Eleição na Fiocruz acontece sob a ameaça de interferência de Bolsonaro

Servidores temem que presidente não respeite a lista tríplice dos mais votados

Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz

Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz

Saúde

Principal instrumento à disposição do governo brasileiro para o enfrentamento ao coronavírus e a busca pela elaboração de uma vacina capaz de conter a Covid-19, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vive forte expectativa quanto ao resultado das eleições para a escolha de seu novo presidente. Iniciada na terça-feira 17, a votação termina às 17h desta quinta-feira 19. No início do dia já registrava o comparecimento às urnas de 90% do colégio eleitoral.

 

 

O temor da comunidade científica e acadêmica é que após o fim do processo eleitoral o presidente Jair Bolsonaro não respeite a lista tríplice dos mais votados que, seguindo a tradição, lhe será enviada. Essa preocupação cresceu após a entrada de última hora na disputa de um candidato declaradamente bolsonarista e que tem como principal mote de campanha “colocar a esquerda para fora da direção da Fiocruz”.

A Fiocruz é a maior instituição de ciência e tecnologia da América Latina voltada à saúde. Sua atual presidente é a socióloga Nísia Trindade, candidata à reeleição. Nísia tem postura elogiada no combate à Covid-19 e, nestes meses de pandemia, tornou-se publicamente conhecida como um dos “contrapontos científicos” ao negacionismo do governo Bolsonaro no que diz respeito à doença.

Inicialmente, havia o registro de outros dois candidatos, ambos integrantes da atual diretoria da Fiocruz: o vice-presidente de Gestão e Desenvolvimento Institucional, Mario Moreira, e o coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, Rivaldo Venâncio. Os programas de Moreira e Venâncio têm vários pontos em comum com o programa de Nísia, e os três candidatos clamam por uma “Fiocruz Unida Pela Vida”.

Mas, a dois dias do final do período de inscrição de chapas, surgiu uma quarta candidatura, personificada em Florio Polonini Junior, servidor com formação em Ciências Contábeis lotado no setor administrativo da Fiocruz. A surpresa inicial da comunidade pelo registro de um candidato que não é da área científica foi logo substituída por preocupação assim que Polonini iniciou sua campanha centrando o discurso no “combate aos esquerdistas” e se dizendo representante “dos bolsonaristas e conservadores da Fiocruz”.

A falta de propostas claras para a instituição – seu programa, batizado “Plano de Gestão em Construção Permanente”, se resume a ideias genéricas, ao contrário dos adversários – contribuiu ainda mais para um possível preconceito e, sobretudo, para a desconfiança em relação à Polonini. Para ele, “combater a cultura do medo e do assédio” realizado pela gestão esquerdista da Fiocruz é prioridade: “Em minhas andanças pelo campus e contato com os servidores, o medo é um tema recorrente. Minha campanha é apoiada por muitos anônimos que têm medo de aparecer e sofrer perseguição”, diz.

O desempenho Polonini nos dois debates realizados entre os quatro candidatos também não ajudou, e teve por parte do candidato bolsonarista gafes como as afirmações que Louis Pasteur inventou a penicilina (na verdade, foi Alexander Flaming) e que Fahrenheit “criou a temperatura”, entre outras. Mas, se no âmbito interno a receptividade a Polonini não foi boa, ele conquistou apoios insuspeitos na rua, como o do prefeito do Rio de Janeiro que, assim como Bolsonaro, também sempre minimizou a gravidade da pandemia: “Na pandemia, a Fiocruz errou tudo. O pessoal da Fiocruz é de esquerda o que eles querem é derrubar o governo do presidente Bolsonaro e a economia. Não têm nada de científicos”, disse Marcelo Crivella, que é candidato à reeleição pelo Republicanos.

 

Servidores querem respeito

O Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc) exige respeito ao processo democrático: “Defendemos a nomeação do candidato ou candidata que ocupar o primeiro lugar, o nome que for respaldado e reconhecido pelos servidores. Nosso próximo passo após a apuração do resultado será defender a rápida nomeação do primeiro colocado na lista tríplice. Diante da gravidade do quadro epidemiológico e sanitário que tanto sofrimento e apreensão tem causado na população, não podemos esperar. O país não pode perder tempo com disputas políticas em torno da presidência da Fiocruz”, afirma Paulo Garrido, presidente da entidade.

Independentemente da postura deste ou daquele candidato, o que causa apreensão é o histórico do governo Bolsonaro de desrespeito às escolhas democráticas: “Temos visto com as universidades e com outras instituições públicas o desrespeito às escolhas das comunidades e aos estatutos. Esse é um dos fatores de preocupação. Existe um movimento, mas que não tem densidade política, de tentar desrespeitar a rica história do processo democrático da Fiocruz. Nós somos uma instituição estratégica de Estado que não pode e não deve ficar ao sabor de flutuações políticas e muito menos servir como instrumento de barganha político-partidária”.

 

Democracia conquistada

Um servidor da Fiocruz há três décadas, que pede para não ser identificado, explica o temor da comunidade científica e acadêmica quanto à possibilidade de Bolsonaro impor o nome de seu candidato: “Uma coisa é certa, o Polonini será o último colocado no pleito, não vai nem para a lista tríplice. Se for nomeado assim mesmo, será um escândalo. O processo democrático é muito caro à Fiocruz. Foi a duras penas que nós conquistamos esse processo de respeito à lista tríplice e à redemocratização da instituição. Isso começou lá em 1985, quando o Sérgio Arouca foi eleito presidente”.

“A nomeação de Polonini seria um segundo massacre de Manguinhos”, afirma o servidor, fazendo referência a como ficou conhecido o processo de desmonte da Fiocruz (então chamada Instituto Oswaldo Cruz), com o cancelamento de pesquisas e a perseguição política a cientistas e servidores, ocorrido após o golpe civil-militar de 1964: “Existe um movimento que une a Fiocruz hoje, que defende as candidaturas da Nísia, do Rivaldo e do Mário. O Polonini fala que se arranjou, na verdade, uma única chapa para brigar contra ele. Pode ser, mas, em todos os meus anos como servidor, nunca vi a Fiocruz tão unida como nestas eleições”, diz.

Enquanto Polonini bate na tecla do suposto aparelhamento da Fiocruz pela esquerda, seus adversários procuram marcar posição contra o que qualificam como obscurantismo do governo Bolsonaro frente à pandemia e defender a atuação da Fundação desde o início da crise sanitária: “Nesta pandemia, todas as ações de sucesso da Fiocruz que ajudaram a salvar vidas e contribuíram para o fortalecimento da imagem pública da instituição contaram com o trabalho silencioso das áreas de gestão da Fiocruz”, diz Mario Moreira.

Rivaldo Venâncio destaca a participação dos trabalhadores da Fiocruz no combate ao coronavírus: “Contribuímos para dar uma resposta institucional coordenada à pandemia de Covid-19, a maior situação de importância sanitária que vivemos no período”, diz. Já Nísia Trindade defende sua gestão: “Em um dos períodos mais difíceis da história do país, a instituição seguiu desempenhando seu papel de promover a saúde dos brasileiros a partir da ciência, da tecnologia e da inovação. A atuação da Fiocruz diante desse desafio vem sendo fundamental para, dentro do possível, defender a vida dos brasileiros. Isso só foi possível pela união de todos os trabalhadores e unidades em defesa da vida. A Fiocruz se manteve íntegra”.

 

Exemplo Collor

Um impasse político provocado pelo desrespeito à lista tríplice na Fiocruz já havia ocorrido em 1990, logo após a realização das primeiras eleições diretas para a presidência da Fundação. Mais bem votados pela comunidade, os nomes de Akira Homma, Arlindo Fábio e Carlos Morel foram submetidos ao então presidente Fernando Collor de Mello, em início de mandato. Ainda surfando a onda de popularidade surgida na primeira eleição direta para a Presidência da República após o fim da ditadura, realizada no ano anterior, Collor tentou ignorar a lista tríplice, alegando que o pleito direto não estava previsto no estatuto da Fiocruz.

A reação da comunidade acadêmica e científica foi forte e imediata, com mobilizações que chamaram a atenção de todo o Brasil para a crise política na Fiocruz em um processo que se estendeu até 1992, quando Collor sofreu impeachment e foi substituído pelo vice Itamar Franco. Nomeado por Itamar para o Ministério da Saúde, o progressista Jamil Haddad foi procurado e o governo finalmente aceitou respeitar a lista tríplice com a indicação de Morel para a presidência da Fiocruz. A partir daquele momento, em todas as eleições realizadas pela Fundação o governo respeitou a vontade da comunidade e nomeou o candidato mais votado.

 

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