Nicolelis: não há dúvida de que a variante do coronavírus já se espalhou pelo Brasil

Em entrevista a CartaCapital, o médico e neurocientista afirma que as vacinas disponíveis indicam fornecer proteção contra as novas cepas

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis

Saúde,Sociedade

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis alertou, em entrevista ao canal de CartaCapital no YouTube nesta quarta-feira 27, sobre os perigos da disseminação de uma variante do novo coronavírus identificada no estado do Amazonas e que é potencialmente mais transmissível.

 

 

Segundo o professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, as cenas de drama registradas em Manaus, com a falta de oxigênio em hospitais e o avanço da Covid-19,  podem se reproduzir em outros estados e municípios brasileiros. Nas últimas 24 horas, segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Brasil registrou 1.283 mortes pela doença e 63.520 novos casos. O total de vítimas fatais chegou a 220.161.

“Começa a colapsar uma grande cidade como Manaus, mas nós estamos em uma corrida de dominó em que os colapsos serão mais rápidos que a nossa capacidade de dar conta desses pacientes, que não terão para onde ir. Essa é a grande preocupação que nos motivou, no fim do ano passado, a sugerir que o Brasil deveria fazer um lockdown, como o Reino Unido”, afirmou. “Evidentemente é a única maneira de fazer as taxas de transmissão caírem, ainda mais devido à existência de uma nova variante que, não tenho a menor dúvida, já se espalhou pelo Brasil todo”.

 

“A lógica demonstra que, uma vez que você detecta uma nova variante em um país altamente conectado como o Brasil, pela malha aeroviária e rodoviária, ela já se espalhou”

 

A boa notícia, segundo o especialista, é que os imunizantes já disponíveis demonstram o potencial de oferecer proteção também contra as novas variantes. Já há resultados preliminares, por exemplo, que indicam que as vacinas da Moderna e da Pfizer neutralizam essas cepas, ainda que com uma intensidade menor. “Ambas já estão promovendo pesquisas para criar um reforço, para adicionar algo à vacina, para aumentar esse fator de neutralização. Não é criar uma vacina nova, mas é parecido com o que acontece anualmente quando precisa mudar o perfil da vacina de gripe, porque o vírus muda no mundo, aparecem variantes”.

Na entrevista a CartaCapital, Nicolelis também reforçou que não existem tratamentos precoces contra a Covid-19 e que recebe, diariamente, relatos de médicos sobre pessoas que morreram pelo uso indevido da cloroquina e de outros medicamentos defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro e por seus apoiadores. “Pessoas que chegam com parada cardíaca irreversível ou que morreram em casa, porque usaram um remédio que não efeito nenhum”, afirma Nicolelis. “Ao contrário, tem um efeito colateral letal”.

Defensor de um lockdown para reduzir os índices de propagação do novo coronavírus no Brasil, o neurocientista aponta que o País carece de líderes capazes de “mostrar para as pessoas que ainda não entenderam, que não têm acesso à informação correta, qual é o preço a ser pago pelo Brasil se nós não fizermos o que precisa ser feito”.

 

“As pessoas estão cansadas, as pessoas não têm meios de ficar em casa. É neste momento que você precisa de estadistas, que entendam o que é liderar uma Nação, tirar uma Nação de um estado de guerra, porque as consequências a longo prazo da perda de centenas de milhares de vida… As pessoas não têm a menor ideia.”

 

“E, se nós tivermos colapsos funerários em diferentes partes do País, como pode acontecer em Manaus e Porto Velho, nós podemos multiplicar essas perdas por três, quatro vezes a longo prazo”.

Assista à íntegra da entrevista com Miguel Nicolelis:

 

 

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Editor do site de CartaCapital

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