O Natal dentro de uma UTI para a Covid-19

Um profissional de saúde conta como foi passar a sexta-feira de Natal entre os pacientes com casos graves da doença

Foto: SILVIO AVILA/AFP

Foto: SILVIO AVILA/AFP

Saúde,Sociedade

por Fábio Rodrigues, em depoimento a Giovanna Galvani

Fábio Rodrigues é fisioterapeuta. Especializado em recuperação cardiorrespiratória, ele atua na unidade de terapia intensiva para Covid-19 de um dos principais hospitais de São Paulo. Neste depoimento a CartaCapital, ele conta como foi passar a sexta-feira de Natal entre os pacientes com casos graves da doença.

Confira a seguir.

7h

Acordei às 5:30 da manhã para começar o plantão. A UTI para a Covid-19 onde trabalho tem 10 leitos. Hoje está lotada.

Essa UTI é equipada com os mais modernos aparelhos para tratamento de doenças respiratórias, inclusive com tomografia por impedância elétrica. Temos uma equipe multiprofissional completa nela.

Por sermos referência no estado de São Paulo, a UTI sempre está cheia. E sempre há muitos pedidos de vaga.

Dos dez pacientes internados, só um não-intubado. Ele está, entretanto, sob ventilação mecânica não-invasiva.

Percebo todos da equipe calados. O desejo de feliz Natal é tímido, sem aquele brilho e energia de outros anos.

Acredito que é pelo fato de ninguém ter se reunido com a família. Nas conversas, percebemos algo em comum: os familiares ficam receosos de estar perto da gente, pois trabalhamos em contato direto com o vírus. Por outro lado, acham que podem frequentar multidões. E o fato de falarmos a respeito nos torna os vilões da família.

Foi o que aconteceu comigo e com outros membros da equipe. Neste Natal, não recebi o ‘feliz Natal’ da família. Mas fiz minha parte, enviei o meu a todos.

Estou aqui na UTI pensando em tudo isso e, claro, triste. Não por passar o Natal numa UTI — foi uma escolha de vida, e sou muito feliz por isso. Mas por ser visto como o chato pelos meus familiares. Não entendem que, se fui contra reunião, foi pensando na proteção de todos.

10h

Um dos pacientes intubados está em circulação extracorpórea — quando uma máquina assume temporariamente a função dos pulmões para tentar salvá-los. É um médico, jovem, sem doenças pré-existentes. Outras senhoras, mães e avós, estão intubadas e sedadas.

Um paciente que foi extubado (teve o tubo de respiração removido) teve uma piora e foi reentubado à tarde. Fiz de tudo para que isso não acontecesse, a equipe toda se mobilizou… Usamos todos recursos para não intubá-lo – ele, um senhor simples, não estava entendendo nada. Explicamos a ele que teríamos que intubá-lo, com um linguajar não-técnico. Ele, em sua simplicidade, perguntava se seria operado ou iria sair dali.

Foi uma intubação difícil e tensa. Também há sempre o risco da equipe se contaminar, pois ocorre nestes procedimentos muita dispersão do vírus no ambiente. Mas ele foi devidamente sedado, não sentiu nada. Mas toda a equipe se entristeceu. Mais uma intubação na UTI, no Natal, de um paciente consciente, que estava até agora há pouco conversando conosco. Comentamos entre nós como tudo aquilo era triste. Ele acordará intubado, sem entender o porquê. Não tínhamos muito tempo para explicar, o procedimento era urgente.

Meio-dia

Tivemos mais duas intercorrências na UTI hoje. Tive que me apressar para não deixar a oxigenação de dois pacientes diminuir ao ponto de causar danos graves. Tivemos que pronar pacientes — manobra para colocá-los de barriga para baixo e facilitar a respiração. Os pacientes com tubo na boca ligado ao ventilador mecânico, catéteres nas veias e artérias, sondas para urinar e para se alimentar, dreno no tórax… Tudo isso tendo que ser virado. Imagine a tensão que isso nos gera, mesmo treinados.

Fizemos tudo sem intercorrências. Foi gratificante, pois um dos pacientes reagiu melhor imediatamente.

14h

Esse paciente que foi intubado iria fazer uma vídeo chamada com a família. Fazemos diariamente videochamadas com pacientes, independentemente de eles estarem conscientes ou não. Havia sido um pedido dele conversar com os parentes acordado. Não deu tempo, e o Natal desta família, que ja estava triste, se tornou ainda mais melancólico. O nosso também.

Fizemos outras vídeos chamadas. Respeitamos a intimidade dos familiares e dos pacientes – eles sequer reconhecem nossos rostos cobertos pelas máscaras, óculos, face shields e toucas. Mas é inevitável não ouvir um “pai nós te amamos, estamos aqui esperando você de volta” ou “mãe, nós te amamos, fica boa logo, vamos sim comemorar o Natal ainda”.

“Amor, tudo isso vai  passar, não desiste! Deus vai te curar”, “Vó, a X tá aqui do meu lado, olha ela mandando beijo. Abre o olho, vó, você está me ouvindo?”.

Do outro lado do tablet, alguns choram. Outro pedem ao médico que mostre o que são todas aquelas “coisas” no paciente: os tubos, os cabos, as sondas etc. Se assustam. E choram.

Sempre que é hora das videochamadas, eu procuro ir à copa. Pode parecer covardia, mas é uma forma de me manter de pé frente a tudo isso. Esta pandemia é tão cruel com todos nós.

Na copa, a conversa girou em torno da tristeza e do cansaço. Falamos de como somos vistos como transmissores de vírus.

Estamos cansados e tristes, mas seguimos firmes. Mesmo sendo ‘chatos’ aos olhos dos outros, pois falamos todos os dias aos familiares sobre o isolamento social e uso de máscaras. Não imaginam o ritual que fazemos a cada atendimento, a paramentação e desparamentação. Ao chegar em casa, tirar a roupa ainda na garagem e seguir imediatamente para o banho.

15h

Continuo atendendo os pacientes, analiso os exames, avalio os raio-x de tórax, imagens, dados, faço ajustes na ventilação mecânica, movimento os pacientes e, com ajuda da enfermagem, os mudo de posição na cama. Eles ficam sedados, muitos deles com bloqueio muscular, não mexem nada voluntariamente. Nós somos os movimentos deles.

Este trabalho é contínuo nas 24 horas da UTI: medicações, movimentações, posicionamentos no leito, visitas multiprofissionais para decidir o melhor tratamento, discussão de casos, pedidos de emergência.

Estou cansado física e mentalmente. Triste pelo paciente que foi intubado, penso nele me pedindo água antes do procedimento – e eu não pude dar. Fico triste por ver todos os dias mortes e intubações. Temos momentos felizes, claro. Mas, infelizmente, as mortes são muitas. Ninguém está preparado emocionalmente para isso.

18h

Hoje não tivemos morte, saímos com a sensação de dever cumprido, às 19h, passo o plantão para o colega da noite, que manterá a mesma rotina — o fato de ser noite é mero detalhe.

Mas também temos nossos momentos de risos e piadas internas, como em qualquer trabalho Falamos dos Natais passados, de como foi a ano, do casamentos de colegas, dos filhos que nasceram. Rimos bastante, a vida segue.

Chegarei em casa sabendo que há uma tristeza no ar. O Natal foi incompleto sem a família. Mas tenho a tranquilidade que todos ficaram a salvo.

Este relato foi feito no calor da emoção. Cheio de certa tristeza por saber que isto está longe de acabar. Desejo que as pessoas tenham consciência de que o uso de máscaras e o isolamento são necessários.

Um grande abraço a todos vocês e Feliz Natal.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É repórter do site de CartaCapital.

Compartilhar postagem