Eduardo Bolsonaro xinga Doria de “canalha” em disputa por tutela de cloroquina

Família Bolsonaro tem se empenhado em puxar para si a recomendação do medicamento - que ainda é visto com parcimônia por cientistas

Deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) (Foto: Lula Marques)

Deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) (Foto: Lula Marques)

Política,Saúde

A disputa travada pela “ideia” de usar a cloroquina como parte do tratamento nos pacientes com coronavírus tem ocupado um bom tempo do presidente da República – e, aparentemente, de toda sua base de apoio. Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), xingou o governador de São Paulo João Doria (PSDB) por conta de um vídeo em que Doria associa o uso do medicamento a uma recomendação feita por um médico de sua equipe.

Revoltado com a associação da única atuação ativa do pai em relação a crise até o momento ao seu maior opositor entre os governadores, Eduardo esbravejou: “Canalha! Mil vezes canalha! O senhor não tem o mínimo senso de escrúpulo! Não tem vergonha na cara, governador João Doria?!”, diz o deputado em uma publicação.

O ataque dá sequência à perseguição travada pelos apoiadores de Bolsonaro ao médico infectologista David Uip, diretor do Centro de Contingenciamento do Coronavírus em São Paulo. Uip, que estava afastado por ter sido contaminado pelo vírus, afirmou que participou de uma reunião remota com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e com mais outros três médicos para discutirem o uso da cloroquina em pacientes com coronavírus.

Segundo Uip, foi dessa reunião que saiu a decisão do Ministério de recomendar o uso apenas quando o médico quer prescrever para um determinado caso e o paciente aceitar, explicitamente, receber a medicação. Até o momento, os pesquisadores continuam estudando os efeitos da cloroquina para poderem indicar ou não o uso da substância como parte integrante do tratamento para a Covid-19.

A narrativa dos Bolsonaro, no entanto, é de que esta é a “resposta” para a epidemia no País – e não o isolamento social recomendado por autoridades médicas do mundo todo. O presidente chegou a questionar duas vezes em suas redes sociais se David Uip tinha sido tratado com a droga em sua recuperação, ao que o médico respondeu para que Bolsonaro “respeitasse seu direito à privacidade”.

Uip ainda respondeu que não tinha “nada contra” a cloroquina, mas que pedia apenas cautela no uso do medicamento. “Eu sugeri ao ministro que ampliasse o uso da cloroquina para todos os pacientes internados em duas condições: desde que o médico receitasse e o paciente autorizasse. A cloroquina não é um remédio inócuo, tem efeitos adversos. É um medicamento que tem que ser usado com critério e com cuidado com a observação do médico que prescreveu.”, explicou.

A insistência de Jair Bolsonaro em tratar o medicamento como a salvação e de ignorar apelos para quem as pessoas fiquem em casa quase chegou a derrubar o ministro Mandetta de seu cargo nesta semana. No momento, o Ministério da Saúde recomenda a cloroquina apenas para casos graves, e com outros tipos de acompanhamento médico.

“O Ministério da Saúde está monitorando os estudos de eficácia e segurança da cloroquina/hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19 e, em qualquer momento, poderá modificar sua recomendação quanto ao uso destes fármacos, baseado na melhor evidência disponível.”, diz a pasta.

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