletivas. “Um estudo iraniano mostrou que a mortalidade geral pós-operatória aumenta 25% caso o paciente pegue a covid. Mesmo cirurgias simples, como hérnia ou silicone. Não é nada seguro operar na pandemia”, pontua o reumatologista João Alho, coordenador da residência de Clínica Médica da Universidade do Estado do Pará em Santarém.

Outra causa provável é a queda no tráfego de veículos. Sem tantos carros e motos circulando, por conta da quarentena, cai o número de acidentes, uma das principais causas de hospitalização. Em 2018, os acidentes de trânsito causaram 183,4 mil internações no SUS.

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