Onde estão os idosos negros na fila da vacinação?

Faltou um olhar de raça, classe e de gênero ao estipular o plano de vacinação no critério objetivo de idade etária.

Onde estão os idosos negros na fila da vacinação?

Diversidade,Opinião,Saúde

Desde o início da vacinação contra COVID -19 no Brasil, tenho assimilado alguns sentimentos. No início senti esperança, que logo foi substituída por indignação, em decorrência do plano apresentado pelo Ministério da Saúde com grupos prioritários, excluindo as comunidades quilombolas e um cronograma incerto para a aplicação. Posteriormente, juntou-se a indignação um misto de tristeza e inquietude ao ver imagens dos idosos vacinados, semelhante ao que me acompanhava quando estava na escola na infância.

Quando trabalhava na educação, muitas vezes me reconhecia em algumas crianças, pois nessa época, era comum os professores planejarem eventos priorizando datas comemorativas como os dias das mães, pais, reuniões de pais e mestres e outros organizados a partir de um modelo familiar semelhante a família de Jesus: O pai provedor, a mãe virginal e o filho amado.

Percebia nesses eventos, que a ausência de algumas crianças era constante, principalmente no dia das mães e pais. Já nas reuniões, os responsáveis pelas mesmas crianças, raramente compareciam.  Era evidente a tristeza das crianças órfãs ou abandonadas que viviam em abrigos ou instituições, que não podiam se ausentar e compareciam submetidas a um sofrimento psíquico.

Após esses eventos terem ocorrido, eu tentava descobrir os motivos das ausências. Ouvi histórias de pais e mães em situação de encarceramento, dependência química, abandono parental, jornadas de trabalho excessivas, morte precoce e impossibilidades variadas. O sentimento de empatia por essas crianças era grande. Meu pai jamais compareceu nas escolas que estudei. Ele foi um homem que trabalhou por mais de 10 horas diárias até pouco antes do seu coração subitamente parar aos 69 anos.

Minha mãe esteve uma única vez onde eu estudava. Estava com 10 anos de idade e de tanto que pedi, ela compareceu a uma reunião e teve de deixar temporariamente os outros 5 filhos aos cuidados uns dos outros. Me lembro como ela era a mais linda dentre todas as mães presentes, brilhando como um Sol quando adentrou a sala. Sua mente perdeu a lucidez aos 70 anos e ela fez sua passagem um tempo depois.

O número de escolas conscientes da necessidade de não mais organizar o Projeto Pedagógico priorizando essas datas, tem crescido. Eu avalio que os educadores têm tido uma escuta atenta, sensível e responsável ocasionando mudanças necessárias. Perceberam que no interior das escolas existem crianças mais vulneráveis dentre as vulneráveis, invisibilizadas e/ou apagadas nas propostas de ensino de violência sutil, elaboradas ao redor dessas datas.

 

O racismo estrutural, recreativo, institucional, simbólico e cultural, estão presentes no Brasil, segundo Adilson Moreira, fazendo com que pessoas negras tenham propensão a desenvolver problemas de saúde mental e manifestações psicossomáticas. Mulheres e homens; populações indígenas, negros e brancos ocupam lugares desiguais nas redes sociais e trazem consigo experiências também desiguais de nascer, viver, adoecer e morrer.

Essa mesma violência se repete no letárgico plano de vacinação em andamento no Brasil, fundado na escravização secular dos povos negros e indígenas e composto por uma extrema desigualdade. Um pais que segundo o IBGE, a expectativa de vida entre a população negra é muito menor em comparação com a branca, como também a população negra compõe o maior número de vítimas nos índices das taxas de homicídio.

Dados do Mapa da Desigualdade, desenvolvido pela Rede Nossa São Paulo apontam que a expectativa de vida de moradores e moradoras do Jardim Ângela, bairro periférico e predominantemente negro, é de 58,3 anos, ao passo que a expectativa de vida nos Jardins, bairro nobre e predominantemente branco, é de 81,5 anos.

Ou seja, responda comigo à pergunta do título: onde estão os idosos negros na fila de vacinação?

A oportunidade de envelhecer é garantida majoritariamente a pessoas não negras. Doenças cardíacas, cardiovasculares, psicossomáticas, hipertensão arterial, câncer de próstata, diabetes, glaucoma, miomas, são apenas algumas das que acometem mais a população negra. A maioria delas estão relacionadas a condição sócio econômica e são potencializadas pela falta de acesso a saúde de qualidade, nesse sentido, a luta pela valorização do SUS é fundamental para mudar essa realidade.

Vale lembrar que o Brasil é o maior país do mundo em população afrodescendente fora da África e a maioria da população é negra. Deste modo, por que vemos poucas imagens de pessoas idosas negras sendo vacinadas contra COVID-19 em comparação com as brancas?

A vacina que no Brasil foi comemorada com um “funk”, cujo o clipe foi gravado no Instituto Butantã, gênero musical que teve sua origem e faz sucesso entre jovens negros e periféricos, que aguardam sem previsão para também fotografarem suas avós, avôs, pais e mães serem vacinados. Foram poucas as pessoas negras que registraram e compartilharam a imagem acompanhada de um texto emocionado de seus “mais velhos” sendo imunizados. A quase ausência desses registros fotográficos está relacionada ao que percebi nas escolas que trabalhei: Morte precoce, em decorrência do racismo e da desigualdade.

Se vivêssemos em um pais realmente preocupado com a justiça e igualdade social seria interessante também priorizar a vacinação de populações que se encontram em desigualdades socioterritoriais, que são aquelas que vivem nas periferias urbanas e tem mais chances de óbito, diante da pandemia. Aqueles que tem condições de se isolar e vivem em situação de não vulnerabilidade social, podem sim esperar, pois não sentem a morte precoce na pele.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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