Mucormicose: o que se sabe sobre o raro e mortal fungo que pode acometer doentes de Covid

Na quarta-feira 2 foi anunciada a morte de um paciente de 71 anos, em Campo Grande (MS), com quadro grave

UTI de Covid-19 em Manaus. Foto: MICHAEL DANTAS/AFP

UTI de Covid-19 em Manaus. Foto: MICHAEL DANTAS/AFP

Saúde

Na quarta-feira 2, foi anunciada a morte de um paciente de 71 anos, em Campo Grande (MS), internado com Covid-19, em estado grave, associado a uma suspeita de mucormicose, uma infecção não transmissível causada causada por fungos da ordem Mucorales. Pelo menos outros três casos são investigados no País, um em Santa Catarina, outro em Manaus, e um em São Paulo, no Hospital das Clínicas.

 

 

Mas o que já se sabe sobre a doença? CartaCapital conversou com o epidemiologista Paulo Lotufo para entender a manifestação da mucormicose, sua gravidade e porque ela aparece associada a quadros de Covid-19.

O especialista ressalta que a doença é muito rara: “Um médico, ao longo de sua carreira inteira, deve se deparar com uma dezena casos da doença, eu como clínico geral acompanhei dois”, pontua. Embora rara, destaca, a doença tem potencial devastador. “Ou mata ou deixa a pessoa deformada.”

Considerada grave, e letal em 50% dos casos, a infecção é causada por fungos que geralmente entram no organismo pela mucosa do nariz ou palato, e podem subir para a região dos olhos ou para os seios da face. A infecção, no entanto, não é transmissível.

Sintomas

Suas manifestações se dão geralmente pelo escurecimento da pele, principalmente na área do nariz – a descoloração do tecido morto inspira o apelido fungo negro, cunhado pela imprensa indiana e repetido nos jornais mundo afora. Outros sintomas que acompanham são vermelhidão intensa e inchaço dos olhos, visão turva ou dupla, dor na região do peito, dificuldade para respirar e tosse com sangue. O fungo ainda pode invadir o cérebro e levar à morte.

O tratamento é feito a base de medicamentos antifúngicos controlados e, em alguns casos, pode exigir a retirada dos tecidos necrosados. Lotufo destaca que a infecção é oportunista e por isso tem mais chances de se manifestar em pacientes que têm comorbidades ou fazem uso de medicamentos imunosupressores. “Um dos casos que acompanhei o paciente era transplantado renal, outro era diabética”, esclarece.

A relação com a Covid-19

Sobre a manifestação associada a casos de Covid-19, Lotufo coloca que há ‘possibilidades biológicas que a doença se manifeste em pessoas infectadas pelo coronavírus pelas alterações provocadas na mucosa nasal”.

O epidemiologista segue acompanhando estudos científicos publicados sobre a doença e as manifestações fora do padrão na Índia, com aumento expressivos dos casos. O especialista se refere a um artigo publicado no The Guardian, por um cientista canadense e outro indiano, que sustentam a tese de que, no País, o aumento de casos da mucormicose pode estar associado a um uso máximo e inadequado de corticoides no tratamento da Covid-19. “Isso pode ter causado imunosupressão [minimizar mecanismos de defesa] em muita gente”, aponta.

Outra hipótese para o aumento de casos no país asiático é o tabaco. “Na Índia há um hábito cultural de se mascar muito fumo, o que pode trazer alterações na mucosa da boca, e até levar a casos de câncer.”

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Repórter do site CartaEducação

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