Saúde

Ex-diretor da Bio-Manguinhos: ‘Grávidas e menores devem não ser vacinados’

Único brasileiro entre as ’50 Pessoas Mais Influentes no Mundo das Vacinas’, Akira Homma comenta os desafios da imunização no Brasil

O infectologista Akira Homma (Foto: Agência O Globo)
O infectologista Akira Homma (Foto: Agência O Globo)
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Por Maurício Thuswohl, do Rio de Janeiro

Cientista de renome internacional e único brasileiro a integrar a lista “Cinquenta Pessoas Mais Influentes no Mundo das Vacinas”, elaborada pela indústria do setor, o ex-diretor de Bio-Manguinhos Akira Homma alerta para as incertezas e os desafios ainda presentes no que diz respeito à eficácia, abrangência e segurança das vacinas que serão utilizadas para imunizar os brasileiros contra a Covid-19.

Um dos maiores problemas, diz ele, é saber quando poderemos imunizar nossas crianças e adolescentes, já que a maioria das vacinas em via de utilização pelo governo brasileiro não têm estudos clínicos realizados com menores de 18 anos: “Não vamos vacinar uma população de 70 milhões de pessoas”, alerta.

 

Apesar da pouca firmeza transmitida pelo Ministério da Saúde em seu plano nacional de vacinação, Homma diz acreditar que o número de doses de vacina já contratadas, somado ao que será produzido pela Fiocruz/Bio-Manguinhos no segundo semestre de 2021, garantirá que todos os brasileiros aptos a tomar a vacina sejam imunizados.

Mas isso não acontecerá de forma rápida: “É possível que até o final do ano a gente consiga vacinar toda a população brasileira”, estima. Experiente aos 81 anos, ele afirma que a pressa pela imunização em massa não pode fazer com sejam puladas etapas científicas de análise sobre as diversas vacinas: “Sem a aprovação da Anvisa, não tem como aplicar em toda a população”, diz.

Na conversa com CartaCapital, Homma fala sobre a vacina produzida pela Fiocruz em parceria entre a Universidade Oxford e a AstraZeneca, cobra do Butantan a informação sobre quantas doses da Coronavac estarão de fato disponíveis imediatamente e revela seu ceticismo quanto à vacina produzida pela Pfizer/BioNTech, que precisa ser armazenada a 75 graus negativos: “Não vejo a possibilidade de ser utilizada no Brasil para vacinação em massa”.

Homma, um dos elaboradores do Programa Nacional de Imunização utilizado desde 1973, também aconselha o governo federal a descentralizar o plano de vacinação contra a Covid-19: “As secretarias de Saúde dos estados e municípios têm que arregaçar as mangas”, diz. E também dá sua opinião sobre aqueles que pregam contra a tomada da vacina: “Quem não se vacinar está indo contra a saúde pública do país”.

Leia a seguir:

CartaCapital: O secretário-executivo do Ministério da Saúde afirmou que seria “irresponsável” fixar datas para o início de um plano nacional sem imunizantes aprovados pela Anvisa. Por outro lado, especialistas dizem que o Brasil está perdendo o timing para o início da vacinação.

É melhor respeitar prazos ou dar início o quanto antes?

Akira Homma: Está havendo uma confusão de informações. O secretário-executivo tem razão, porque nós temos que ter a aprovação e a autorização da Anvisa. Esta aprovação é necessária para que possamos conhecer os dados de eficácia e segurança e levar a vacina à população com a tranquilidade e a confiança que essa análise da Anvisa confere. Sem essa aprovação da Anvisa, a gente não tem como pegar a vacina e aplicar em toda a população. A questão não é burocrática ou legal, mas sim de um procedimento de segurança que dá garantia à eficácia e à segurança da vacina.

CC: Nas quatro etapas já anunciadas pelo governo, as pessoas devem receber a vacina Oxford/AstraZeneca, produzida no Brasil pela Fiocruz. Qual a eficácia esperada?

AH: Um conjunto de dados preliminares analisados apresentou 70% de eficácia. Mas, agora nós precisamos esperar ainda a análise e apresentação dos novos dados que a AstraZeneca tem que trazer para a Anvisa. Nós não sabemos ainda o que está ocorrendo. Desde que eles apresentaram os dados preliminares devem ter mais dados acumulados. Então, nós não temos ainda essa informação definitiva sobre a segurança e a eficácia da vacina.

A AstraZeneca tem que apresentar os resultados das análises dos peritos e levar esses dados para a Anvisa analisar. Enquanto eles não fizerem isso, a gente não tem certeza dos números definitivos.

Por outro lado, o Ministério da Saúde tem afirmado que poderá usar qualquer outra vacina que estiver realizando estudos clínicos no Brasil. Pelo o que eu sei, o governo tem um contrato acertado com a Oxford/AstraZeneca que prevê 100 milhões de doses para o primeiro semestre do ano que vem e outros 160 milhões que a Fundação Oswaldo Cruz passa a produzir a partir do segundo semestre.

Além disso, tem 42 milhões da empresa Novavax e o governo está negociando ainda com o Instituto Butantan para a aquisição da vacina do laboratório Sinovac. A Pfizer está oferecendo sua vacina e parece que já iniciou negociação com o governo. Há também o contato com o laboratório russo que desenvolveu a vacina Sputnik. Essas são as informações que temos em Bio-Manguinhos no dia-a-dia. 

CC: A oferta de vacinas aos brasileiros, então, está assegurada?

AH: O grande problema é que todos os laboratórios têm limitação no fornecimento de vacinas. Existe uma enorme demanda por inúmeros países. Em todo caso, o Brasil está bem colocado porque está sob contrato de risco. Antes de ter a vacina ao final dos estudos clínicos e com a certeza de que pode ser usada com segurança – antes disso – o Brasil aceitou o contrato com a Oxford/AstraZeneca para o fornecimento de 100 milhões de doses. Então, nós temos uma prioridade nesse fornecimento.

Eu acho que não vamos ter as vacinas necessárias para toda a população agora em janeiro, até mesmo porque não há vacinas suficientes. Mas, o que já contratamos nós vamos receber. 

CC: O governo acena também com a vacina Pfizer/BioNTech, que demanda armazenamento a 75 graus negativos. Em termos de logística, sua utilização é factível no Brasil?

AH: Esta é uma pergunta que todo mundo está fazendo. Será preciso um super-congelador, um equipamento especial. Você não vai em uma loja e consegue encontrar um refrigerador a -75 graus ou -80 graus. Você vai ter que encomendar, está certo? A indústria brasileira tem condições de fabricar congeladores a -75 graus, mas não vai ser para o próximo ano, não tem como.

Não é só fabricar. Depois de fabricar, você tem que validar e certificar o equipamento, dar garantias de que ele vai funcionar. Levaria um ano pelo menos para obtermos um equipamento de confiança. Vai ser uma dificuldade muito grande.

Apenas alguns laboratórios de pesquisa e hospitais de referência têm esse equipamento no Brasil. Nós temos na Fundação Oswaldo Cruz, aqui em Bio-Manguinhos, e o Butantan também tem, porque precisamos dela para estocar nosso concentrado viral. Muitas matérias-primas são estocadas a essa temperatura. Mas, estão todos ocupados. Como é que se vai desalojar esses equipamentos?

CC: A utilização desta vacina, então, é virtualmente impossível?

Nada é impossível, mas eu não vejo a possibilidade de a vacina da Pfizer/BioNTech ser utilizada no Brasil para vacinação em massa ou em um plano nacional de vacinação que tem que vacinar lá no interior. Você pode até transportar a vacina até lá, mas não terá como estocar porque precisa de gelo-seco e isso só se encontra em algumas capitais. Já a aplicação desta vacina em alguns locais específicos ou centros de referência especiais que tenham esses congeladores será possível. Mas, a quantidade será pequena, não será grande. Além disso, estamos sabendo que a Pfizer não tem condições de fornecer volumes enormes porque a demanda é muito grande e ela vai ter que dividir sua produção com todo o mundo.

CC: Qual a opinião do senhor sobre  a vacina desenvolvida pela Sinovac e que será produzida no Brasil pelo Instituto Butantan?

AH: Pelo o que eu sei, o Butantan está contratando 46 milhões de doses. Mas, eu quero saber quantas doses o Butantan vai receber agora. Com toda certeza não irá receber de uma vez as 46 milhões. Deve receber dez milhões de doses, vinte milhões. O Butantã ainda não esclareceu qual quantidade irá receber.

CC: Diante disso tudo, qual a expectativa em relação à vacinação no Brasil?

AH: Será preciso escalonar e priorizar a vacinação ao longo de 2021 com as doses contratadas e a possibilidade de produção local. Com a produção que vai começar a partir de julho aqui em Bio-Manguinhos, mais as vacinas da Sinovac e da Pfizer, é possível que até o final do ano a gente consiga vacinar toda a população brasileira.

CC: E quais os maiores desafios?

A maioria das vacinas que nós temos são recomendadas somente para maiores de 18 anos. Nos estudos clínicos realizados, somente a população maior de 18 anos foi incorporada.

Então, não temos dados para menores de 18 anos. Essa população não vai ser vacinada. Também não há estudos clínicos sobre a aplicação das vacinas em mulheres grávidas, então esse grupo não poderá ser incluído também, entende?

Só os mesmos tipos de população das que foram incluídas nos estudos a gente poderá vacinar.

O Brasil tem 212 milhões de habitantes e, segundo o Observatório da Criança e do Adolescente, cerca de 30% da população é menor de 18 anos. Portanto, não vamos vacinar uma população de 70 milhões de pessoas. Serão cerca de 140 milhões de vacinados. Você multiplica por dois, dá 280 milhões de doses necessárias, pois serão duas aplicações por pessoa.

CC: Para os que serão vacinados, haverá vacinas suficientes?

AH: Nós vamos ter 100 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca até o fim do primeiro semestre, mais 160 milhões que a Fiocruz e a Bio-Manguinhos irão produzir localmente a partir de julho. Além desses 260 milhões, vamos receber mais 42 milhões do programa Covax da Organização Mundial da Saúde. Só aí já serão 300 milhões de doses e, se contarmos com a vacina do Butantã, são mais 46 milhões. Se contar a vacina da Pfizer, serão mais 70 milhões de doses que irão pingando durante o ano.

Se tudo isso se confirmar, não vai haver falta de vacina. Mas, será preciso priorizar as populações.

Primeiro, os grupos de risco e os profissionais de saúde que trabalham diretamente com os doentes. Enfim, priorizando populações nós iremos até o fim do ano imunizar todo mundo.

CC: O que achou do plano do governo federal no que diz respeito às etapas de vacinação e aos grupos prioritários escolhidos?

AH: O plano anunciado pelo governo é uma operacionalização, uma proposta geral. Para a execução disso certamente vai ter que haver uma flexibilização para um lado e para o outro e tudo vai depender de encontrar uma forma de fazer a vacina chegar a esses grupos prioritários. Na medida em que outros grupos forem surgindo, eles irão sendo encaminhados. A gente não tem como adivinhar os problemas que podem surgir.

CC: O discurso contra a vacinação tem ganhado corpo, inclusive entre médicos. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

AH: Nós temos que informar corretamente a população e colocar todas as informações de forma transparente.

Irão ocorrer reações adversas? Sim, irão ocorrer. Mas, a maioria das reações adversas são transitórias, em um ou dois dias vão embora, está certo?

A proteção conferida pela vacina, o benefício trazido, é muito maior do que o risco. É absolutamente importante para a população em geral se vacinar para conseguirmos alcançar a imunidade de rebanho. Na medida em que a gente consiga essa imunidade, não daremos mais espaço para o vírus ser transmitido. Quem ganha com isso é toda a população. A saúde pública ganha.

A pessoa que é contra precisa entender que, se não se vacinar, será um vetor de transmissão do vírus para outras pessoas e estará indo contra a saúde coletiva. Isso deve ser evitado de todas as formas. Além disso, mesmo depois de vacinado é preciso que se mantenham aqueles preceitos de distanciamento social, de lavar as mãos, de usar a máscara.

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