Como suprir a falta que fazem no Brasil os médicos pesquisadores?

Expectativa de vida aumentando. Doenças antes intratáveis já com terapias específicas mais eficientes. E pesquisadores caindo

Foto: Sasin Tipchai/Pixabay

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Saúde

Expectativa de vida aumentando. Doenças antes intratáveis já com terapias específicas mais eficientes. Laboratórios de pesquisa em universidades públicas ou privadas, indústrias farmacêuticas, centros de desenvolvimento de inteligência artificial, laboratórios de bioengenharia, centros de estudo e de controle epidemiológico. Todos têm a participação fundamental de médicos pesquisadores. 

A explosão do conhecimento humano é fenomenal. Não há como medir a importância da pesquisa para a sociedade. Os chamados médicos pesquisadores foram e são fundamentais para o progresso da ciência em várias áreas, como química, medicina ou fisiologia. Eles compreendem 37% dos ganhadores de prêmios Nobel e são peças-chave na engrenagem das principais indústrias farmacêuticas, bem como da principal agência americana de fomento à pesquisa (o NIH). 

Um editorial publicado na semana passada na mais prestigiosa revista científica médica do mundo, a New England Journal of Medicine, alerta: esse número está caindo rapidamente.

CartaCapital ouviu o doutor Marcos André Costa, oncologista e coordenador da pesquisa científica do Centro de Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz.

CartaCapital: O número de médicos pesquisadores diminuiu?

Marcos André Costa: Sem dúvida, e rapidamente. Aqueles que se dedicavam à pesquisa eram 4,7% de todos os médicos nos anos 1980. Hoje, somos apenas 1,7%.

CC: A que se atribui esse fenômeno?

MAC: A várias causas. As pesadas atribuições na rotina da assistência médica, as responsabilidades familiares, principalmente das mulheres, a redução do incentivo acadêmico à pesquisa nos meios universitários e os cortes de verbas a ela destinadas são alguns possíveis motivos.

CC: Com os recentes avanços científicos e do conhecimento no campo da saúde, será que ainda há espaço para mais médicos cientistas, como no século XX?

MAC: Sem dúvida. Vivemos ainda uma época desafiadora não apenas na oncologia. O câncer e as doenças cardiovasculares abreviam milhares de vidas anualmente. No Brasil, estima-se que cerca de 600 mil pessoas morram de câncer. São números alarmantes. Estimular os pesquisadores já em atividade e capacitar a nova geração são uma das saídas para vencer os enormes desafios que hoje se impõem à saúde das pessoas e ao sistema público brasileiro.

CC: Como se posiciona hoje a ciência brasileira?

MAC: Há dez anos ocupávamos a 17ª posição no ranking mundial de pesquisa clínica. Hoje caímos para o 24º lugar e participamos de apenas 2,1% das pesquisas em curso. Apesar de sermos o quinto mercado farmacêutico no mundo, perdemos espaço para países com menores PIBs, população e relevância em vendas, como Dinamarca, Hungria, Taiwan e Egito. Com ações corretas de fomento nessa área, poderíamos ocupar a décima posição em um futuro próximo.

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CC: Como a geração local de pesquisa ajudaria um país como o Brasil?

MAC: Todos se beneficiariam de um país de pesquisadores. A geração de patentes é fundamental para a riqueza das nações. O pesado investimento em pesquisas de toda ordem fez de EUA, China, Alemanha e Japão protagonistas no cenário econômico mundial. No âmbito mais local e regional, há benefícios de ordem prática. Uma delas é que pesquisas com drogas novas beneficiam toda uma rede de assistência de saúde. Trazendo para a realidade do oncologista, esses estudos oferecem oportunidades para pacientes receberem tratamentos potencialmente benéficos muito antes de essas drogas estarem disponíveis no mercado. Os médicos poderiam ter seu leque de opções terapêuticas aumentado. Quando tais estudos são provenientes da indústria farmacêutica, há cobertura total dos custos, algo bem-vindo para desafogar a pressão de custos nos planos de saúde e no SUS.

CC: Com a política atual de aperto e redução de recursos para as universidades públicas brasileiras e a pesquisa científica, o que os cientistas sugerem?

MAC: É preciso repensar as estratégias do Brasil no que tange às pesquisas em saúde. Onde queremos estar posicionados e qual relevância queremos ter no tabuleiro científico mundial. Incomoda a representatividade ainda modesta das pesquisas brasileiras em congressos internacionais relevantes.

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Médico, diretor do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e professor da Faculdade de Medicina da USP.

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