Pesquisa indica maior índice de circulação nas ruas do Rio de Janeiro

População estaria 'relaxando' na prática da quarentena e se acostumando com a pandemia?

Foto: Alexandre Macieira/Riotur

Foto: Alexandre Macieira/Riotur

Saúde

O terceiro fim de semana desde o início da quarentena carioca teve um sábado como sempre é esperado por quem deseja sair de casa, ao menos em épocas pré-pandemia: temperatura agradável e brisa fresca da manhã até o anoitecer. A curva crescente de contágio não impediu, no entanto, que o calçadão na orla da Zona Sul tivesse o sábado com menor porcentagem de pessoas em casa, segundo dados da CyberLabs.

Análise feita pela empresa, que analisa índices de circulação com base em 800 câmeras de vigilância em sete bairros do Rio de Janeiro (Centro, Tijuca, Copacabana, Ipanema, Leblon, Copacabana, Botafogo e Barra da Tijuca) apontou maiores aglomerações em todas as localidades analisadas em comparação com o sábado anterior, dia 28/03, além de mostrar aumentos em todos os dias desde quarta-feira (1º de abril) até o último domingo – se comparados com os mesmos dias da semana anterior. Os números, que aparecem enquanto a curva de contágio no Brasil começa a se direcionar para o ponto crítico, faz surgir a pergunta: a população estaria “relaxando” na prática da quarentena e “se acostumando” com a pandemia?

O nível médio histórico de circulação em Copacabana antes da Covid-19, que tinha 77% dele reduzido no último sábado de março (28/03), ficou em 70% neste último. Isso equivale a dizer que a cada 100 pessoas que saiam nas ruas do bairro antes da pandemia, 23 saíram no dia 28/03, e 30 neste (04/03). O mesmo foi observado em todos os outros bairros analisados, comparando-se os exatos dois dias. Na Tijuca, a diferença foi de 10%, antes com 95% de queda na média histórica de circulação e, mais recentemente, apenas com 85%. Em Botafogo, os dados foram ainda mais díspares, e se no último sábado de março os números apontavam 87% de queda no nível de circulação do bairro, no primeiro sábado de abril a porcentagem foi de apenas 60%. Na Barra da Tijuca, Centro, e Ipanema/Leblon (analisados em conjunto), a diferença, respectivamente, foi de 7%, 6% e 8%.

O mesmo fenômeno, ainda de acordo com a análise, tem sido observado ao menos desde o dia 25/03, comparando-se os mesmos dias da semana seguinte. Ainda que não conte com comunidades e bairros do subúrbio carioca, a pesquisa põe em cheque locais historicamente movimentados na cidade e aponta para a análise da quarentena a longo prazo.

A médica infectologista Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Rio de Janeiro e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirma não ter exatamente a mesma percepção de que o isolamento tem sido aos poucos deixado de lado, mas que alguns fatores podem contribuir para que essa movimentação aconteça, entre eles a falta de coordenação na comunicação pública. “O principal entrave para as medidas de isolamento social é a discussão que ainda há sobre sua validade pelas autoridades, o que deixa a população confusa e faz acreditar em uma série de contestações, exemplos e estratégias, muitas vezes baseadas em outros países, que não conversam bem com a realidade brasileira e contribuem para quebrar a noção de que a quarentena é eficiente”, diz ela.

A famosa curva de contágio, alvo em que o objetivo das autoridades de saúde vai sempre no sentido de achatar, entra no cálculo de epidemiologistas na medida em que os maiores esforços públicos são pensados de acordo com o ponto crítico calculado. Previsto para o país entre o fim de abril e início de maio, seguindo projeções evolutivas da doença em outros países e considerando a quarentena, desrespeitar o isolamento agora, segundo Vergara, faria que o ponto crítico se adiantasse e tivesse maiores proporções, o que pegaria as autoridades despreparadas: “Agora é o pior momento para sair de novo, porque estamos chegando na hora em que vamos sofrer mais e podemos não estar preparados para isso.”

São três os cenários para uma quarentena duradoura que tenha altos índices de adoção, segundo a infectologista. O primeira deles, a massificação da conscientização, em todas as instâncias e por todos os meios possíveis, da eficácia de se isolar socialmente. O segundo, que as autoridades “parem de brigar” no discurso transmitido e se unifiquem pela adoção clara da quarentena, de forma a não confundir a população na estratégia adotada. Por último, a medida de força de proibir a circulação nas ruas, com multas e outras sanções, como aconteceu na Itália, o que ela não vê como uma impossibilidade. “Acho que também existe uma coisa humana de achar que não vou ser atingido”, completa.

“Acostumar-se” com a ideia de pandemia e “relaxar aos poucos” durante as semanas, mesmo sem duvidar de sua gravidade, tem a ver com uma série de fatores psicológicos, entre eles o nível de isolamento social que a saúde mental de cada pessoa pode aguentar sem sofrer graves golpes, segundo a psicanalista Lindinaura Canosa, da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro.

Com pessoas que já passam por alguma condição especial, como ansiedade, depressão e tendências suicidas, o esperado é que esses problemas se agravem durante a pandemia e o isolamento, de forma que queiram se apegar a qualquer forma antiga de normalidade, como circular normalmente. Isso, quando não é uma questão de saúde: “tenho mantido 30% dos atendimentos presenciais, pois são pessoas que não suportariam não vir e temo pela saúde delas.”

Nessas horas, ainda de acordo com a psicanalista, é comum que as pessoas procurem a “normalidade perdida” nos mínimos afazeres, como comprar roupas pela internet. “Provavelmente essa pessoa não vai poder usar a roupa nova tão cedo, mas apenas a possibilidade de comprá-la, como faria em uma situação normal, já funciona, na lógica dela, associando-se à normalidade”, explica.

O fenômeno do “relaxamento” também se liga às formas de tratar problemas, classificadas por Canosa em três vias: enfrentá-lo, o que seria manter a quarentena; paralisar-se e deprimir-se diante dele; fugir, o que seria reconhecer a gravidade, mas preferir não acreditar nela. O fato de termos que “nos isolar, mas de portas destrancadas”, é ainda mais decisivo, segundo ela, já que configura fato inédito mesmo em situações de risco: “quem mora em áreas de conflito, ao menos consegue ver o inimigo e ter noção clara dele, mas no caso da pandemia, nem isso é possível.”

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Repórter da revista CartaCapital

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