Entenda como funciona o fornecimento de oxigênio a pacientes com Covid

Desde a liquefação do ar até a oxigenação dos tecidos do corpo, não há tempo a ser perdido

Paciente sendo intubado (Foto: iStock Photo)

Paciente sendo intubado (Foto: iStock Photo)

Saúde

O alerta inicial da crise que assolou Manaus neste 14 de janeiro foi dado bem antes de os primeiros relatos emocionados de profissionais da saúde, familiares e pacientes circularem nas redes sociais. Tanto o prefeito manauara David Almeida (Avante), quanto o governador do estado Wilson Lima (PSC) já sabiam dos problemas de abastecimento. O Ministério da Saúde estava ciente da situação há pelo menos cinco dias, segundo o procurador da República Igor Spindola.

No entanto, por mais que pareça contra intuitivo, não se produz milhares de metros cúbicos de oxigênio de um dia para o outro. Isso porque o ar é composto por aproximadamente 78% de gás nitrogênio, 21% de gás oxigênio e 1% de outros gases presentes na atmosfera, explica o físico Leandro Tessler, professor da Unicamp.

 

 

Para obter o oxigênio hospitalar na forma mais usual, é preciso primeiro liquefazer o ar a temperaturas baixíssimas (cerca de -200 ºC), separá-lo dos outros gases e armazená-lo em um local seguro, já que o oxigênio é extremamente reativo. “Se você jogar uma palha de aço no oxigênio líquido, ela vai pegar fogo instantaneamente”, exemplifica Tessler. 

“O oxigênio fica em ‘garrafas térmicas gigantes’, que irão mantê-lo frio e evaporando bem aos poucos. A partir disso, você o leva até onde ele será consumido”, explica o professor, utilizando como base o transporte de oxigênio líquido – como nos cilindros levados pela Força Aérea Brasileira a Manaus nesta sexta-feira 15.

Chegando em um centro médico, o oxigênio, que permanece líquido, mas em constante processo de evaporação conforme esquenta, é transportado ao sistema de tubulações do hospital até o leito. “A tubulação é justamente para aquecê-lo até a temperatura ambiente e chegar muito puro ao paciente”, explica.

No caso dos cilindros de oxigênio gasoso, a pureza do gás também é alta, mas a densidade (a massa de oxigênio por volume) é na casa das 1000 vezes menor do que no estado líquido. Para casos emergenciais, portanto, levar o gás líquido é levar uma maior quantidade de oxigênio. 

Porém, tanto o transporte quanto a produção do oxigênio para o uso hospitalar não são processos rápidos e “óbvios”, diz Tessler. Dependem diretamente da capacidade das indústrias liquefazerem o ar, e também do que será feito com o excedente de produção quando a crise de abastecimento for controlada.

Além disso, para o transporte aéreo – o mais viável para Manaus -, é necessário ter um avião adaptado com escape de ar de dentro da aeronave por conta da reatividade do gás.

Explicadas as condições, tem-se uma dimensão do problema que Manaus enfrenta.

 

O médico Marcos Fonseca Barbosa ajuda a mãe, Ruth Fonseca, 56, com oxigênio dado na casa deles em Manaus. (Foto: Michael Dantas/AFP)

 

De acordo com as informações do governo do estado, a empresa White Martins, fornecedora de oxigênio na região, consegue produzir diariamente 28 mil metros cúbicos de oxigênio por dia. A demanda, por outro lado, disparou cinco vezes nas duas últimas semanas, alcançando um volume de 70 mil metros cúbicos diários. A única solução é trazer o gás de fora.

O cenário é caótico, mas a falta do oxigênio não é assunto inédito do Brasil quando se trata da pandemia.

Na Califórnia, conforme mostra uma matéria do The New York Times do começo do mês, o governo determinou que o Corpo de Engenheiros do Exército e a Autoridade Emergencial de Serviços Médicos do estado reabastecessem os tanques de oxigênio antes do colapso, que era previsto e calculado de acordo com o número de internações.

As recomendações também foram de utilizar o mínimo de gás necessário para manter bons níveis de saturação, a oxigenação no sangue.

 

Respirar não é oxigenar

Conforme a crise se desenrola, a táticas dos profissionais de saúde de Manaus para salvar os pacientes tomam as manchetes.

“Foi uma cena do Titanic, cada um pegando o seu salva-vidas, que era o cilindro de oxigênio e tentando salvar. Todo mundo correndo de um lado pra outro, pegando cilindro pequeno, conectando no ventilador. Tivemos que escolher quem salvar”, declarou um membro da equipe do Hospital Universitário Getúlio Vargas a CartaCapital. 

Segundo relatos, os médicos pronaram os pacientes e tiveram que ambuzá-los para tentar mantê-los vivos. As táticas foram utilizadas para promoverem a maior quantidade de oxigenação possível – um processo geralmente integrante à respiração. Com ela, a troca gasosa, que depende do funcionamento do pulmão, alimenta o sistema de dupla circulação. Dessa forma, o sangue rico em oxigênio vai abastecer os outros tecidos do corpo.

O fisioterapeuta Fábio Rodrigues, especializado em recuperação cardiorrespiratória, explica que a pronagem é o termo técnico para deixar o paciente de bruços na cama. Devido à pressão, o ar se distribui melhor pelo pulmão, o que melhora a oxigenação geral. A técnica é mais utilizada em pacientes que já foram entubados. 

Já ambuzar é receber oxigenação manual pelo ambu, um respirador com uma reserva de oxigênio movida a apertões. Caso seja colocada muita pressão no movimento, ele pode afetar o tecido do pulmão – além de ser extremamente cansativo ao profissional caso se estenda por muito tempo.

“Com o ambu, você consegue enriquecer o pulmão com oxigênio, mas ele consome muito mais oxigênio para se encher do que um ventilador mecânico.”, explica o fisioterapeuta.

 

Método da ambuzagem (Foto: Herraez/iStock Photo).

 

São muitos os problemas provocados pela falta de oxigenação. “Quando não se tem oxigenação adequada, o primeiro impacto é no cérebro. Pode provocar morte cerebral ou sequelas neurológicas. Outro ponto é o coração, o paciente pode ter uma parada cardíaca. Nos pulmões, a desoxigenação pode matar o tecido. Os rins param de funcionar, por isso muitos pacientes de Covid-19 fazem hemodiálise”, enumera Fábio. O pior de todos os órgãos não tão vitais é o intestino, que necrosa sem oxigênio, e não tem cura.

Manaus ainda não divulgou um balanço de quantos pacientes morreram asfixiados, se houve sobreviventes com sequelas e se todas as transferências interestaduais de pacientes será realizada com sucesso.

 

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