Saúde

Em meio a pico de Covid e Influenza, médicos de SP denunciam crise nas UBSs

Falta de profissionais prejudica a população, que chega a esperar, em média, 5 horas por atendimento, sem garantias. Jornada dos que ficam é exaustiva

Créditos: Divulgação Simesp / Fernando dos Santos Braga
Créditos: Divulgação Simesp / Fernando dos Santos Braga
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Exaustão. Esse é o sentimento comum à maioria dos médicos da atenção primária na cidade de São Paulo. Na quarta-feira 19, centenas de profissionais protestaram em frente à Prefeitura cobrando a gestão municipal quanto à contratação de mais profissionais para atuar na linha de frente. Em meio a um novo pico de casos de Covid-19 e do vírus Influenza, as Unidades Básicas de Saúde enfrentam escassez de médicos para atender a população. Algumas não dispõem de nenhum profissional.

“Eu trabalho em uma UBS na Zona Leste que tem capacidade para sete médicos. Essa estrutura nunca esteve completa, já contávamos com cinco médicos prestando atendimento. Só que, neste momento, mais três estão afastados com sintomas respiratórios, ou seja, somos dois para fazer o trabalho de todos os demais“, desabafou uma médica que preferiu não se identificar. Ela conta que, nas atuais condições, cada profissional chega a atender cerca de 80 pacientes em um plantão de doze horas, o dobro do que em um contexto normal.

Dados da própria Prefeitura apontam que, até a quinta-feira 13, 3.193 profissionais estavam afastados de seus cargos.

As consequências são imediatas. As longas filas de espera, em média de 4 a 5 horas, muitas vezes inviabilizam o atendimento das pessoas que procuram as UBSs. Muitas delas, com sintomas respiratórios, retornam às suas casas e trabalhos sem conseguir testes e medicação adequada, o que prejudica diretamente a contenção da pandemia.

“Diante da espera, muitas pessoas desistem do atendimento. Sem testagem e muitas vezes infectados, esses pacientes vão continuar circulando, trabalhando, e por isso vemos essa contaminação gigantesca”, relatou a médica. “Graças às vacinas não temos uma nova onde de casos graves, mas temos uma infectividade muito alta.”

“Queremos que a pandemia acabe logo, mas, para isso, precisamos ter condições de prestar um atendimento de qualidade, testar todo mundo e contar com profissionais que possam direcionar parte dos pacientes para isolamento”, acrescentou.

‘Descaracterização das UBSs’

A médica da Estratégia de Saúde da Família da rede municipal de São Paulo e representante do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Vanessa Araújo, reconhece o agravamento das condições de trabalho com a pandemia. A crise, avalia, acabou por descaracterizar o atendimento nas UBSs, mas também denuncia problemas estruturais mais antigos.

“Com a pandemia e o volume de atendimento, essas unidades passaram a atender basicamente casos de urgência, como se fossem pronto-socorros. Claro que sempre contamos com essa demanda espontânea, mas o fato é que na pandemia isso explodiu e recaiu em um cenário já muito precário, de equipes desfalcadas, sobretudo nas regiões periféricas da cidade”, explica.

“Muitos profissionais antes dedicados a um cuidado mais longitudinal, um acompanhamento mais contínuo, acabaram se vendo como plantonistas, profissionais de um pronto-socorro, o que fez com que muitos migrassem para outras modalidades de atendimento dentro do sistema de saúde ou mesmo procurassem posições nas redes particulares”, esclareceu. “Isso sem contar os afastamentos por adoecimento, exaustão, Burnout.”

Créditos: Divulgação Simesp / Fernando dos Santos Braga

Ainda de acordo com a profissional, a Prefeitura de São Paulo não ofereceu contrapartida à classe em relação à contratação de profissionais para dar conta da alta demanda, nem mesmo para suprir as baixas. Outro ponto questionável, segundo Vanessa, é a falta de oferta de locais específicos, como gripários, para melhorar o fluxo de atendimento de pacientes com e sem sintomas respiratórios.

“Nos primeiros meses da pandemia ainda se entendia a adaptação das unidades para fazer o acolhimento dessa demanda, mas com dois anos de pandemia é completamente inaceitável que não tenha sido oferecido qualquer suporte e que essas equipes continuem atuando de maneira descaracterizada e sobrecarregada”, critica.

Por causa da alta demanda, as unidades básicas de saúde passaram a funcionar aos sábados, sobretudo para cumprir vacinação, impactando no modelo de contrato de trabalho dos profissionais de saúde junto às organizações sociais de saúde, as OSS, que mantêm contrato de gestão das unidades.

“Esses profissionais mantêm contratos de trabalho de 20 ou 40 horas semanais. Com a abertura para vacinação, os médicos passaram a ser escalados para estarem presentes, mas não estavam sendo pagos por esse plantão extra obrigatório”, afirmou.

Falta de diálogo da Prefeitura

Para os profissionais ouvidos pela reportagem de CartaCapital, o ato do último dia 19 e a indicação de paralisação da categoria na data, suspensa por uma liminar da Justiça de São Paulo, sinalizam um caminho de falta de diálogo junto ao prefeito Ricardo Nunes (MDB) e ao secretário municipal de saúde, Edson Aparecido.

O Simesp considerou ‘arbitrária’ a decisão da prefeitura de cercear o direito de greve dos trabalhadores e acrescentou que a suspensão da paralisação foi aceita somente diante da possibilidade de negociações mediadas pelo Ministério Público, conforme previsto na liminar. Ainda assim, o sindicato questiona a data para a audiência de conciliação, 27 de janeiro.

“A data para audiência de conciliação, 27 de janeiro de 2022, foi considerada pela assembleia um prazo exagerado e incompatível com o aumento dos casos de Covid-19 e sobrecarga dos equipamentos de saúde e de seus trabalhadores. Medidas urgentes devem ser tomadas! Como o veto à paralisação pode ser decidido em menos de 24h e a contratação de profissionais deve aguardar mais de 1 semana?”, questionou o Simesp em nota.

Em entrevista concedida ao UOL em 14 de janeiro, o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, afirmou que a Prefeitura está pagando 50% das horas extras de 2021 e que houve autorização para que as organizações sociais paguem as horas extras em janeiro, com os salários. Também anunciou que, em dezembro, foi realizada a contratação de 280 médicos e enfermeiros e autorizada a contratação de mais 700 profissionais pelas organizações sociais. Ainda durante a entrevista, disse que o sindicato ameaçou estabelecer greve pelo menos oito vezes durante a pandemia.

A manifestação do gestor municipal foi rebatido pelo sindicato dos médicos de São Paulo, que afirmou ter recebido as declarações ‘com surpresa’. Além de negar as ameaças de greves alegadas pelo secretário, a entidade cobrou fiscalização das OSS pela Prefeitura, para que se cumpram os pagamentos e as contratações prometidas.

“O secretário diz que já foram contratados mais profissionais para a linha de frente e que já foi aprovado o pagamento de horas extras. Porém, se isso for verdade, é preciso que a Prefeitura assuma sua responsabilidade e fiscalize as OSS que devem executar esse serviço, ou que execute ela mesma. Até agora, diversas organizações não estão pagando as horas extras e, principalmente, não contrataram profissionais para o enfrentamento da pandemia, além de assediar trabalhadores e cobrar que trabalhem como máquinas, e não como pessoas.”

 

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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