Para pesquisadora de Oxford, não há razão para pânico sobre mutação do novo coronavírus

Países da Europa, América Latina e Ásia decidiram cortar ligações aéreas, marítimas e terrestres e fechar as fronteiras com a Inglaterra

Laboratório de pesquisa do coronavírus. Foto: Paula Fróes/GOVBA

Laboratório de pesquisa do coronavírus. Foto: Paula Fróes/GOVBA

Saúde

Após semanas de otimismo no Reino Unido com o começo da campanha de vacinação contra a Covid-19, no início de dezembro, o anúncio por parte do governo britânico do surgimento de uma nova variante do vírus Sars-cov-2 foi um verdadeiro balde de água fria para os ingleses e vem causando preocupação no mundo inteiro. Para a pesquisadora da Universidade de Oxford, Ana Luiza Gibertoni, a mutação deve ser investigada, mas não há motivo para pânico.

 

 

Diversos países da Europa, América Latina e Ásia decidiram cortar as ligações aéreas, marítimas e terrestres e fechar as fronteiras com a Inglaterra. O governo britânico também decretou um novo lockdown que pode durar meses. Para a médica infectologista pesquisadora da Universidade de Oxford, Ana Luiza Gibertoni, entrevistada pela RFI, as medidas são necessárias, ainda que não exista motivo para pânico.

“Essa mutação gerou um interesse e de fato é algo que merece, que precisa ser investigado”, diz a pesquisadora. Segundo ela, a mutação é inerente ao processo de transmissibilidade e replicação do vírus. Ela explica que o processo foi observado por um consórcio criado com o apoio do governo britânico, instituições acadêmicas e do serviço de saúde, para conhecer a evolução do Sars-cov-2. A organização já sequenciou mais de 140.000 unidades virais de diferentes pacientes. A variante foi detectada em meados de setembro.

Segundo Gibertoni, na Inglaterra, entre especialistas e governo existe um “grau de preocupação moderado, assim como o de certeza, que permite levantar um alerta que deve ser investigado”. A informação de que a nova variante viral poderia ser até 70% mais infecciosa, por exemplo, ainda deve ser averiguada. Esse número é uma medida um pouco indireta, de acordo com a médica.

“A gente viu que essa cepa foi responsável por um número grande do aumento de casos. Tendo essa informação em mãos, algumas relações podem ser feitas como a de que essa variante é mais transmissível. Mas é necessário descobrir se ela é a causa. Por enquanto ainda não se sabe”, explica. “Existem outros parâmetros dados pelos testes que apontam nessa direção, que mostram que as contaminações estão acontecendo de maneira bastante substancial. São necessários ensaios em laboratórios para provar estas observações.” De acordo com a infectologista, as informações podem ser comprovadas até o fim desta semana.

 

Eficácia das vacinas em risco

Sobre a possibilidade da vacina da Pfizer BionTech – que está sendo usada na campanha de imunização na Inglaterra e deve começar a ser aplicada em outros países da Europa – e outras que aguardam aprovação não serem eficazes contra esta variedade de vírus, a pesquisadora se mostra tranquila e diz que no momento não existe uma suspeita alta de que haverá um impacto nesse sentido. “Existe um risco, mas não é tudo ou nada”, diz.

A mutação, segundo ela, se localiza na região que é responsável pela proteína Spike. “Essa proteína é importante porque é o alvo de todas as vacinas testadas até agora e, muito provavelmente, é o principal alvo do nosso próprio sistema imune quando há uma infecção natural”, explica. “O anticorpo tem que ter uma forma específica para se ligar na forma desta proteína. Ainda que não confirmada, uma mutaçao nesta região poderia gerar uma mudança nessa estrutura. Os anticorpos proporcionados pela vacina podem perder a especificidade nessa ligação com essa proteína”, diz.

“Mas o que a gente acredita é que, mesmo assim, a vacina promove a produção de uma gama de anticorpos contra essa mesma proteína. Eventualmente, se houve essa mudança estrutural, um dos anticorpos pode deixar de se ligar, mas vão haver muitos anticorpos que a gente acredita que vão continuar tendo um poder neutralizador do vírus”, afirma a pesquisadora.

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