Desmatamento favorece a disseminação de Covid-19 e malária na Amazônia

Estudo conduzido pela Fiocruz mostra ainda que a mudança na biodiversidade favorece a disseminação de outras onze doenças tropicais

Desmatamento da Amazônia brasileira. Foto: Marizilda Cruppe/Amazon Watch/Amazônia Real

Desmatamento da Amazônia brasileira. Foto: Marizilda Cruppe/Amazon Watch/Amazônia Real

Saúde,Sustentabilidade

O avanço de doenças como a malária e a Covid-19 na Amazônia Legal, composta por nove estados brasileiros, está diretamente ligado ao desenvolvimento agrícola, pecuário e ao extrativismo, que causam o desmatamento e a perda da biodiversidade. É o que aponta o estudo ‘Amazônia: da malária à Covid-19’, feito pela Fiocruz em parceria com universidades brasileiras.

A pesquisa também investigou o crescimento de outras onze doenças tropicais na região norte do País, entre elas a leishmaniose, dengue e Chikungunya, disseminadas pelos trajetos agrícolas e extrativistas na Amazônia, ou seja, o caminho do avanço de diferentes técnicas agrícolas e de extração.

No Pará, o plantio de açaí trouxe grande aumento no número de casos da Doença de Chagas

De acordo com o estudo, o tipo de alteração causada pela ação do homem e suas técnicas agrícolas criam diferentes relações de disseminação de doenças na região. Municípios marcados pela cultura agroextrativista e que ainda possuem cobertura florestal – quando há mata remanescente junto à plantação – registraram o crescimento de casos de malária. Enquanto áreas de expansão urbana, como o sul do estado do Amazonas, registraram mais casos de dengue e Chikungunya.

A mudança na biodiversidade, como a perda de habitat de espécies endêmicas, também cria condições para a superpopulação de parasitas vetores de doenças, que alteram seus ciclos de transmissão e infectam novos hospedeiros, como agricultores, animais domésticos e o gado.

No Pará, o plantio de açaí trouxe grande aumento no número de casos da Doença de Chagas — o besouro barbeiro pica agricultores ou é ingerido acidentalmente ao triturado junto da fruta. Outro estudo da Fiocruz reforça essa hipótese: o estado concentrou 81% das infecções pela doença no Norte do País

Covid-19 e a contaminação de povos indígenas e ribeirinhos

Em janeiro deste ano, o estado do Amazonas registrou o maior pico de infecções e óbitos por Covid-19 do Brasil. Por falta de leitos e oxigênio, médicos da cidade de Manaus tiveram que decidir quem salvar.

A facilidade com a qual a Covid-19 se espalhou em todos os municípios da Amazônia Legal se deve, segundo o estudo, ao tráfego de pessoas. Não apenas nas grandes cidades, mas também nas comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas da floresta.”Esse fluxo se deu pela cadeia de contatos que envolveu os profissionais de saúde e assistentes sociais que transitam entre as regiões, assim como moradores que saíram das grandes cidades rumo às áreas mais remotas”, avalia Cláudia Codeço, pesquisadora do estudo.

Em julho de 2021, o desmatamento na Amazônia Legal atingiu uma área de 1.061,9 km², o pior índice anual, segundo o INPE. É o quarto mês consecutivo com recorde de devastação ambiental.

Não é possível calcular o impacto real de contaminação que o extrativismo ilegal causou às comunidades indígenas no Amazonas. O estado registra o maior número de mortes indígenas pela doença no País, até 22 de março foram confirmados 9.029 casos e 304 óbitos por Covid-19, o que corresponde a 42% do total de mortes indígenas em todo o território da Amazônia legal.

A desigualdade de acesso a serviços básicos de saúde é outro aspecto que contribuiu para o elevado número de casos e mortalidade observados. Muitas comunidades ribeirinhas e áreas de preservação indígena são de difícil acesso, o que dificulta a testagem e transporte de casos graves para hospitais.

Malária ainda é um risco crescente, mas ignorado pelo governo

A malária é causada por três tipos de protozoários do gênero plasmodium, sua transmissão pode ocorrer por meio da picada de um mosquito infectado ou pelo uso incorreto e compartilhamento de agulhas e outros instrumentos perfurantes. Entre os riscos da doença, crianças e jovens estão mais suscetíveis há sequelas como anemia grave, hipoglicemia e o edema pulmonar.

Em 2019, a doença infectou mais de 150 mil brasileiros e segue crescendo anualmente. Um dos principais motivos é a ausência do governo na criação de medidas de controle sanitário nas lavouras e cidades pertencentes ao bioma amazônico.

A doença marcou forte presença nas três diferentes táticas de produção (agrícola, pecuária e agroextrativista) analisadas pelo estudo, mas foi significativamente maior em áreas próximas à produção pecuária e plantações de monocultura, como as de milho e arroz.

Os transmissores da malária buscam água limpa e parada para se reproduzir, como a borda de rios e poças formadas pelas chuvas fluviais na floresta amazônica. A criação de estradas e canais dentro da mata contribuem para a criação de piscinas artificiais.

Bebedouros na agropecuária e reservatórios de água, assim como a irrigação de grandes plantações próximas à floresta são outro exemplo de construções do homem que ajudam na proliferação do mosquito.

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Estagiário de CartaCapital

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