Estudo de Sorocaba que dá 99% de eficácia a ‘kit Covid’ não seguiu métodos científicos

A pesquisa ouviu 123 pacientes pelo telefone e concluiu que medicamentos têm 99% de eficácia; infectologista vê peça política

Conselho Federal de Medicina diz que não vai rever aval ao 'tratamento precoce' contra a Covid-19. Foto: LQFEx/Ministério da Defesa

Conselho Federal de Medicina diz que não vai rever aval ao 'tratamento precoce' contra a Covid-19. Foto: LQFEx/Ministério da Defesa

Política,Saúde

A prefeitura de Sorocaba divulgou nesta quarta-feira 14 um estudo realizado pela gestão do prefeito Rodrigo Manga (Republicanos) para justificar o uso do chamado ‘kit Covid’, que utiliza medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19. O estudo, no entanto, não utiliza metodologia científica para provar a tese defendida.

De acordo com uma nota da Secretaria de Saúde do município, o estudo preliminar teria apontado 99% de eficácia do tratamento precoce contra a Covid-19. Para chegar a este resultado, a pasta acompanhou, por telefone, 123 pacientes que utilizaram os medicamentos. Apenas um morreu, informaram, os demais se recuperaram.

“O estudo apresentou uma taxa de letalidade de 0,81% entre os pacientes monitorados. Atualmente, o índice de letalidade é de 2,7% na cidade de Sorocaba, abaixo da taxa estadual, que é de 3,2%. Até o momento, 1.113 pacientes optaram pelo tratamento precoce na cidade”, diz a nota.

A prefeitura diz ter questionado os participantes sobre a idade e comorbidades – informações são essenciais em um levantamento como este – mas não divulgou mais detalhes.

Procurada, a Prefeitura de Sorocaba não divulgou informações sobre os participantes do estudo, mas afirmou que  “foi monitorada pela Secretaria da Saúde amostra de 123 pacientes, de diferentes características, gêneros e idades, que tiveram receitados os medicamentos que compõem o tratamento precoce.”

Propaganda política

Questionada sobre a efetividade de um estudo como o de Sorocaba, a infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi, afirmou que os resultados não dizem nada, e servem apenas como propaganda política.

“Se tivessem tomado chá de hortelã, também teriam a mesma evolução. Isso porque 85% dos casos de Covid tem esta evolução, sem agravamento”, explica a infectologista. Segundo ela, um estudo sério recolheria dados randomizados – ou seja, os pacientes utilizados em cada grupo do experimento são escolhidos de forma aleatória.

Todos os estudos randomizamos feitos pelo mundo tem mostrado que os medicamentos defendidos como ‘tratamento precoce’ contra a Covid-19 não funcionam.

A própria fabricante da ivermectina, um dos remédios defendidos, afirmou que o medicamento não é eficaz contra a doença.

Medicamentos estão causando mortes no Brasil

 

As notificações por efeitos adversos decorrentes do uso de medicamentos do  “kit Covid“, como hidroxicloroquina, dispararam em 2020 na comparação com o ano anterior. Segundo um levantamento do jornal O Globo, ao menos dez mortes do tipo foram notificadas, todas após março deste ano.

A pesquisa foi feita com base no Painel de Notificações de Farmacovigilância mantido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por contas destes riscos, parlamentares do PSOL, PT  e PDT entraram com uma ação no Ministério Público de São Paulo contra a Prefeitura de Sorocaba e seu prefeito pelo uso dos medicamentos.

Para os acusadores, a decisão da prefeitura de Sorocaba afronta a ciência, a posição cientifica de organismos internacionais de saúde e a sociedades médicas brasileiras, pois todos já anunciaram que os medicamentos não são eficazes contra os sintomas.

“Há informações oficiais que o processo de cobertura vacinal contra a Covid em Sorocaba está em descompasso significativo. Sabe-se que a vacina é a única possibilidade com alta probabilidade de eficácia comprovada pela ciência contra a Covid-19, não havendo até o momento método farmacológico comprovado para tratar precocemente doentes de Covid-19”, dizem os parlamentares.

 

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Repórter do site de CartaCapital

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